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Atlético e Liverpool, equação de sucesso a baixo custo

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

30 de março de 2014 | 20h55

Edu: Nem têm o maior orçamento, nem são os mais midiáticos… Ultimamente foram mais zebras do que outra coisa diante dos poderosos de seus países. Mas são os dois times que mais impressionam neste momento do futebol europeu e que mostram algumas semelhanças quanto a modelo de jogo. E em duas coisas são absolutamente coincidentes: têm um apetite voraz pela competição e possuem hoje os dois atacantes mais eficientes e explosivos do continente. Fácil essa né?

Carles: Se é um uruguaio e o outro hispano-brasileiro, tem mais uma coincidência, ambos times são líderes nas suas ligas e respondem pelo nome de Liverpool e Atlético de Madrid, certo? Eu diria ainda que se parecem muito pela intermitência ao longo da história, se bem que os Reds tem um currículo bem mais extensos de títulos. Também é verdade que nenhum deles caminhará só, como diz o hino dos ingleses, graças a duas das torcidas mais fiéis e entregadas da Europa.

Edu: Então, as semelhanças estão na cara, se bem que alguns contrastes também, o que deixa a história ainda mais animada. Essa característica da ‘fome de bola’ me parece a mais impressionante, são equipes de doentia dedicação coletiva e não apenas por uma questão de garra ou de excessos físicos. Mesmo os jogadores técnicos têm a consciência coletiva. E, claro, jogam sob o diapasão dos dois infernais atacantes, são eles que incendeiam os colegas. No Liverpool, provavelmente Steven Gerrard nunca jogou tanto como agora, inspirado pelo denodo de Luisito. É um contágio de dedicação e busca pelo objetivo que também é visto no Calderón, a cada partida de Diego Costa. E não são tanques, são jogadores técnicos, decisivos, que põem seu peso no jogo. Daí você vê naturalmente Arda Turam, Phiilipe Coutinho, Sterling, Koke, todo mundo nesse empenho alucinante.

Carles: Mais uma coincidência está justamente no caráter desses dois avançados, de personalidade difícil, tidos em algum momento como irrecuperáveis, mas que agora vivem um momento em que canalizam toda sua energia a fuzilar o adversário. Sem dúvida, no caso de Diego, todo o entorno dele contribuiu muito para isso, valorizado pelos companheiros a cada jogo que decide, e até ajudou a campanha rançosa de alguns jornalistas espanhóis que questionavam se um encrenqueiro como ele era digno de vestir La Roja. Ele respondeu no campo, ele devolve cada agressão com arrancadas, gols e assitências. Quanto a Luisito, está embebido de espírito de equipe como nunca. Isso foi visível na forma ostensiva e repetitiva que apontava para Henderson no 4 a 0 contra o Tottenham, fazendo questão de tirar qualquer dúvida de que ele tivesse tocado na bola e de que o autor era o meio-campista. E isso que Suárez está disputando a Chuteira de Ouro palmo a palmo com nada menos que Cristiano, Messi e o próprio Diego Costa.

Edu: Esse gesto de Luisito na goleada sobre o Tottenham e o reconhecimento dos colegas sobre o papel decisivo de Diego na vitória contra o complicado Athletic, em Bilbao, representam uma síntese do que são os dois times. Godín, um uruguaio da gema, professor de garra e dedicação, foi quem melhor definiu Diego, como se estivesse falando também de seu conterrâneo do Liverpool: “Diego es nuestra alma“, disse a El País. E olha que alguns choques de estilos entre as duas equipes não deixam de chamar a atenção, na contracorrente de suas principais virtudes: solidariedade e intensidade. A defesa do Atleti é o ponto forte, o sustentáculo do projeto de Cholo Simeone. Do outro lado, a proposta ofensiva de Brendan Rodgers é a grande sensação da Premier, mesmo que o setor defensivo seja sacrificado. Aliás, estamos falando de dois técnicos que dignificam a nova geração e sinalizam tempos de modernização absoluta de alguns conceitos, dos quais um se destaca: é possível jogar sério sem jogar feio.

Carles: Pena que esse Liverpool não vai estar entre os candidatos ao título continental, talvez porque acordou um pouco tarde. O Atleti, em compensação, começa, segundo eles mesmos, uma sequência de 12 finais, três delas contra o Barça. O jogo dos ‘colchoneros’ não pode ser qualificado como um jogo feio, porque flui, mas a principal característica da equipe comandada por Simeone é não deixar o adversário se sentir confortável nunca, como diz Xavi Hernández: “Contra el Atlético de Madrid no solemos disfrutar“.

Edu: Mas no Liverpool essa característica de deixar o adversário sem ar também vinga. Você vê os habilidosos Sterling e Coutinho a todo momento acossando os adversários, como aliás Suárez faz muito bem. É uma marca registrada da intensidade. É claro que os times necessitam de compensações e alternativas para algumas deficiências e por isso é preciso valorizar o trabalho dos treinadores. O fato é que, hoje, nem os mais vistosos orçamentos do futebol se sentam à vontade jogando no Calderón e em Anfield Road, e é mais ou menos isso o que Xavi interpretou. Se não chega a ser uma revolução de conceitos é uma considerável chacoalhada nos padrões dos grandes clubes que se gabam do talão de cheques de seus investidores. Atlético e Liverpool não possuem orçamentos que não chegam a um terço dos poderosos de suas ligas.

Carles: Se considerarmos que uma revolução pode ser definida como uma reedição das melhores tradições com equilíbrio e sensatez, não resta dúvida que eles estão fazendo uma revolução. Até porque estão dispostos a trabalhar mais que o resto.

 

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