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As Águias Verdes, mais tradição que bom jogo

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

23 de fevereiro de 2014 | 21h06

Edu: Foi-se o tempo daquelas figuras carimbadas do futebol nigeriano, que barbarizaram na década de 90. Quem não se lembra de Amokachi, Finidi George e Nwankwo Kanu, este, carrasco do Brasil na Olimpíada de Atlanta, um time que tinha Ronaldo Fenômeno e Rivaldo. Você mesmo recordou outro dia de Jay-Jay Okocha, que teve temporadas brilhantes no PSG. Eram jogadores de times de ponta na Europa e que marcaram uma época. Mas, parece, não foi suficiente para emendar com outras gerações talentosas. As Águias Verdes não são hoje nem sombra do que foram e se defrontam com uma corrupção crônica na gestão do futebol local, um pouco o retrato da situação social do país.

Carles: O futebol nigeriano já marcou uma época no cenário mundial como um dos países africanos que ameaçaram de verdade as grandes potências e isso, ninguém tira deles. De uns tempos para cá, como a grande maioria do futebol africano, parece muito prejudicado pela obsessão na produção dos tipos de jogadores impostos pelos centros europeus. Olha, sempre achei que existia uma forte conexão entre o Brasil e Nigéria (por razões históricas evidentes), inclusive com semelhanças sociopolíticas das que o Brasil parece empenhado em deixar no passado. Fico imaginando o resultado de uma alquimia futebolística através de uma reconexão com a África centro-ocidental que bem poderia começar durante a Copa. Certamente ganhariam os dois lados.

Edu: A Copa das Confederações expôs muito dessa identidade, os nigerianos foram recebidos como gente da casa por aqui. Mas não vejo a menor possibilidade de um intercâmbio com esse perfil no futebol de hoje, nem sei se haveria interesse dos dois lados. Como há em outros âmbitos culturais, por exemplo. O fato é que a Nigéria perdeu, pelas razões de mercado que você citou, um pouco das raízes que eram a explicação do seu sucesso. O time foi campeão olímpico com muitos jovens que ficaram vários anos no país e depois encorparam as seleções principais, mas a diáspora nessas circunstâncias foi inevitável. E mesmo países sem tradição no futebol, entre eles alguns nórdicos e nações do leste europeu, passaram a fazer importação em massa de nigerianas desde muito jovens. Dificilmente voltaremos a ver uma equipe como aquela campeã olímpica, que venceu na final a Argentina de Zanetti, Ayala, Burrito Ortega, Piojo Lopez e Crespo. Era um timaço…

Carles: Os argentinos que tinham metido quatro na então campeã olímpica, La Rojita, nas fatídicas quartas de final das Olimpíadas de Atlanta. Não vou me repetir uma vez mais sobre a importância de valorizar a cultura local que inclui os torneios regionais como forma de preservar a identidade. Segue sendo a melhor forma de independência, inclusive econômica. Apesar da decadência, nos últimos anos, desde que Stephen Keshi assumiu o comando, as Águias Verdes parecem ter recuperado algo de competitividade, não esqueçamos que são os atuais campeões continentais. Está claro que a Argentina é a favorita do grupo, mas a Nigéria é candidata à outra vaga, na frente de bósnios e iranianos, apesar de atualmente ser a pior colocada das quatro seleções no ranking Fifa. O estágio da Confecup também ajuda.

Edu: Tem a tabela a seu favor, porque estreia contra o Irã e pode passar sem sustos, para então decidir a vaga com a Bósnia no segundo jogo, se levarmos em conta que a Argentina, favoritíssima, ficará mesmo com o primeiro lugar no grupo. Mas o que a Nigéria tem hoje a oferecer tecnicamente é muito pouco. O líder do time é Obi Mikel, do alto de sua bagagem no Chelsea, mas está longe de ser um jogador decisivo. Lá na frente tem Victor Moses, um tipo bem irregular, e Emmanuel Emenike, talvez o atacante mais perigoso, hoje no Fenerbahce. No mais, alguns experientes, como o goleiro Vincent Enyeama, que nem está garantido como titular, e o lateral Taye Taïwo, do Marselha. Só se Stephen Keshi ousar e promover a grande sensação do futebol belga, Imoh Ezequiel, de 20 anos. Se bem que falar a idade de jogadores nigerianos é sempre temerário. É bom lembrar que a maioria dos nascimentos no país sequer são registrados, em especial nas províncias distantes das grandes cidades, como a capital Abuja e principalmente Lagos, o que dificulta qualquer análise realista sobre a verdadeira origem de muitos jogadores. É uma das sinas com que a Nigéria tem que conviver.

Carles: Complicado. A suspeita segue pairando inclusive sobre os garotos, normalmente verdadeiros portentos físicos, que chegam anualmente do continente africano diretamente às divisões de base dos grandes clubes europeus. Têm sido as grandes sensações dos torneios dente-de-leite, graças à sua potência física e ao atrevimento que ainda conseguem preservar nessas idades.

Edu: Como no caso mais clássico envolvendo nigerianos, o de Taribo West, um zagueiro canhoto bastante técnico, titular do time campeão olímpico, que segundo o presidente do Partizan de Belgrado teria 12 (sim, doze!!) anos a mais do que dizia ter e mesmo assim foi contratado pelo time sérvio. Com tudo isso, a Nigéria não deixará de ser uma grande atração por aqui, seja pelo passado glorioso, seja pelas extravagâncias de algumas de suas figuras. Mas certamente será um time recebido com a simpatia de sempre dedicada aos africanos.

 

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