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As armadilhas para os europeus em 2014

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

13 de setembro de 2013 | 09h58

Carles: Falemos um pouco de sedes e campeões. Considerando o continente americano como um todo, Brasil por duas vezes e Espanha, uma, foram os duas únicas seleções que conseguiram ser campeões fora do próprio continente. Além disso, o fato de o Brasil não ter ganhado o próprio torneio, dissipa a eterna suspeita à que parecem condenados argentinos e ingleses (sempre os dois!). Será que essas duas premissas aumentam um pouquinho as possibilidades de um eminente bicampeonato de La Roja, mais além dos aspectos esportivos?

Edu: E ainda tem os franceses, que ganharam em casa, em 1998. Mas se o problema que você levanta for um teórico favorecimento (Da Fifa? Dos árbitros? Das empresas? Dos governos?) ao time que joga em casa, acho que os tempos são outros. Ao Brasil, que não era mas se tornou um dos favoritos depois da Confecup, não será nenhum desastre perder o título em casa mais uma vez, como seria para a Argentina no governo militar e muito mais para a Inglaterra, os inventores desse jogo. A questão para os europeus aqui como para os sul-americanos na Europa talvez seja mesmo a força do ambiente. A Espanha sentiu na carne o Maracanã e o com o Brasil passou o mesmo na final de Paris contra Zizou.

Carles: Mais do que o Maracanã, temo que os meus conterrâneos sentiram o rigor do Nordeste e chegaram ao Rio prontinhos para serem devorados pela voracidade da torcida. Uruguai também ganhou em casa, mas a exemplo da França, a suspeita de “amaño” é menor do que nos casos de 1966 e 1978. Por enquanto, esse seu raciocínio de estranhar o outro lado do Atlântico é cada vez mais ameno para os americanos, acostumados a jogar na Europa. Quem sabe dentro de oito anos, poderemos jogar desse lado utilizando já alguns futebolistas que atuem por aí o ano inteiro? Enquanto isso e até 2014, a seleção do Brasil segue sendo a única a ganhar uma Copa na casa do adversário, considerando que África do Sul, Japão e Coréia do Sul ainda são terrenos neutros.

Edu: Não sei como os alemães, os embaixadores internacionais da frieza emocional, iriam sentir aquela pressão da Roja no Maracanã, mas sempre algo passa nessas ocasiões. A questão é você enfrentar o time da casa e em circunstâncias adversas de outro tipo, como é o caso do clima. Nem tomo aquele time do Brasil de 1958 como parâmetro, porque, além de ter jogadores excepcionais, imagino que a pressão dos torcedores suecos não seja algo do outro mundo. E o adversário também não era. Proeza mesmo quem fez, e aí acho que está a vantagem do intercâmbio para os sul-americanos, foi a Argentina na Copa da Itália. Ali o bicho pegou, mas Dieguito levou um time meia boca para a final passando pela Itália na semi.

Carles: E perderam por pouco e de forma não tão clara. Também é verdade que aquele campeonato careceu de qualidade técnica, uma transição que afetou um e outro lado do planeta futebol e da que só parecia isento ‘El Pelusa’. Aliás, uma crise de jogo que de alguma forma, estendeu-se até a Copa de 1994. Uma tendência que só sucumbiu graças à reformulação ‘a la Ecclestone’ dos senhores da FIFA para o seguinte campeonato mundial, na França. Um festival de verão muito bem organizado, a tempo de eternizar uma brilhante geração de futebolistas que por pouco ficam sem prêmio a nível mundial.

Edu: Vejo de forma diferente as crises técnicas de 1990 e de 1994. A Copa de 90 foi excepcionalmente fraca porque mesmo os times grandes foram muito mal tecnicamente. Era de fato um período de transição. Em 1994 houve algumas grandes partidas, mas a Copa foi prejudicada seriamente por dois problemas que, aliás, podemos viver aqui: os longos deslocamentos das seleções e o papel do devastador binômio temperatura/umidade. As seleções europeias chegaram às quartas-de-final nos EUA esgotadas, alguns jogos eram disputados ao meio dia, na Califórnia, a 41 graus. A Fifa teve o mínimo bom senso de marcar os jogos no Brasil para um pouco mais tarde, mas quem garante que jogar às 5 da tarde em Manaus não vai derrubar qualquer seleção europeia por mais que se prepare?

Carles: Problemas ou soluções, dependendo do ponto de vista. Realmente você tem razão quando às semelhanças entre a Copa nos EUA e de 2014, no Brasil, ambas mais bem continentais e não só pelas dimensões territoriais mas pela obrigação de atender às expectativas de que cada um dos pontos cardeais. Se no sorteio da sede não sair Curitiba ou Porto Alegre para a Espanha, temo que esse bicampeonato já nasce morto. Se bem que, por aqui, a temporada cada vez começa mais cedo e em pleno verão, só que com jogos começando às 11 da noite, para que todo mundo tenha tempo de chegar da praia, jantar em família e só então, ir ao estádio. Como você vê, nos aguarda muito stress por aí. Pelo menos para quem está acostumado ao estilo de vida mediterrâneo.

Edu: Não pense que será fácil para as seleções deste lado também. Basta ver o que o Uruguai passou nas Confederações. E mesmo o Brasil, com mais de 80% de seus jogadores acostumados ao clima europeu, terá que jogar em São Paulo, depois na umidade de Fortaleza e em seguida na secura de Brasília, ou seja, vai percorrer mais da metade do país em pouco mais de dez dias, sabe-se lá em quais temperaturas. Se há uma vantagem para o Brasil continua sendo a pressão da galera, algo em que nem por aqui se acreditava antes da Copa das Confederações. A própria França, que vinha meio insegura em 1998, só decolou para o título quando o país se ligou de que o time poderia ser campeão. Quando a torcida fecha com o time nessas circunstâncias dificilmente a pressão não dá resultado.

Carles: Mesmo nesse aspecto, dentro de um mesmo território nacional, existem torcidas e torcidas. Nem todo mundo está disposto a gritar incondicionalmente o nome da “pátria”. Por aqui, por exemplo, os dirigentes sabem que determinadas praças para os jogos do combinado Espanha nas eliminatórias podem ter pior efeito para os interesses nacionais do que um jogo na casa do adversário. Em alguns lugares, inclusive o hino certamente será vaiado e se desvanecerá o pouco apego às cores nacionais que podem garantir o aditivo de adrenalina necessário para uma vitória. Provavelmente no Brasil, isso não funcione por regiões (ou talvez sim), e mais por estratos sociais. É isso mesmo, existe um tipo de público ideal para carregar o time nos ombros, numa final?

Edu: Uma final no Brasil, numa Copa, em pleno Maracanã? Nessa hora, Carlão, o tipo de público será um só. Ou você tem dúvida?

Carles: Era só uma esperança.

 

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