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Barça abre a temporada de caça aos garotos

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

07 de março de 2014 | 20h19

Carles: A porta giratória de Can Barça não para: o velho e o novo símbolos culés, Puyol e Víctor Valdés juram que vão embora em junho. Messi estaria na mira do PSG e do Bayern, com o apoio mais do que moral de uma marca de material esportivo (rumores apontam a que Leo valeria entre 250 e 500 milhões!!!). Seu eventual substituto, Neymar parece ainda não ter aterrissado de vez. Cortina de fumaça ou nova política de contratações, fala-se efusivamente da chegada da pérola croata Alen Halilovic de 17 anos, além de Denis Suárez de 20, que já foi a promessa do City. Tudo isso sob a sombra dos Alcântara: Thiago que perdeu a paciência e foi para Munique e Rafinha, emprestado ao Celta, escolhido o melhor jogador da Liga de las Estrellas do mês de fevereiro e de futuro incerto. Será que o Barcelona perdeu a mão com a “Pedrera”?

Edu: Vi pouco desse croata, pouco mas o suficiente para perceber por que o Barça faz essa odisseia toda para assegurar o garoto. Sempre fica uma desconfiança de que os grandes clubes vão atrás dos precoces para evitar que a concorrência chegue primeiro, mas em alguns casos vale a pena e parece ser este  o de Halilovic. Mas também pode ser uma entressafra em La Masia, ninguém está livre disso. Qual foi o último jogador de ponta que o Madrid revelou antes de Jesé? Acontece em todo lugar.

Carles:  Claro, o próprio Ajax que parecia ter tudo controlado e esquematizado para beber da própria fonte até o fim dos tempos, um dia pareceu vencido pelos caprichos do acaso, que nem sempre oferece talentos que realmente valham a pena. Antes de Jesé? Casillas e os aposentados Raul e Gutti, se não me falha a memória. Halilovic vem do Dínamo de Zagreb e é filho de Sejad Halilovic, que nos anos 90 jogou pelo Valladolid. Uns dizem que se parece a Iniesta, outros pela canhotinha fechada, garantem que se tratar do Messi croata. Tem ainda os que temem que possa ser uma espécie de Canales, o Beatle cántabro que virou suco. Aos 17 anos, Alen custou um milhão e meio e, às vezes, a impressão que se tem é que o clube tenta rentabilizar o investimento desde já, espremendo ao máximo o frenesi que causa a simples notícia de alguém que só chega na próxima temporada. A contrapartida é o peso que isso possa provocar num adolescente.

Edu: É uma jogada de risco, mas não tem outro jeito, é preciso arriscar mesmo. De repente o garoto é uma fortaleza mental e, além do talento, pode colocar a pressão culé no bolso. Acompanho o futebol espanhol há umas três décadas e não consigo deixar de ver um exagero muito grande com os garotos, veja bem, não estou comparando com a estrutura brasileira, que é uma lástima, estou falando do modelo espanhol. Os clubes sempre pensam e agem assim: Thiago será o novo Xavi, Jesé será o novo Raul. E agora Halilovic é o novo Iniesta. Desde cedo o cara é obrigado a seguir uma referência, além de mostrar que sabe jogar dentro de campo. No Barça, tantos garotos foram tratados como fenômenos no início e não deram em nada, também por causa disso. Basta ver Bojan, Cuenca, mesmo Tello, que é bastante fraco. Ao passo que um craque reconhecido como Neymar chega, mostra o que sabe nos poucos minutos que tem e ainda assim precisa provar todos os dias. Se você diz que ele não aterrissou é porque deve ser a opinião geral por aí. Mas é uma maneira bem distorcida de se tratar o futebol. Bartra é o novo Puyol enquanto Neymar não aterrissou…

Carles: Zé, é natural e até didático, essas comparações muito mais promocionais que buscam causar certo sensacionalismo entre os torcedores. Lembra de quantos Pelés já surgiram na Vila? Feijão, Juari, Robinho… Digo que Neymar não aterrissou não pela qualidade do futebol dele mas porque não me parece que ele mesmo sinta que está em casa. Certamente os brasileiros culparão os catalães disso e os daqui pensam que os que chegam não fazem esforço suficiente para entender e adaptar-se à cultura local. Provavelmente a causa em grande parte seja a forma como se assinam cobiçosos contratos, sem pensar que não é a mesma coisa contratar um profissional, perfeitamente acomodado a um posto de trabalho a milhares de quilômetros, do que colocar um produto importado nas prateleiras do supermercado.

Edu: Não acho natural, não, muito ao contrário. O Santos vai procurar um Pelé sempre, mas não estou falando de Pelés, nem de Messis, nem do Brasil. Estou falando de uma estrutura que é referência no mundo, a do Barça, e de jogadores bons e às vezes nem tão bons, alguns mais símbolos do que craques. Natural seria deixar o craque crescer sem esse tipo de pressão, aí seriam revelados mais Messis. E não entendi a referência aos contratos ‘cobiçosos’. Neymar está nessa situação por conta de seu valor em euros? É isso? Ou chegou acomodado?

Carles: Já percebi que quando o assunto é Neymar fica complicado debater e a coisa descamba para a discussão. Ou pode ser a minha dificuldade de me fazer entender… referia-me à forma como são contratados todos os craques – e não só Neymar – e de como sempre existe a necessidade de OS CARTOLAS multiplicarem a repercussão do negócio, sem pensar nas altíssimas expectativas ou no imediatismo que provocam e nas consequências disso tudo na relação entre jogadores e torcida. Em tempo, eu usei a palavra “acomodado” como sinônimo de “adaptado” e nunca com a conotação de “falta de ambição” profissional. Será que agora consegui me explicar?

Edu: Em parte, mas é melhor mesmo deixar esse assunto de lado. Sobre Halilovic e o outro garoto, Suarez, que se não me engano é galego, o ideal seria o Barça deixar bem claro o que pretende. Serão contratos de longo prazo? Que tipo de tratamento eles terão, de prodígios ou de jovens que precisam de tolerância proporcional a sua fase de formação? O fato de não serem catalães vai pesar numa comparação com a rapaziada de La Masia? Mas acho que esse tipo de transparência é bem complicada de se conseguir, no Barça e em qualquer canto.

Carles: Por mim, seria suficiente que fossem tratados como profissionais em formação, circunstancialmente numa tenra (e suscetível) idade.

 

 

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