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As ‘feras’ de Saldanha e outros bichos

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

31 de maio de 2013 | 06h44

Carles: Quem derrubou João Saldanha?

Edu: Nossa! Faz tempo hein…

Carles: É, mas é um assunto atual. Os treinadores continuam chocando com dirigentes, jogadores e perdendo o emprego.

Edu: Mas a história do Saldanha está muito acima dessas picuinhas idiotas. A começar por seu perfil político.

Carles: Então esquecemos a possibilidade de que o motivo teria sido não escalar o Pelé num amistoso contra o Chile? Prevalece o fato de ele ser comunista e não o de querer barrar um astro intocável. Também é estranha a história da miopia do Rei, não? Que eu me lembre, Saldanha teve até audiência com o então ministro Jarbas Passarinho, antes da queda.

Edu: Todas as histórias envolvendo o Saldanha, desde seu passado de militante do PCB até a tal versão sobre a miopia de Pelé, têm algo de misterioso e quixotesco. Mas a verdade é que Saldanha não era um ortodoxo do futebol e da vida, tinha um modo próprio de enfrentar as coisas que mexia com muitas sensibilidades e melindres. Não por acaso era chamado de ‘João sem Medo’. De uma coisa, depois de tudo o que li e vi na fase final da vida dele como cronista esportivo, tenho certeza: não foi uma razão política que tirou Saldanha da Copa de 1970, embora vivêssemos no auge da ditadura militar.

Carles: Então voltamos à tese da picuinha? De que num amistoso contra a Argentina em março de 1970, Saldanha cansou de pedir para o Pelé ajudar no meio de campo, na marcação e foi sistemática e acintosamente desobedecido. Contam as escassas histórias sobre os bastidores que o treinador não se entendia com a direção da Seleção, mas que o estopim foi que jogadores como Pelé, Gerson, Tostão, Carlos Alberto e Piazza questionavam a capacidade dele e se reuniam durante os treinos e concentrações para desenhar sua própria estrutura tática.

Edu: Saldanha era antes de mais nada um crítico ferrenho do futebol mesquinho e mal jogado, sem meias palavras. Tinha especial preferência por detonar os modelos adotados pela Seleção Brasileira desde o patético papel na Copa de 66. Quando foi escolhido para assumir a Seleção, já tinha um passado ativo como militante comunista e já era um dos principais cronistas esportivos do país. Ou seja, se havia alguma barreira ideológica, por que os militares deixariam a CBD chamar justamente um comunista para comandar um dos símbolos do país? A questão, portanto, era medir como funcionaria o choque de temperamentos numa Seleção que tinha divas e líderes como esses que você citou diante de um técnico com essa postura nada diplomática. Mas não acho que houve questionamento de capacidades, tanto que o time massacrou todos os adversários nas eliminatórias, quando os jogadores eram chamados de ‘Feras do Saldanha’.

Carles: A coisa vai ficar aí, então, no eterno mistério. Como a morte do PC Farias ou a repentina doença do Tancredo? Proponho pelo menos um exercício, menos à base de teorias conspiratórias e mais de fogueira das vaidades. Tracemos um paralelo com um caso mais atual, do Barça, campeão de tudo que começou com um conjunto afinado e com pesos quase equivalente e que acabou cedendo 90% das honras a somente um jogador, ao que todos os companheiro veneram publicamente. Coincidência que esse processo tenha derivado na saída do treinador, que o time tenha certificado a dependência desse jogador e que o desempenho como equipe pareça estar em franca decadência? Está certo, a Seleção de 1970 venceu e convenceu. Transformou-se num mito, mas o que veio depois?

Edu: Espera aí, não foi tão simples assim. É evidente que, diante da pressão que pressupõe comandar a Seleção Brasileira às vésperas de uma Copa do Mundo, começaram a surgir problemas graves de relacionamento entre todos os segmentos – dirigentes, comissão técnica, jogadores, sob o olhar nada amistoso da imprensa, como, aliás, deve ser. Era um ambiente propício para algumas barbaridades e Saldanha não deixou de cometer erros graves que tornaram a situação insustentável às vésperas da Copa. Era mais do que suficiente para uma demissão. Aí, certamente, algum militar apareceu e deve ter dito: ‘Também pudera, com um comunista no comando só podia dar nisso’. E Saldanha efetivamente reagiu a uma opinião do então presidente general Médici, que havia pedido o centroavante Dario, do Atlético Mineiro, como titular da Seleção. O técnico disse que o presidente tinha que se preocupar em escalar seus ministros. Pouco depois era demitido, o que reforça parte das teses conspiratórias. A maior dose de mistério está nos bastidores desse episódio, digamos, porque são passagens de difícil comprovação, uma vez que os principais personagens já não estão vivos.

Carles: Hahaha, muito bom, finalmente consegui provocar você… E não se esqueça do Rildo.

Edu: Não entendi…

CarlesO Saldanha queria o Rildo na lateral esquerda e também foi “voto” vencido.

Edu: Sei disso, quanto ao Rildo. Não entendi qual foi a provocação.

Carles: Nada, não, só uma brincadeira sobre os eternos mistérios do século passado nos trópicos. Bom, fico mais tranquilo com os seus esclarecimentos. Confesso que tive pesadelos na minha juventude tentando entender como personagens tão distintos como Pelé, Tostão, Rivelino, Piazza, Gerson, Clodoaldo pudessem se reunir para conspirar. Cheguei a temer que o fato de serem todos jogadores bastasse para pasteurizar crenças e pensamentos tão distintos. Ou quem sabe foi a passagem dos anos que os fez se distanciarem tanto?

Edu: Não houve mais insubordinações do que há normalmente num time futebol, até porque ninguém ali era santo. A verdade é que a equipe tricampeã no México foi montada pelo Saldanha, com pequenas mudanças. E nunca poderemos dizer que a saída dele foi motivada exclusivamente por razões políticas. Foi um conjunto de erros, crispações e crises, potencializados pela presença de um cara no comando que era incômodo ao regime. De todas as muitas obras e artigos sobre a trajetória do Saldanha, um livro explica com detalhes esse processo: ‘João Saldanha, uma vida em jogo’, de André Iki Siqueira.

Carles: Como sempre, ficamos aqui com essa boa sugestão de leitura, então. Prometendo voltar a amanhã um pouco menos desconfiados.

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