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Banho de realidade

CHILE ENQUADRA SELEÇÃO DE FELIPÃO E RESSUSCITA JÚLIO CÉSAR

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

28 de junho de 2014 | 21h13

Carles: Superado esse incomodíssimo obstáculo, o pior já passou para a Família Scolari?

Edu: Pior que isso é difícil, a não ser pelo resultado. Nem o consolo de pensar que este não é o jogo real do Brasil ameniza, porque talvez os próprios jogadores estivessem convencidos de que esse era o caminho, graças ao trabalho de lavagem cerebral feito no último ano e meio. Você vai perguntar ‘que caminho?’ e eu respondo: não tenho a mínima ideia. O que sei é que ao menos um rótulo a Seleção já tem, o de time mais desorganizado e despersonalizado das quartas de final, sejam quais forem os outros que chegarem até lá.

Carles: Eu me preocuparia menos com o jogo e mais com as decisões e falta de visão desse homem de abdômen proeminente, teoricamente o estrategista, que se dedica a gesticular e fazer caretas desde fora do campo, em vez de tentar ler o que está acontecendo no gramado. O mérito todo é dos chilenos é verdade, que poderiam ter levado a vitória, com toda a justiça. Mas será que ele não percebeu que deveria variar a estratégia única de tentar fazer a bola chegar ao Neymar através de passes ou balões verticais? Que todo mundo já percebeu que é a única alternativa ensaiada e por isso, fácil de neutralizar? Você sabe o que eu penso do Hulk, mas não precisa ser gênio para perceber que foi o único que levou algum perigo ao adversário, hoje. Não pelo talento do moço, mas pelos sprints diagonais que ele faz com a cabeça baixa e levando tudo que encontra pela frente. Será que é tão difícil perceber, depois de dois lances, que a estrutura defensiva do Chile era muito mais vulnerável diante desses movimentos diagonais? Mais, que Marcelo poderia ter sido uma alternativa de armação, justamente pela sua facilidade para enfiar passes entre linhas. Ele não levou o Maxwell? Nunca pensou em colocá-lo na lateral e adiantar o Marcelo? Só dois exemplos, para começar…

Edu: Bom, Carlão, eu não chegaria nem a essa ‘sofisticação’ de pensar em estratégias e nuances individuais, porque as circunstâncias têm levado o Brasil – e não é só nesse jogo – a uma situação nitidamente desfavorável e crônica diante de qualquer adversário. Uma organização rudimentar que fosse já deixaria os próprios jogadores mais à vontade para mudar o jogo ‘sobre la marcha’, como vocês dizem. Mas não há nada que se assemelhe a isso e qualquer adversidade vira um pesadelo para um grupo descoordenado em todas as linhas e que abre mão da iniciativa. Com aquele agravante que estamos insistindo aqui há tempos: o descontrole que vem com o erro, atira a equipe em um abismo emocional e os riscos se multiplicam. A verdade é que Felipão juntou vários craques mas, no fim, construiu, com suas grosseiras propostas de intensidade emocional, um time de chorões, de jogadores inseguros, descompensados, que abrem mão da técnica para resolver seus problemas.

Carles: Zé, mas é inegável que existe uma qualidade mínima e jogando em casa… só com isso e parando cinco minutos para pensar (já sei que é pedir muito, no caso) poderia se tentar encontrar alternativas, variáveis. Não estou de acordo com que devamos banalizar a importância das questões técnicas e táticas, em favor de discutir unicamente do aspecto emocional. Se os jogadores se sentirem produtivos no jogo, automaticamente, pelo menos em tese, recuperam a serenidade. Desde a distância, tenho a sensação de que tudo se resume a uma dialética de dar ou não razão aos apelos externos. Se pedem William, eu ponho Ramires, se pedem Maicon (ou tirar o Alves por quem for), vou pensar duas vezes. Isso acaba por tirar o foco, como vocês gostam de dizer, do verdadeiro problema, de tentar conseguir uma certa fluidez à circulação da bola. Bom, o certo é que, no frigir dos ovos, nem a falecida Janete Clair seria capaz de escrever esse roteiro, com sofrimento, final feliz e o questionado Júlio César alçado à condição de herói. Em teoria, isso inflama e dá combustível emocional, a estratégia favorita do Felipão.

Edu: Quem me dera se alguém estivesse banalizando as questões táticas, porque significaria, ao menos, que elas existem na Seleção Brasileira. Quem me dera se as questões táticas tivessem maior relevância para o comandante. Esse é justamente o tamanho do problema e mesmo diante de um banho de realidade como foi esse jogo, é virtualmente impossível mudar algum conceito (?) a estas alturas. O oba-oba e o roteiro dramalhão vão continuar, ou você tem alguma dúvida? Daqui a cinco dias virá a Colômbia com o fantástico James Rodriguez, mas fosse quem fosse… Mesmo, mesmo, a única solução para um time que não tem projeto tático seria a autogestão, mas não vejo lideranças entre os jogadores que possam tomar essa iniciativa e deixar o Felipão um pouco de lado para ganhar jogos e praticar um futebol à altura desta Copa do Mundo, sem precisar conseguir uma vaga na bacia das almas e sair meio constrangido pulando por aí.

Carles: Se você e uns poucos não se conformam com um título sem a legitimidade do bom jogo ou pelo menos competitivo, esqueçam já. Tem razão, não existe projeto a não ser carregar toda a responsabilidade sobre um garoto de 22 anos e, em consequência, desvalorizar os outros 22 jogadores. O próximo adversário é a Colômbia que hoje confirmou seu bom jogo. Só que, pelo menos até conseguir uma vantagem no placar,  eles deixam jogar muito mais que o Chile. Além disso, chegam às quartas pela primeira vez na história, trazem muita juventude e a moral perigosamente alta, para eles. É a situação ideal para que a falta de projeto de Scolari dê mais um passo adiante e elimine uma das seleções que têm divertido o torcedor, não acha?

Edu: Não acho, não, porque agora os problemas do lado brasileiro tomaram outra dimensão e começo a sentir, pelas próprias manifestações dos jogadores, que algo não está andando bem e que alguém tem que escrever um roteiro para o pessoal começar a entender. Para piorar, os dois pilares do time estão baleados, David Luiz dificilmente jogaria não fosse o maluco que é e Neymar esteve reduzido à metade depois da pegada que tomou de Aránguiz no primeiro minuto de jogo. Na real, o Chile é um time muito capacitado, bem treinado e com organização razoável, mas tem virtudes que servem só para enfrentar times como o Brasil, não outras equipes mais estruturadas. Além do que tem jogadores que batem demais, até na sombra, e contaram com a clássica complacência de Mr. Webb. Mas isso não conta porque o Brasil foi tão mal que fez com que a arbitragem se tornasse irrelevante, menos para as histéricas manifestações de Felipão para desviar a atenção do assunto central.

Carles: Howard Webb, nós aqui sabemos bem, é um árbitro tecnicamente muito bom mas um paizão, para sorte de De Jong e azar de Xabi Alonso. Na minha humilde opinião, não influiu no resultado mais do que as traves ou a própria impotência do time anfitrião. Minha teoria, você e os leitores do 500 aC sabem, é de que o brilho efêmero de estrelas como Colômbia, Costa Rica, Chile ou Argélia chega até onde não ofusque os sóis holandeses, brasileiros, alemães e argentinos. E isso, Zé, pelas minhas contas, alcança só até as semifinais. Aí, contra Hummels, Schweinsteiger, Lahm, Müller, Kroos, Götze, mas principalmente com gente fora do campo pensando e executando um projeto prévio, a coisa vai ser séria e com margem de erro zero.

 

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