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Boleiros politizados (II)

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

24 de fevereiro de 2013 | 18h39

Edu: Não é por acaso que a Itália joga suas luzes sobre personagens controversos do futebol. É uma vocação daquele país. Só mesmo na terra de Berlusconi poderia haver figuras como Paolo di Canio e Christian Abiatti, fascistas convictos que não têm problema nenhum em reconhecer isso. O curioso é que o pessoal do outro lado se manifesta bem mais raramente. A esquerda do futebol ainda é meio envergonhada na Itália.

Carles: Personagens que, na verdade, se bem são manifestos defensores da linha ideológica fascista, atuam como provocadores ao estilo dos neonazistas que agridem verbal e fisicamente os emigrantes no metrô. Cutucam justamente para produzir uma reação agressiva. Não acho que ninguém com ideias progressistas tenha esse tipo de propósito.

Edu: Aliás, há um foco de resistência, sim, e bem famoso. É o Cristiano Lucarelli, comunista de carteirinha, que ajudou a fundar a Brigate Autonome Livornesi, os ultras de esquerda do Livorno, o que transformou os jogos entre Lazio e Livorno e um debate político dentro de campo e uma guerra fora. Enquanto Di Canio comemorava os gols fazendo o cumprimento fascista, Lucarelli elevava o punho fechado.

Carles: Lucarelli jogou no Valencia, chegando a ganhar uma Copa del Rey e una Intertoto.

Edu: Num jogo da Seleção Italiana Sub-21, comemorou um gol mostrando a camiseta com a figura de Che sob a camisa da Itália… Foi uma saia justa geral para a conservadora comissão técnica da Azzurra.

Carles: O ambiente do futebol, permanentemente cercado pelo clima ufano e épico, provavelmente propicia essa confusão de ideias entre bandeira, a gloriosa defesa das cores e da pátria. O conceito de seleção nacional, por mais que você não goste da idéia, está associado à formação de hordas, linhas de comando e de “defesa” da honra nacional, pela pátria e até a morte. Verdadeiros absurdos! Não só a comissão técnica da Azzurra é conservadora. Talvez seja em maior dose, até por uma tradição histórica, mas não é a única. A recusa do glorioso Oleguer, sobre quem já falamos aqui, de servir seleção espanhola não era só uma mostra de fidelidade ao território catalão, mas a negação dos valores nacionalistas centralizadores e opressores.

Edu: Mesmo assim, acho que a Itália tem um traço especial, até para a gente ter uma visão exata de como funcionam ali os boleiros politizados. As cargas de dramaticidade são muito maiores naquele país, dão um tom mais escandaloso. Di Canio, o mais simbólico jogador fascista dos tempos modernos, também ficou famoso por dar um exemplo de fair play, quando jogava pelo West Ham. Em uma partida contra o Everton, vendo que o goleiro adversário estava caído, recebeu uma bola e se recusou fazer o gol. Foi aplaudido de pé, cumprimentado pelos adversários e, mais tarde, virou herói da Fifa.

Carles: Moralismo estilizado é senha conservadora.

Edu: Em compensação, inspirada pelas arruaças políticas de Di Canio, a torcida da Lazio decretava ‘Morte a Lucarelli’ a cada confronto contra o Livorno. Isso é Itália.

Carles: A Lazio talvez tenha concentrado a máxima intolerância racista por metro quadrado, não? Mas não podemos esquecer de Cannavaro, Buffon…

Edu: Sim, a Lazio era o time do coração do Duce. Tem também o Abiatti, que jogou por aí (no Atletico de Madrid). Foi outro que confessou publicamente suas simpatias fascistas. Mas procurou dar uma entrevista politicamente correta, dizendo que defendia, na verdade, as mensagens de patriotismo e de amor aos valores do povo italiano que vinha da época de Mussolini. Fez a ressalva que nunca foi a favor das atrocidades nem da aproximação com o ideário de Hitler. Virou um símbolo light da direita…

Carles: Exatamente, ele saiu o armário e confessou suas predileções, mas as convicções de Abiatti confirmam essa confusão entre valores nacionais e o pensamento ultradireitista e que estão muito mais ligadas à intolerância propagada do que a uma consciência política. A linha é tênue e se rompe com facilidade à mínima tensão.

Edu: De qualquer forma, estamos falando de um país peculiar também no futebol. As demonstrações de orgulho nacionalista se misturam com as facetas de corrupção que tem marcado o calcio. É uma promiscuidade política que permite o surgimento de fraudadores internacionais como o Luciano Moggi, aquele que elaborou todo o processo de entrega de jogos, árbitros corruptos e apostas ilegais desvendado na década passada. Sem falar no Berlusconi, que a rigor criou uma doutrina administrativa seguida à risca por seus pares, no futebol e fora dele.

Carles: Por que, você acha incompatíveis a defesa dos valores nacionalistas e a corrupção? É provável que historicamente até caminhem juntos. A minha sensação é que a defesa extrema de símbolos etéreos como hinos, bandeiras, brasões formam parte de uma cortina de fumaça que pretende esconder a fragilidade de estados centralizadores e, por isso, muito distantes dos cidadãos. Daí minhas restrições aos palácios guarnecidos por leões da zona dos Ministérios em Madrid, por exemplo. Prefiro a vida dos centros sociais ‘del pueblo’, onde se cozinha a legítima vida cidadã e busca-se preservar sua identidade.

Edu: Não acho nacionalismo e corrupção valores incompatíveis, de jeito nenhum. Mas não precisam ser tão descaradamente como no caso da Itália. Por aqui temos tudo isso e uma dose generosa de nacionalismo também, mas não com o requinte e a carga de dramaticidade dos italianos – coisas que vocês também têm na Espanha. Mas sobre os boleiros politizados daqui falamos no próximo episódio.

 

Lucarelli e o Che:

O polêmico Paolo Di Canio:

 

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