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Atlético rompe o bipartidarismo dos poderosos

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

17 de maio de 2014 | 20h08

Edu: Aconteceu… Existe vida sem bipartidarismo no futebol espanhol. E como disse Andrés Iniesta depois do título do Atlético, ‘muitas coisas se acabaram’ nesta tarde no Camp Nou. Foi um desabafo por uma temporada decepcionante para o Barça, mas não deixa de sinalizar uma necessidade de reciclar, renascer. Talvez uma mudança de filosofia que pode afetar a própria Liga das Estrelas daqui por diante, graças à postura do novo campeão. É isso?

Carles: E se o repórter forçasse a barra um pouquinho, com algo de sutileza (sei que é pedir demais), Andrés acabaria entregando tudo, esteve a ponto, tinha vontade de falar mal da zona defensiva do time, da estratégia… veja você como está o ambiente nesse Barça, com Iniesta a ponto de meter a boca no trombone!!!! Quanto ao novo campeão, provavelmente é um desses modelos com data de vencimento, porque exige trabalho incessante, difícil de manter. Diego Costa chega ao final de temporada muito além do seu limite. Duvido que esse Atleti campeão comece a nova temporada no mesmo ritmo, inclusive pela sua mudança de status. Em compensação, é um exemplo, um incontestável modelo a seguir pelos menos grandes.

Edu: Essa sua dúvida também tem a ver com a saída de alguns titulares? Provavelmente sim. O que fica como mudança de parâmetro está evidente: um time de trabalhadores pode enfrentar os gigantes, coisa que o futebol de vez em quando apronta com os grandes orçamentos. Mas que também esteja claro que este Atlético não é só raçudo, formado por valentes soldados. Não daria certo se jogadores como Gabi, Koke, os laterais e alguns reservas, como Adrián e Raul Garcia, não soubessem jogar bola como os novos tempos exigem, com almas e mentes. Em muitos momentos desse último jogo ficou claro que o Barça não estava enfrentando um rival com padrão Mourinho, destrutivo e especulador. O que Simeone criou foi uma linha de produção com um toque de arquiteto, também porque tinha em mãos um material humano muito especial, capaz de perder dois de seus protagonistas em 20 minutos de jogo – Diego Costa e Arda Turan -, ter desvantagem no placar e ainda sim sair campeão da casa do poderoso adversário, com o reconhecimento do torcedor catalão.

Carles: Sem dúvida que a provável perda de componentes é pior para uma equipe coral como o Atlético. Muito mais grave do que para uma equipe feita à base de grandes estrelas e coadjuvantes. Inclusive porque esse time tinha um valor de mercado no começo da temporada e esse valor se multiplicou. Bom para os cofres, mas complicado para o staff técnico, para repor as peças à altura. E aí reside a principal diferença entre o trabalho do Cholo e o dos Mourinhos, que insistem em fazer equipes planas, obcecados em abafar talentos e, com isso, acaba convertindo seus times em grupos comuns, insossos até. Esse Atleti é um conjunto uníssono, só que cada intérprete é capaz de solar e sair cada vez mais valorizado individualmente, ao contrário do Chelsea. Não tenho dúvida que Costa e Turan fazem falta, mas, sem eles, a time segue jogando ao mesmo jogo. Já tinha sido assim com a saída de Falcao.

Edu: Você acha que o Barça é capaz de aprender com este choque de realidade proporcionado pelo modelo visceral do Atlético, ou sua diretoria e seu entorno estarão mais preocupados em curar suas próprias feridas? Veremos de fato um novo Barcelona em 2014/2015 ou a tentativa insistente de remasterizar o padrão dos tempos de Guardiola seguirá pressionando a comunidade culé?

Carles: Neste momento, pelo menos, vejo com pouco otimismo o futuro próximo do Barça, é possível que as feridas sigam abertas, por falta de autocrítica. O projeto desta temporada falhou por responsabilidade de todo o conjunto, muito pela falta de perícia do Tata Martino, mas a origem dos problemas está na diretoria. A começar por Zubizarreta, mas principalmente porque o comandante em chefe, Sandro Rosell pareceu mais empenhado em destruir o modelo anterior do que em construir o próprio. Pior, tentou forçar a implantação de um corpo estranho à cultura culé, um mercantilismo trazido direto da iniciativa privada. O clube é profissional até os dentes, é verdade, mas sempre usou o comércio como meio de vida e não como finalidade.

