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Benzema, ‘Los Ticos’ e a derrota dos egos

O FIM DO COMEÇO DA COPA SE APROXIMA

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

20 de junho de 2014 | 21h10

Carles: Aproveitando que um cara normalmente incomodando com a guerra de egos como Karim Benzema está fazendo uma Copa espetacular, pergunto: foi uma boa para a França ficar sem a sua estrela Ribéry praticamente na véspera?

Edu: Tem todo o jeito que sim, também porque ele vinha bem deprimido depois de perder a Bola de Ouro. E outro egocêntrico, Samir Nasri, foi ejetado por Deschamps, abrindo espaço para um operário qualificadíssimo, Valbuena.

Carles: Valbuena também fez um partidaço nessa nova ‘manita’ para regozijo da Fonte Nova, provavelmente menos drástica para os suíços do que foi para os espanhóis.

Edu: Os suíços a gente sabe que não vão longe, mas até onde essa França pode chegar? O que vai acontecer diante de seleções de verdade?

Carles: Salvo surpresas, isso vai ser só em quartas de final, provavelmente contra a Alemanha, por que antes, em tese, tem o segundo do grupo F, Bósnia, Irã ou Nigéria. Já a Suíça, se não perdeu o rumo, pode ser a adversária da Argentina em oitavas. Isso, repito, se não houver surpresas como a do grupo da morte em que um dos convidados mais humilde da festa já deu um “ticotazo” em dois campeões do mundo.

Edu: Vamos então ao que interessa em mais uma rodada bipolar da Copa: Los Ticos. Nessa vida de andanças, vi muito jogo de futebol em salas de espera de aeroportos, estações de trem e rodoviárias. Geralmente é o lugar onde o sujeito vê o jogo porque gosta de verdade, assiste meio de olho no relógio, aflito, torce para o trem atrasar um pouquinho, ser o último passageiro a ser chamado. Pois hoje, chegando a Manaus, fui testemunha de uma pequena multidão alucinada em frente a um telão instalado na fan zone do aeroporto, torcendo, é claro, pelos costarriquenhos, mais do que contra a Itália. A Copa revelou o novo xodó dos brasileiros e a Seleção de Felipão que se cuide porque daqui a pouco o pessoal vai cantar outro hino.

Carles: Escolher uma simpática zebra para torcer não é nenhuma novidade em competições, a clássica vingança dos esquecidos. A esta altura Los Ticos já deixaram de ser zebra, a Itália já estava avisada, se bem que sempre tem a possibilidade de acreditar mais na incompetência dos uruguaios do que mérito desse time, que tem o goleiro do ano na Europa e um time certinho e sem egos. Será que é uma miragem essa seleção costarriquenha ou os ingleses não vão admitir ir embora sem um único pontinho na bagagem?

Edu: Dá no mesmo para os ingleses. Não é uma vitória na bacia das almas que vai mudar alguma coisa na imagem mal parada do English Team em Copas do Mundo. E será um mero treino para Costa Rica, uma rapaziada que mostrou  maturidade de veteranos contra dois campeões mundiais. Talvez só daqui a algum tempo tenhamos uma ideia precisa da dimensão do feito dessa simpática equipe da América Central. Que ninguém se esqueça, este é o grupo da morte desde o dia do sorteio, mas só agora descobriram quem são os verdadeiros killers.

Carles: Já é um feito histórico real, é a primeira vez que uma seleção centro-americana consegue duas vitórias seguidas numa Copa do Mundo e logo metendo 3 a 1 no Uruguai e ganhando da boa Itália de Prandelli. E isso porque só o chileno Enrique Osses não viu como Chiellini atropelava Campbell dentro da área. Para se ter uma ideia, a Azzurra terminou o jogo com uma dupla de ataque, esses sim, bipolares: Cassano e Balotelli.

Edu: Concluímos, então, que a rodada foi um desastre para os grandes egos. Pode ser uma armadilha cósmica ou um aviso dos deuses. Mas é para se pensar…

Carles: No mínimo um aviso, a Copa tem mostrado que no campo, existe lugar para o talento, com ou sem fama, mas têm levado vantagem os que deixaram o egocentrismo em casa.

 

 

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