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Assim caminha a Copa

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

25 de agosto de 2013 | 09h40

Edu: Os ingressos mais caros, a curiosidade do torcedor com as instalações modernas e o entusiasmo que brotou depois da Copa das Confederações estão fazendo os novos estádios darem lucro aos clubes nesta primeira etapa.

Carles: Mas isso porque o país vive um momento de liquidez, imagino.

Edu: Não sei se tem relação, acho que ainda não. É entusiasmo mesmo, o que já era previsto. Também não quer dizer que seguirá assim. Claro que tem algo de artificial nisso. Por exemplo, Brasília está recebendo jogos de alguns times cariocas do Campeonato Brasileiro contra outros grandes. Só neste fim de semana, os brasilienses viram Flamengo e Grêmio, Vasco e Corinthians. São grandes atrações com as quais não estão acostumados por lá. Mas não deixa de ser uma fórmula para fazer o estádio valer a pena, ainda que seja uma pouco sacrificado para os jogadores.

Carles: Pelos quilômetros adicionais? Bom, acho que as entrelinhas do contrato já advertem da condição de globetrotter. É um circo e nada como picadeiros atraentes. Não conheço os estádios detalhadamente, mas suponho que seguem a tendência do business mundial, capacidades não tão exageradas prevendo a relevância arrecadatória de transmissão dos jogos, funcionalidade diversificada com zona de restaurantes, hotéis, lojas, dentro da realidade multiuso… É isso?

Edu: Exato, são grandes centros de convivência e, também por isso, caríssimos. Nada que vocês não tenham vivenciado em muitos países por aí. Há uma pressão que tem dado resultado para redução de preços, o que está sendo implantado no Maracanã e também em Brasília. Será uma fase de acomodação, suponho. Mas não deixa de surpreender que essas grandes praças esportivas tenham se tornado imediatamente um relativo sucesso de público. Para a Confecup, seis estádios ficaram prontos. Dos outros seis, três certamente darão resultados financeiros positivos porque estão ligados a clubes de massa, com demanda garantida – Corinthians, Inter e Atlético Paranaense. Os problemas mesmo são os outros três, em Natal e principalmente Cuiabá e Manaus.

Carles: Falando em Confecup, imediatamente me vem à mente as infraestruturas complementares, como os acessos ou transporte público, fundamentais para a integração como praças de ócio populares e familiares. Como vai essa parte?

Edu: Aí está ainda o maior entrave. A solução de transportes para os locais que já tinham estádios, como Belo Horizonte, Rio e mesmo Porto Alegre, é mais prática porque a infraestrutura estava mais ou menos montada e só precisa de ajustes. Mesmo para o estádio do Corinthians, que fica em uma região bem distante do centro, os acessos podem ser perfeitamente equacionados nos próximos meses, aproveitando a estrutura de metrô e trens que já serve o local. Mas Recife, Natal e Manaus têm sérios problemas, com muitos atrasos nas obras de mobilidade urbana. Recife foi um inferno para as seleções espanhola e uruguaia, bem como para seus torcedores. Salvador também tem questões a serem resolvidas no entorno do Estádio Fonte Nova. Agora, quanto às obras sociais, meu amigo, nem me pergunte. Tenho a impressão que é um abacaxi que vai ficar para depois da Copa, para que os governos locais resolvam. É uma estupidez que os planos de utilização pela população não tenham sido elaborados em conjunto com as grandes obras, seria muito mais fácil, prático e eficiente, além do que, conquistaria a simpatia da população. Mas as coisas aqui não funcionam assim, você bem sabe.

Carles: Coisas das políticas neoliberais que consideram o transporte público e outras serviços essenciais como uma atividade econômica e não um direito básico do cidadão. Aqui mesmo, temos alguns equipamentos construídas originalmente para servir à população, mas que os últimos governos preferem administrar em função de lucro ou déficit que podem dar. Um exemplo disso é a decisão da maior frequência de um determinado meio de transporte só em períodos de eventos especiais, em vez de considerá-lo como uma facilidade permanente para a vida dos moradores da região. Mas, pelo menos, já está tudo construído. Digamos que o problema aqui é inverso, muita infraestrutura e, às vezes, ociosidade.

Edu: E tem os desvios de interpretação política comuns nestes casos, principalmente no que diz respeito à utilização de recursos públicos. É evidente que o Estado tem que estar presente nas questões de infraestrutura, é o Estado quem tem que financiar a cidadania, no final das contas. Mas o barulho que se faz em torno da utilização de verbas públicas, o proselitismo e o discurso sectário estimulado por parte da mídia, torna as coisas ainda mais difíceis, porque o fato de o Estado financiar obras desse porte fica parecendo uma aberração. Estamos ou não falando de infraestrutura? É claro que o Estado tem que estar aí. O resto é estupidez e retórica vazia.

Carles: Bom, na questão do desvio de verbas prefiro nem entrar, confesso que me dá preguiça discutir porque conheço demasiada gente que, quando recebe uma notícia de investimento público em melhoras, na primeira coisa que pensa é na oportunidade de enriquecimento pessoal. E depois são os primeiros a clamar por moralidade. Esgotado dessa história estou, meu caro Jedi. Outra curiosidade que eu tenho sobre o assunto é o quanto se pôde construir dos novos estádios sem alterar a funcionalidade original das comunidades, sem desapropriações exageradas ou invasão de reservas naturais. Isso foi possível, na maioria dos casos?

Edu: Na maioria? Não, claro que não. Parece que você nunca viveu aqui. No início, pipocaram vários projetos de adequação, alguns até foram adiante, mas o que ocorre nessas grandes transformações urbanas é que tudo fica assoberbado conforme os prazos vão se esgotando, por evidente falta de planejamento. Acho possível que as comunidades sejam beneficiadas com iniciativas complementares, que certamente virão. Há muita gente trabalhando nisso, embora não vejamos tanta repercussão na mídia. Mas, por exemplo, o estrago feito com desapropriações em um ou outro estádio já não tem remédio. Esse é o custo social da Copa, irreversível.

Carles: Mas é engraçado que os meios “informativos” vão à crítica mais fácil de entender nas manchetes: superfaturamento, corrupção… Se falarem em respeito ao meio ambiente ou patrimônio histórico, por exemplo, vai dar menos eco.

Edu: Assim seguimos…

 

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