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Aos provedores da vergonha o que eles merecem: rua!

SHOW SOCIAL DA COPA BRASILEIRA COMPENSA O FIASCO DA SELEÇÃO

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

12 de julho de 2014 | 21h23

Edu: Uma chacoalhada de 7 a 1 e a Alemanha sai ovacionada do Mineirão, um sacode de 3 a 0 e a Holanda sai nos braços do povo no estádio Mané Garrincha. Essa torcida é o retrato acabado do Brasil cordial, aquele das raízes indígenas, das belezas, do sorriso e da simpatia, velhos estereótipos mais vivos do que nunca. É o que nos resta desta Copa – e não é pouco. Quanto ao futebol, por favor, será que dá para reinicializar?

Carles: Os indígenas tinham desculpa, foram surpreendidos, desconheciam os códigos dos chamados povos civilizados, dos invasores de então. Durante esta Copa, foram os alemães e holandeses os visitantes que quiçá souberam cativar os nativos, e sem precisar recorrer às prendas brilhantes ou espelhos. E jogaram como um dia jogavam as equipes brasileiras. Em todo caso, os colonizados, futebolisticamente, foram eles. E seus seguidores estão encantados com isso. Mesmo assim, a partida de hoje não serve de referência, muito mais preocupantes os jogos contra México, Chile ou Colômbia e até a estreia contra Croácia, sem falar do atropelo da semi. A maioria deles, com Neymar no time. Não é sempre, mas às vezes, os erros no futebol se pagam. E a direção abusou. Também acho difícil que a comissão permaneça como se deu a entender. Mais provável que fosse uma cortina de fumaça para que o jogo de hoje tentasse maquiar um pouco a situação. Que me conste já andaram sondando os possíveis substitutos.

Edu: Esse pessoal quer continuar, Carlão, são de tal forma esquizofrênicos que a história parece que não é com eles. E, isso, vai de Marin até o assessor mais mixuruca da CBF, passando pelos provedores diretos dessa vergonha, Felipão e Parreira (é bom lembrar sempre, já que eles acham que fizeram tudo certo). Às vezes penso que são de outro planeta, mas logo caio na real, eles estão aqui firmes, são uma ameaça de verdade, um pesadelo esportivo no qual o Brasil afundou sem poder escolher. Basta ver mais essa palhaçada que foi a última entrevista pós-jogo, que você pôde acompanhar daí. É muito desrespeito.

Carles: Sei que agora existe uma enorme preocupação com o risco de que esses sujeitos – que a vontade popular não é capaz de eleger mas que acaba representando parte dos interesses nacionais – continuem. Um enorme desrespeito como você diz, mas à inteligência do torcedor. É impossível, Zé. A situação, por mais que o “professor” simule normalidade ou por muito conchavo que possam ter com Marin e seu sucessor que não opositor, Del Nero, é insustentável. Eles também querem se agarrar às suas cadeiras e não vão se importar em rifar a cabeça visível que é a comissão técnica. Todo esse melodrama, usando Neymar como aval, para inibir as possíveis vaias durante o aquecimento ou para dar uma força à argumentação sem nenhuma base de Scolari é sinal de desespero, como um moribundo que se debate.

Edu: Pode ser isso, sim, inclusive porque ninguém que está à beira de perder um salário de 1 milhão por mês deixa de espernear. Só que a natureza humana também é movida por forças internas como a dignidade, mas nem esse princípio tão básico funciona com esses caras. É um final indigno, pobre de espírito, desprezível. E que faz mal ao fígado do brasileiro. Prefiro ficar com as demonstrações civilizadas do torcedor, até por sua condescendência com o grupo de jogadores, as vítimas diretas do sistema autoritário e retrógrado instalado na Seleção. A ponto de serem anulados completamente, até como pessoas, e praticamente reproduzirem como autômatos o discurso doente da direção. Se tudo isso não servir para uma ruptura que leve ao recomeço, não sei mais o que precisa acontecer. Mas é recomeço mesmo, repaginação não serve.

Carles: É um longo percurso, meu velho, preparem-se. É verdade que sem patrocinadores a máquina não funciona, mas com excesso de peso e capacidade de intervenção dos patrocinadores, o combinado nacional pertence cada vez menos ao verdadeiro impulsor, o torcedor. O pacto para essa ruptura deve mesmo nascer dessa aliança entre jogadores e torcedores, estes porque são os que pagam a conta para ter estrelas milionárias, seja através das entradas, do pay-per-view ou comprando os produtos das megamarcas. Gostaria de ouvir as vaias dirigidas a quem realmente merece, para começar a péssima direção, mas sem jamais perder de vista a relação entre a Confederação – uma instituição privada, mas dependente do apoio popular – e os patrocinadores, para que seja o menos invasiva possível. E que sejam cada vez menos frequentes histórias como o absurdo patrocínio dos hashtags nas redes sociais #joguemporele #joguempormim quando Neymar se contundiu, por exemplo.

Edu: Apoio popular, mobilizações, manifestações, esportivas ou não, interação, regozijo, receptividade. A Copa brasileira foi um show social em todos os sentidos e quem esteve na linha de frente foi o torcedor, os daqui e os milhares que vieram, a população do futebol, enfim. Você acha que isso depende de patrocinador e de outros monstrengos? Eu tenho certeza que não, na verdade, depende do que queremos enxergar e valorizar e eu prefiro neste momento valorizar o papel humano do cidadão comum. Patrocinadores, a Fifa, os paramécios da CBF, o sistema ou a máquina, como você diz, nem sempre são capazes de estragar tudo e este Mundial provou isso. Fizeram um senhor estrago na Seleção Brasileira, sim, mas hoje posso dizer que todo mundo sabe quem são os bandidos dessa história. A questão é começar a reescrevê-la o quanto antes, já que o caminho é tão longo.

Carles: A esse estrago eu me refiro, porque as seleções que chegaram nos primeiros postos ou as que não chegaram mas fizeram papéis dignos, não vivem do vento ou de doações, mas souberam limitar o poder dos executivos das grandes marcas. A organização do evento também soube manter os patrocinadores no lugar. A grande danificada nessa história é a Seleção Brasileira, que se não começar logo a marcar esses limites, vai demorar inclusive para encontrar o tal caminho e vai ter uma autonomia cada vez menor, inclusive para escolher a quem entregar a condução do time. E isso, embora não pareça, é falar de futebol, porque as consequência se sofrem no campo, na arquibancada e na frente da TV.

 

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