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Boleiros Politizados (III)

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

18 de março de 2013 | 09h40

Edu: Se eu pedisse para você citar boleiros politizados brasileiros você lembraria imediatamente de quem? Afonsinho, Sócrates e o pessoal da Democracia Corintiana. Será que tem mais?

Carles: Acho que num contexto pouco politizado existe uma tendência à confusão. Uma coisa é o nível intelectual ou de consciência acima da média e outra é a atividade política, a militância, inclusive aproveitando todas as possibilidades por ser uma figura pública. Tanto Afonsinho como Sócrates mostraram sua capacidade de liderança política, seu engajamento. Por outro lado, destacaria Ademir da Guia, um exemplo de posicionamento ideológico, num cenário muito mais normalizado politicamente, não?

Edu: Afonsinho e Sócrates foram casos excepcionais de consciência política e de liderança de classe inclusive. Alguns carinhas da Democracia Corintiana também, como Vladimir, um pouco o Casagrande. Mas, no geral, os jogadores brasileiros que se aventuraram no mundo da política foram levados por oportunismo e diversas influências do entorno, ou seja, não tinham exatamente consciência política, que no fim das contas é o que interessa, é o que torna o cidadão politizado. Ademir foi até vítima de uma assessoria corrupta que o envolveu em problemas legais até hoje não bem explicados. Como dezenas de outros, não emplacou na política por não ser um sujeito politizado.

Carles: E como é hoje o envolvimento político deles? Seguem atuando ou é só oportunismo para conseguir cargos políticos, como nosso amigo Romário?

Edu: Pois é, casos como o de Romário e Bebeto, os mais famosos representantes do futebol na política atual, são intrigantes. Houve outros que aproveitaram a fama esportiva para conseguir uma boquinha na política, como o velho Biro Biro, egresso da democracia corintiana, mas que não tinha o menor traço de convicções ideológicas, uma figura um tanto indefinida. Houve uma turma de Minas que chegou até a atuar bem, no rastro do tricampeão do mundo Wilson Piazza. Mas especificamente Bebeto e Romário me parecem casos gritantes de oportunismo, inclusive dos partidos que os adotaram. E Romário, provavelmente assessorado por gente experiente, tem se valido de seu prestígio na mídia para decolar politicamente, apoiando causas populares e projetos de moralização na política e do esporte. Mas gostaria que alguém me dissesse quais são as reais posições de Romário diante de questões relevantes sobre cidadania e exclusão social. É bom lembrar que ele é do Partido Socialista Brasileiro!!! Romário socialista? Não consigo digerir.

Carles: Mas o caso do Biro Biro foi uma resposta à vontade popular, hehe. Não se esqueça que, bem antes de que ele pensasse na carreira política, o povo já clamava pela sua liderança. Sem ser candidato conseguiu muitos votos, junto com algum espécime zoológico, o velho cacareco que virou uma passagem clássica da política brasileira, não? Não foi outra referência ideológica que disse que o povo brasileiro não sabe votar, como se se tratasse de uma habilidade? E fracassos eleitorais como os de Marcelinho Carioca ou Dinei talvez desmintam a famosa frase do Sr. Edson Arantes ou signifique que vai se aprendendo?

Edu: Sobre o Biro, não chegaria à aberração de dizer, como Pelé, que o povo não sabe votar. Mas não deixa de ser uma forma de protesto clássica do eleitorado. É evidente que ele era uma figura popular. Como é Romário, que aliás usa isso de forma positiva, por causas positivas. O que questiono é o fato de o cara se aproveitar disso para reforçar seu prestígio pessoal e, muitas vezes, nem saber exatamente o que está defendendo ou reivindicando. Quando Afonsinho desafiou os dirigentes com uma postura de inconformismo e Sócrates se valeu de sua popularidade para defender ideias progressistas, sem precisar de cargos públicos, eram atitudes políticas legítimas e conscientes.

Carles: Pode ser que a extrema profissionalização do futebol não deixe lugar para o posicionamento ou manifesto político público das grandes figuras? A defesa dos interesses classistas pode também ser uma forma de atuar politicamente. Recentemente, a Asociación de Futbolistas Españoles posicionou-se claramente contra alguns clubes que não cumpriam seus compromissos contratuais com os profissionais, sobretudo em divisões inferiores. Na Argentina, a associação também liderou algumas causas inclusive com ameaça de greve contra a violência.

Edu: Mas aí já não estamos falando das características dos brasileiros, como já discutimos anteriormente. Porque os europeus são também bastante travados e até medrosos para se posicionar em questões políticas comuns, embora tenham maior consciência sindical. O problema aqui é, como sempre, de formação. A maioria dos caras que chega ao profissionalismo tem uma educação política precária e os poucos que se destacam entram no esquema do politicamente correto que, em futebol, se resume a uma enorme estupidez: ser politicamente correto é não ter posição política.

Carles: Mas esse não é um problema exclusivo do futebol, não é mesmo?

Edu: Não, não. Longe disso. Mas o futebol sempre corre o risco de se tornar uma ilha de ETs, o que contraria seu próprio desenho popular, sua capacidade de mobilização, seu poder de misturar identidades e gerar movimento social.

Carles: Ou seja, o risco é formar um novo gueto.

Edu: Entre jogadores, técnicos e dirigentes, sim. O torcedor, por outro lado, é um retrato mais bem acabado da sociedade, há os atuantes, há os passivos, há quem se posicione. A torcida é um exemplo de diversidades. Mas o jogador de futebol – no Brasil mais do que em outros lugares – é em linhas gerais (porque há exceções) um sonso politicamente, um medroso. Quem dera tivéssemos aqui a consciência dos vizinhos argentinos, chilenos ou uruguaios por exemplo.

Carles: Detesto insistir, mas acredito que a raiz de tudo esta na consciência de identidade do povo em geral e não só no mundo do futebol. Talvez essa seja a grande diferença entre brasileiros, argentinos, uruguaios, se bem que nem uma coisa nem outra seja uma regra sem exceções.

Edu: Pode ser, mas, fora do futebol, é preciso reconhecer o muito que se avançou no Brasil em matéria de consciência política desde o fim do militarismo. Estamos ainda distantes do patamar latino americano, mas houve avanço visível. Só que tenho a sensação de que o mundo do futebol estancou. Por isso, talvez, caras como Romário e Bebeto se destaquem e tenham seus méritos. Só que ambos ainda têm muito a fazer para nos esclarecer sobre suas posições efetivamente políticas.

 

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