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As transições de Aragonés, Klinsmann e… Dunga

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

27 de maio de 2014 | 18h19

Carles: Quando surgiu a notícia de que o selecionador estadunidense Jürgen Klinsmann tinha decidido não levar o Capitão América Landon Donavan ao Brasil, na mesma hora pensei no “efeito Raúl” – quando Luis Aragonés abriu mão do então buque insígnia, ou carro-chefe, para a disputa da Eurocopa 2008. Foi então que começou a história moderna de La Roja e os três títulos de máxima importância internacional seguidos.

Edu: Não sei se o perfil de Donovan bate com o de Raúlzito, me parece que não. Mas está claro que Klinsmann mandou uma mensagem a favor da ruptura com os antigos donos do soccer, jogadores mais experientes que os americanos chamam de ‘vacas sagradas’. Landon Donovan e o alemão nunca se deram bem e o camisa 10, jogador mais valorizado do país mesmo aos 32 anos, não se mostrou muito disposto a mudar de hábitos e servir de farol para os mais novos. Como tinha feito com alguns figurões da Alemanha em 2006, Klinsmann não teve dúvida e rifou o sujeito. Se bem me lembro, na Roja, Aragonés tinha que mexer nos parâmetros também, mas não por problemas pessoais ou disciplinares com Raúl, certo?

Carles: Aragonés e Raúl já vinham de uma convivência conturbada na Copa de 2006 em que a seleção espanhola já tinha mostrado um bom futebol com parte dos jogadores desta geração no grupo, mesclados com algumas eminências pardas com certo poder, como Michel Salgado ou Cañizares. Já se questionava a titularidade de Raúlzito, titular absoluto para a maioria dos espanhóis. Para a revolução que Aragonés tinha em mente, era necessário livre trânsito e maior peso para os jogadores do tique-taca, o jogo coral, sem poder concentrado. Será que não é um pouco a intenção de Klinsmann?

Edu: Exatamente e com o apoio de quem paga a conta. Os dirigentes norte-americanos estavam convencidos de que enquanto as ‘vagas sagradas’ mandassem no time, o país nunca passaria de uma promessa, apesar de fazer eventuais boas campanhas. A ruptura que Luís fez tirando a patota de Raúl é o que Klinsmann, habilmente, está fazendo com a melhor vitrine, uma Copa do Mundo. Para quem rifou o zagueirão Worns, de 34 anos, em 2006 para dar chance a um grandalhão de 21 anos, Per Mertesacker, e colocou no banco ninguém menos que Oliver Kahn para dar titularidade a Lehmann, barrar Donovan é moleza. A proposta de Klinsmann é preparar um time muito competitivo para a Copa de 2018, na Rússia, por isso até a imprensa americana digeriu bem o afastamento de Donovan em favor do garoto prodígio Julian Green, de mãe alemã e pai americano, que é treinado por Pep Guardiola, no Bayern. Green faz 19 anos daqui a dez dias.

Carles: Tudo em família, então. Green simboliza a sinergia teuto-americana, com a que esse alemão de estilo de vida à Miami pretende aproximar o soccer do füsball e que poderia até consagrar a seleção ianque em pleno território russo. Apesar de a guerra fria ser tema mais de produção de ação B, ainda tem muito americano médio que celebraria especialmente um triunfo em terras russas. E, se não, perguntem a quem vê bandeiras cubanas e ameaça vermelha em toda parte. Mesmo com os focos num jovem como Green, imagino que a carga sobre ele nem se compara com a que Neymar tem nestes momentos sobre os ombros, uma, porque não deixaram ele fazer essa transição de forma gradativa e outra, pelo fato de ele jogar em casa.

Edu: O mundo em cima de Neymar e a culpa sabe de quem, né? Dunga, claro. Se o espírito de Klinsmann e um mínimo de ousadia tivessem baixado no técnico da Seleção em 2010, Neymar, hoje, já teria um Mundial no currículo e poderia suportar essa avalanche com mais frieza. Nem acho que seja um problema insolúvel para ele, que tem boa cabeça, mas é claro que um início ruim, alguns gols perdidos ou contratempos podem afetar o rendimento dele e, aí, toda a seleção vai junto. A solução dos jogadores mais experientes e da comissão técnica é fazer uma blindagem no garoto.

Carles: Mas é isso, para que os Xavi, Alonso, Iniesta, Torres, Villa e Ramos chegassem rodados às Eurocopas de 2008 e 2012, e a Copa de 2010, Luis Aragonés já tinha começado a dar a eles protagonismo em 2006. Formando um time renovado e deixando Raúl no banco de reservas, apesar da discussão nacional que aquilo causou. Na fase de grupos, com vitórias sobre Ucrânia, Tunísia e Arábia Saudita, La Roja jogou bem e convenceu. Aí veio a França, com Raúl de titular, a derrota por 3 a 1 e a volta para casa. Mesmo assim, Luis manteve seu projeto e foi tirando as vacas sagradas do caminho. Foi ele que iniciou a transição, buscando um time coral em que não cabia nem a concentração de poder nem a de jogo.

Edu: E para que a Alemanha chegasse à Copa brasileira com um timaço indiscutível, entre os favoritos, alguém como Klinsmann fez o trabalho pesado lá atrás, bancando Mertesacker, Özil, Podolski, Sami Khedira e outros. É a velha diferença entre ter ousadia e ser corajoso. Dunga, como jogador, foi um valente, como treinador teve coragem de peitar algumas instituições, como a Globo, mas na função específica de preparador técnico foi um desastre à brasileira, desprezando planejamento a médio prazo e um trabalhos mais cuidadoso com os jovens. Teve medo de arriscar. La Roja e os alemães colheram os frutos. Vamos ver o que acontece por aqui, onde a transição foi feita meio na marra, como sempre.

 

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