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Árduo caminho até a Copa

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

28 de junho de 2013 | 19h18

Carles: E então, antes do inicio da Confecup e de conhecer as circunstâncias sociais excepcionais em que se enquadraria o evento, falamos bastante sobre as expectativas desse definitivo teste, dos fatores que fariam triunfar ou fracassar a organização. Faltando pouco para o fim (só falta o mais importante) já é possível fazer um balanço?

Edu: O momento efervescente do país teve peso definitivo, claro, porque impediu que alguns fatores-chave fossem testados. Segurança, por exemplo. Como havia muitos policiais nas ruas por causa das manifestações, esse problema pode ter sido minimizado, nunca saberemos. Além disso, vieram poucos turistas, nem 5% dos ingressos foram vendidos para o exterior. Não dá para considerar, portanto, que a segurança foi aprovada. Mas os seis estádios utilizados eu diria que estão prontos, embora seus gestores tenham um ano para melhorias ou troca de gramados.

Carles: Provavelmente já se previa essa condição de simulacro, ou seja, a colocação de tudo em andamento, mas ainda sem os atores definitivos. Imagino que para a Confecup não se esperava a ida massiva de turistas, ainda mais com a crise econômica na Europa. A repercussão das manifestações teve dois tipos de leitura, a da evolução política do país, da consolidação democrática, por um lado. Em outros casos, acirrou o temor que muitos turistas tinham em visitar o país pelas questões de segurança. É obvio que uma coisa é a criminalidade e outra as movimentações mais ou menos previsíveis, mas sabe como essas coisas são vistas desde longe… É importante tentar mudar essa imagem para garantir o sucesso da organização da Copa, não acha?

Edu: A melhora da imagem tem algumas variantes e essa está entre as principais. Insistimos aqui com a questão da segurança porque é vital. Mas também há outros problemas. A organização geral em Recife foi um completo desastre, a cidade definitivamente não se preparou para a Confecup. Espanhóis e uruguaios sentiram isso na carne. Faltou também infraestrutura de transporte para o público e o acesso ao estádio foi deplorável. Melhorar os meios de locomoção também ajuda e muito na imagem transmitida aos turistas. É outro ponto prioritário daqui por diante. Eu diria que, dentro desse quesito, também está o fluxo nos aeroportos, outra questão que não foi devidamente testada porque a demanda não foi alta.

Carles: Você não acha que ter dificuldades de acesso é algo assimilado pelos brasileiros de tal forma que dificulta uma visão verdadeiramente crítica da questão? As longas distâncias são inevitáveis, pelo menos até a implantação dos teletransporte dos StarTrek. Mas a exigência dos turistas, acostumados a um deslocamento menos traumático, não pode significar de alguma forma, as expectativas de melhora num futuro não tão longínquo para o próprio usuário local que reclama mas se resigna como se fosse um karma.

Edu: Tem tudo a ver. Mas aí entra o gestor competente, né Carlão. Esse cara precisa ter essa percepção, principalmente se o país tiver mesmo a pretensão de desenvolver sua vocação turística, que vai muito além de uma Copa do Mundo. É preciso pensar com a cabeça do turista, óbvio. Deve ter gente aqui capaz disso, não é possível. E aí entra outro problema grave, o dos preços de hotéis, restaurantes e demais serviços. Certamente a imagem que vão levar daqui é de um custo de vida anormal para os padrões locais e também para os europeus, como ouvi muita gente dizer. É um fator que exige ação direta de controle por parte do governo central e dos governos locais, das sedes. Abusar dos preços, além de tudo, é burrice. É espantar uma freguesia disposta a gastar, que até tem boa vontade diante de algumas mazelas, mas que não é idiota.

Carles: Empatia é a palavra da moda. Entender o que os visitantes esperam encontrar e não só aquilo que os organizadores imaginam que eles esperam. E insisto que não é só para inglês ver, mas é o caso de aproveitar para subir o padrão de serviços públicos no país e elevar o grau de exigência dos cidadãos. Se filtrarmos um pouco os últimos acontecimentos, isso já parece estar ocorrendo. A organização de um evento desse nível descarta a improvisação e exige investimento. Isso só se justifica, como já dissemos algumas vezes, se o resultado for um legado para a sociedade que vai ter que aguentar um grande quantidade de inconvenientes. Ouvi dizer que o Catar está preparando um projeto de construção de estádios “desmontáveis” para a Copa 2022 que depois serão doados a países mais pobres. Isso já é exagero não? Ou demagogia?  Ou delírio? Sem chance de termos manifestações por lá.

Edu: Isso tem a cara do Catar, perdulário com perfil ‘filantrópico’. Mas é um traço cultural. No nosso caso, o pior de tudo é ter que aprender na pancada, na adversidade. O País terá que fazer em um ano muito do que poderia ter feito em seis. O mínimo que se espera é que a solução de problemas levantados pela Confecup se some ao atendimento das necessidades de se conectar a construção da Copa a avanços sociais importantes. Ainda dá tempo, é árduo, trabalho pesado, mas possível. O momento de revitalização de valores humanos não pode ser mais propício.

Carles: Filantrópico? Eu diria assistencialista, criar dependências a partir de hipotéticas doações em vez de fomentar a capacitação. Voltando ao Brasil, você acha então que o resultado do teste é um aprovado?

Edu: Não, não acho. E estranharia se fosse aprovado. Mas ao menos temos aí um cardápio de alertas, exigências e recomendações que antes sequer existia. Agora é uma questão de querer fazer bem as coisas ou então pagar um mico histórico, cuja conta pode cair no colo dos mesmos de sempre.

Carles: Um bom balanço. Evidentemente o de vocês é melhor que o nosso. À distância, a questão dos estádios está mais ou menos aprovada já que a expectativa era bastante negativa. Mas é de se condenar  transportes, acessos e, principalmente, a exagerada elevação dos preços que, como você disse, espanta o freguês. Mas não só isso, afasta também o turista depois da Copa.

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