Edu: Sei que dificilmente vamos concordar nisso, mas insisto que a falta de personalidade das estrelas deste magnífico time de futebol tem tudo a ver com o ano fracassado. É uma visão brasileira, eu diria, talvez porque, por aqui, tenhamos convivido desde sempre com grandes equipes que estiveram expostas à sanha de cartolas nefastos, mas que não conseguiram estropiar o que ocorre com a bola em jogo, o futebol jogado. Do ponto de vista administrativo, o grupo Rosell se mostrou um desastre desde o início e claro que isso afetou o elenco, ainda mais numa cultura como a do Barça. Mas no campo esportivo algo mais poderia ser feito por um elenco tão brilhante, apesar de Rosell, apesar de Tata e apesar de tantos outros infortúnios.

Carles: Acho que é uma visão local, mesmo. Penso que os clubes por aqui estão melhor estruturados e isso, que é uma vantagem em condições normais de pressão e temperatura, acaba se convertendo numa situação insalvável no campo de jogo, ao menor sinal de instabilidade institucional. Também é verdade que no caso do Atlético de Madrid a transformação foi inversa, começou no gramado e daí se espalhou pelos gabinetes. Um clube imerso numa interminável crise corporativa que já parecia acostumado aos fracassos esportivos. Sob o comando de Simeone, o time não só ganhou jogos como recuperou uma autoestima que se alastrou pelo clube e torcida. Hoje no fim do jogo, Godin ofereceu o título à família e ao montão de moleques do mundo inteiro que, segundo ele, este ano virarão torcedores ‘rojiblancos’. Pode ter certeza que essa será a maior vitória desse time, como aconteceu nos últimos tempos com o Barça de Guardiola.

Edu: Pois essa versatilidade da ‘visão local’, que muitos pejorativamente definem como jogo de cintura (ou jeitinho) dos brasileiros, às vezes faz falta num contexto teoricamente tão bem estruturado que chega a engessar todos os envolvidos de tal forma que um escorregão provoca o efeito cascata. O resultado disso no Barça parece que será um desmanche, pelo que o presidente e seu querido Zubi andaram dizendo nesta semana. Como Dani Alves será certamente um dos decapitados e talvez até Adriano dance nessa ‘limpeza’, por aqui o que queremos saber é como fica Neymar. Que balanço você faz da primeira temporada dele no Barça?

Carles: Jogo de cintura, flexibilidade, capacidade de improvisação… sorte de quem pode beber de todas as fonte e, por isso é capaz de manter a disciplina e quando necessário, improvisar. Dani é um cara que no campo foi capaz de aprender a conviver com uma nova cultura sem perder a sua identidade, mas fora dele, foi irredutível. Óbvio que essa é uma decisão que só cabe a ele e na qual ninguém tem o direito de intervir, mas sim decidir seguir contando ou não com ele. Historicamente, os jogadores brasileiros tiveram facilidade de se integrar à cultura de Andalucía, por exemplo. O mesmo parece não acontecer com a Catalunha, muita mais rígida quanto à própria identidade e por isso, às vezes, menos transigente. Disso tudo vai depender o futuro de Neymar no Barça. Por enquanto, como você se queixava na chegada dele por aqui, foi um coadjuvante (de luxo, é verdade). E, graças a isso, sai ainda com algo de crédito. Os danos se debitarão principalmente da polpuda conta de Messi. Só não sei como vai ficar o cacife de Leo em Barcelona depois da Copa, se ele correr como louco e jogar uma barbaridade com a camiseta da seleção argentina.

Edu: Bom, se o futuro de Neymar depender de Messi, estamos mal parados. O melhor jogador do Brasil não vai suportar por muito tempo ser uma espécie de office-boy do argentino nem de ninguém. Talvez a Copa mude um pouco essa relação de forças, do contrário, Neymar, praticamente um adolescente ainda, vai amadurecer na marra e tomar, ele mesmo, suas providências. Não vejo outra saída.

Carles: Sempre restará Paris.

 

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