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Ataques da ‘modernidade’ à cultura local

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

15 de abril de 2013 | 05h26

Edu: Como você explicaria para um espanhol por relações afetivas como eu que a ‘Catedral’ de San Mamés, um dos templos mais marcantes do futebol, viu ontem o último Bilbao-Madrid porque, bem do lado, a menos de cem metros, está sendo construído o novo estádio do Athletic?

Carles: É só atravessar a rua. O novo estádio, se me lembro bem, ocupa a zona onde estavam as instalações do recinto feiral de Bilbao. O pior é que, com isso, reduzem-se meus argumentos quanto à preocupação do velho continente com seu patrimônio histórico. Muita gente não percebe, mas estão derrubando monumentos a golpe de picareta e para quê? Para benefício só de alguns construtores, principais vilões da crise que assola o continente.

Edu: É o mais assustador, o desprezo pela memória esportiva. Até onde eu sei não há uma razão plausível, exceto pelo argumento da ‘modernização’ – um estádio mais seguro, mais ‘clean’, com outras atrações além do futebol e, por tudo isso, bem mais caro. Nada me tira da cabeça que ainda é o efeito Tatcher, a falecida da semana passada, que com a desculpa de banir os hooligans no fim da década de 80 resolveu transformar os estádios em recintos politicamente corretos. Não pode bagunçar, não pode assistir jogo de pé, não pode dançar e, principalmente, não tem lugar para pobre, porque em estádio novo e ‘moderno’ só entra quem tem muita grana para gastar todos os domingos.

Carles: Constroem-se shopping centers nos quias um dos centros de diversão é o jogo de futebol. Memória esportiva só não, memória histórica e cultural. Imagine o que poderia significar para os pesquisadores e cientistas a perda dessas parte da história viva? O arrependimento que vai bater lá na frente por ter apagado tudo isso da memória. O caso do Valencia, que como sempre quis entrar na onda, seria para rolar no chão de rir se não fosse muito triste. Em 2004, empossaram como presidente o filho do maior construtor da cidade, Juan Soler, depois que a família passasse ao controle acionário do clube. O “impresentable” vociferava aos quatro cantos que o Valencia ia dar o golpe do século, vendendo o antigo estádio para a construção de arranha-céus, construir uma megaestádio desses e ainda iria embolsar uma parte. Pelo visto, os Soler foram os únicos que embolsaram algo. O clube está enterrado em dívidas, a cidade tem um estádio com a construção pela metade, um fantasma, e o velho Mestalla está que dá pena, sem melhoria nenhuma faz anos.

Edu: No caso de Valencia, a cidade e o clube, há uma longa história de gente de baixíssima estirpe envolvida. E imagino que não houve uma campanha ou consulta popular para que uma decisão dessas, de amplo interesse da comunidade, fosse tomada a respeito do estádio. Também é o que causa estranheza no caso de Bilbao, onde a população tem uma participação muito mais ativa nas questões de cidadania. E há além de tudo o desprezo aos grandes símbolos da cidade, à identidade cultural local. É pedir muito para que um especulador tenha essa sensibilidade, mas o torcedor tem e muita. Que tipo de respaldo popular tem essas tomadas de decisão?

Carles: Especulador e sensibilidade na mesma frase? Hummmmm… Olha, no caso de Valencia, em função da escassa vigilância da sociedade e da permissividade, pode parecer tudo mais evidente. Mas, garanto, não é um caso único, nem muito menos. Os especuladores estão por todas as partes e, claro, atuam com maior liberdade em alguns lugares. Só que todo mundo embarcou no modernismo que transformou em S.As. os clubes. E, depois, não foi difícil convencer as torcidas de que se deveria construir estádios tão modernos como o do vizinho. Você sabe muito bem como funciona tudo isso, começa por convencer as peças chaves da sociedade, formadoras de opinião, entre eles jornalistas influentes. Isso faz com que clubes que a vida toda estiveram vinculados à cultura local, como parte representativa dos símbolos culturais, passam a ter o poder de fazer e desfazer. E, pior, com toda a legitimidade que lhes concede uma massa acionária via Conselho.

Edu: Como sempre, acho essa sua generalização um tanto simplista. As decisões, na maioria desses casos, são tomadas sem nenhuma preocupação em convencer sequer as peças chaves. São decisões que representam a fina flor do autoritarismo. E com gente assim nenhuma instância da sociedade é respeitada, nem mesmo a imprensa. Tatcher fez uma ‘limpa’ geral nos estádios em um processo que ela chamou de ‘moralização do futebol’ sem precedentes. Clubes, sociedade, mídia, todos foram solenemente ignorados. Quem disse que a sociedade inglesa – que obviamente na maioria abomina os hooligans – queria o fim do velho Wembley? Quem disse que a população da nossa Mooca, querido bairro paulistano, quer ver derrubado o estádio da rua Javari para a construção de uma moderna praça esportiva? Quem disse que o torcedor histórico do Palmeiras não ficará para sempre saudoso do Jardim Suspenso, o velho Parque Antártica, agora substituído por uma arena multiuso? O mesmo vale para Bilbao…

Carles: Não sou eu quem generaliza, é um processo único que se importa e tem um planejamento quase padronizado. Como aqueles mambembes que chegavam às cidades vendendo remédios ou outros produtos milagreiros. Obviamente que Maggie ‘Iron Lady’ foi precursora e madrinha não só desse, mas de tantos outros alicerces do modelo neoliberal em que se transformou não só a sociedade britânica. Não me diga que ela ou a sua camarilha acreditavam que o verdadeiro fim de tudo o que implantou, em lugar de investir mais em educação e em outros benefícios sociais, ia realmente erradicar a violência dos estádios. Para mim é óbvio que tudo atende às demandas dos compromissários da especulação.

Edu: Insisto no argumento de que as razões podem parecer sempre meramente econômicas, mas está longe disso. Daí o motivo de eu não acreditar em comportamentos padronizados. Intenções padronizadas talvez, mas o componente político-ideológico, no caso da Tatcher, foi preponderante.

Carles: As intenções são sempre padronizadas e, repito, atendem a um só tipo de interesse. O que não é e, esperemos que nunca cheguem a ser, são os filtros, a perspectiva daqueles que julgam, e aceitam ou não essas imposições. Ou seja, a vigilância da sociedade.

 

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