As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Baixo astral antes do primeiro teste

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

29 de março de 2013 | 09h56

Edu: Temos aqui um perigoso momento de descrédito e falta de esperança em torno de quase tudo o que ronda o futebol brasileiro. E dificilmente a Copa das Confederações não será contaminada por esse pessimismo generalizado.

Carles: Uma pena, um torneio que precisa muito do entusiasmo do organizador. E, de todas as edições, esta parecia a mais prometedora, pelo nível dos participantes.

Edu: Pois é, seria um importante revitalizador em circunstâncias normais. Acontece que os problemas se multiplicaram. Há muito atraso nas obras, o que não seria novidade se, por exemplo, o principal estádio, o Maracanã, estivesse concluído no prazo previsto, dezembro de 2012. Mas a coisa vai ficar para a última hora e o Maracanã receberá o torneio sem testes Outros estádios, como os de Recife e Brasília, também estouraram prazos e, para complicar, o segundo maior estádio do Rio, que poderia ser uma alternativa de emergência, o Engenhão (construído para o Pan-americano de 2007), foi interditado por problemas na estrutura da cobertura.

Carles: Eu soube dos problemas com o Engenhão. De repente o Rio ficou sem um estádio importante. Mais ou menos previsíveis esse problemas com os cronogramas de obras de infraestrutura, parte da cultura. Por isso, fico pensando se a verdadeira causa do desânimo é esse ou o total divórcio entre a direção do esporte e a sociedade. Sinto que o torcedor não se sente representado nem pela sua federação, nem pelos times que cada vez menos têm a sua cara. E, pior, não vê perspectivas de mudança, se sente absolutamente impotente.

Edu: Acho até que atrasos em obras nem seriam tão destacados se o momento esportivo fosse mais animador. Tanto na Alemanha quanto na África do Sul, houve problemas na Copa das Confederações – talvez não tantos. Esse torneio foi criado para ser de fato um evento teste. Mas as dificuldades estão potencializadas pelo momento do futebol. A confiança nos dirigentes é frágil, a seleção vai de mal a pior, os torneios regionais estão desprestigiados, são pura perda de tempo. O torcedor não é idiota e não fica imune. O atual campeão brasileiro, o Fluminense, jogou ontem no Rio, pelo Campeonato Carioca, para um público inferior a mil pessoas!!! E O Campeonato Paulista é outro desastre: o Palmeiras perde de 6 a 2 do Mirassol. Onde estamos?

Carles: Falta capacidade organizativa, mas sempre faltou. O futebol brasileiro sobrevive há décadas à incompetência dos seus dirigentes. Foi pentacampeão em campo sendo pífio fora dele. Em cima da hora, não é difícil uma reviravolta esportiva, que um par de jogadores desabroche e lidere um time vencedor. Agora parece pouco provável, mas não seria a primeira vez que aconteceria. Se isso ocorrer você não acha que, mais uma vez, os problemas de estrutura e a corrupção iriam para debaixo do tapete? E seguiriam programando-se torneios inócuos e sem sentido, em prejuízo do torcedor?

Edu: Amenizariam bastante, porque sempre há setores que costumam magnificar pequenas conquistas. Mas não há mais como esconder os descasos que fazem o torcedor ser sistematicamente colocado em segundo plano. Tanto que até mesmo alguns clubes resolveram agir de forma autônoma, cuidando do seu feudo – e o futebol brasileiro que se lixe. Insisto: é um momento estranho, difícil de definir. E, por isso, perigoso. O mais interessante seria estar conversando aqui apenas sobre as coisas do jogo, de dentro do campo.

Carles: Imagino que jogar para 700 e poucos torcedores não deve ter tido muita graça para quem estava dentro de campo. A organização do torneio é tudo. Já falamos muito aqui de que a Liga Espanhola há alguns anos é coisa de dois, mas o torneio segue sendo emocionante, mesmo quando não está em jogo a liderança. E olha que tem muito dirigente por aqui, tanto nos clubes como na federação, esforçando-se muito para estragar tudo. Ou seja, o futebol é tão querido que parece ser suficientemente resistente à incompetência. Portanto, continuo sem entender a profundidade da crise por aí.

Edu: O futebol é extremamente resistente, o torcedor dá respostas positivas e manda mensagens todos os dias, quando há motivos para isso. Mas esse mesmo torcedor é implacável com o que é mal feito. E ainda é preciso aturar oportunistas que querem crescer nesses momentos – falamos outro dia de Romário, por exemplo, que já esteve a favor e contra o Teixeira, a favor e contra o Marin. Vai entender… Dependendo do que ocorrer na Copa das Confederações, eu diria até que pode significar a hora da virada. Os poucos dirigentes com noções de gestão podem tomar atitudes mais concretas, radicais se for preciso. Não deixa de ser uma luz…

Carles: Espero então estar escrevendo o post do dia 30 de junho, dentro de três meses, desde a arquibancada, vestido de “rojo” e diante da final da Copa Confederações tão esperada, Brasil e Espanha. Acho que isso levantaria os ânimos, ambos estão precisando. Só fica faltando o estádio.

Edu: Mero detalhe…

 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.