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Bom Senso sim, mas sem abutres

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

26 de setembro de 2013 | 09h52

Edu: São tão raros esses movimentos que precisamos exagerar agora no estímulo para que a coisa ganhe corpo e se torne um costume. O tal Bom Senso FC parece que veio com firmeza de propósitos, tentando mexer de início em uma das mais delicadas controvérsias do futebol: o calendário. Aquela semente de contestação plantada outro dia pelo Paulo André ganhou inúmeros adeptos, principalmente os veteranos (Alex, Ceni e outros). Ganhou também o apoio de técnicos como Tite e Oswaldo Oliveira. Na origem de tudo estão as datas divulgadas pela CBF para o ano que vem, ano de Copa, apertadíssimo, que será especialmente cruel com clubes e jogadores. Acho que a história já chegou por aí né?

Carles: Na verdade, sopram por aqui ventos a favor do futebol de mercado e escasseiam as brisas da capacitação associativa. Já sabe né, Merkel por maioria e outras tragédias menores. Com todas as perdas, segue sendo a Europa o maior reduto da organização social, migalhas de outros tempos. Lembro que, faz umas duas décadas, o calendário de jogos por aqui parecia o período de férias do Brasil, mas os altos salários foram sendo multiplicados e, com eles, a necessidade de os clubes-empresa faturarem mais e aumentar a mais-valia. O break do verão foi ficando cada vez mais espremido entre torneios e caça-níqueis e vai acabar desaparecendo, pelo visto… Isso vale tanto para os milionários como para os pobres proletários do futebol que são sempre muitos. A associação de atletas profissionais é bastante tradicional por aqui, oferece apoio e até montou um time de profissionais desempregados para exibições que ajudam a encontrar clube, inclusive na China, como foi um caso recente. Dificilmente as mobilizações contam com o apoio das grandes estrelas, como, parece-me, acontece com o Bom Senso, que tenta o apoio de gente como Seedorf ou Ronaldinho. É isso?

Edu: Estão ganhando adeptos e, claro, procuram mais visibilidade com as estrelas, principalmente os veteranos, lideranças naturais, ainda que se corra o risco de parecer um protesto de gente em fim de carreira, que não tem mais nada a perder. Na base do movimento, as aspirações são obviamente legítimas e até certo ponto modestas. Por exemplo, entre os pontos centrais está a exigência de não se disputar mais de sete jogos por mês, o que ainda é um absurdo. Mas é um começo, um cardápio de entrada. Uma das reivindicações, a adequação ao calendário europeu, me parece uma bobagem. É possível ter férias regulares, obedecer as datas Fifa e montar um calendário digno sem precisar parar no meio do ano, o que não faz parte da cultura do torcedor daqui. É justamente a parada de verão, seria minimizar a importância do torcedor.

Carles: Não seria a primeira submissão ao mercado. Imagino que a reivindicação responde às chances de transferência ao futebol europeu que possam aparecer para os jogadores, mas é óbvio que, como elemento cultural, o futebol deve seguir o ritmo da sociedade em que vive e que mais cedo ou mais tarde vai voltar a ser a sua maior mantenedora. Tentando entender um pouco essa reivindicação, do ponto de vista dos atletas que jogam aí e considerando as janelas do mercado europeu, seria uma forma de estabilizar um pouco os elencos durante as competições, sem correr tantos riscos de desmanches em meio a etapas decisivas. Explica, mas provavelmente não justifica, já que deve ser entendido como algo circunstancial, à espera de que o futebol brasileiro não seja só a primeira potência técnica, mas que sua capacidade de financiamento esteja à altura. De todo jeito, meu conselho é que eles deixem um pouco de lado o modelo europeu, sob o risco de perder argumentos já que, como eu disse, por aqui, os direitos do trabalhador vivem uma sangria desatada.

Edu: Não acho que esse ponto específico das transferências tenha tanta amplitude na visão deles. Talvez a principal relação seja com a realização de pré-temporadas no mesmo período da Europa, o que colocaria os jogadores num patamar de preparação mais ou menos parecido, teoricamente. No aspecto mercadológico não funcionaria de forma alguma, porque o público nos estádios, que já não é grande coisa, cairia ainda mais durante o período de festas de fim de ano, algo muito enraizado na nossa cultura. O que incomoda é justamente essa obsessão em se adequar à Europa sempre. Temos exemplos recentes de que o calendário europeu também é um inferno para os jogadores daí. Sem ir muito longe, nosso Paulinho, recém-chegado, jogou pelo Tottenham domingo em Cardiff, na terça-feira fez uma partida pela Copa contra o Aston Villa em Birmingham e no sábado terá o clássico londrino contra o Chelsea. Ou seja, para o Paulinho nada mudou.

Carles: Exatamente isso, não é hora de usar a Europa como referência, que vive um momento pouco favorável para o trabalhador, incluindo os jogadores de futebol profissional. Mas é sim uma boa oportunidade de solidificar uma tradição de militância de classe, o hábito de posicionar como coletivo e de reivindicar melhores condições de trabalho, algo com um histórico muito pobre no Brasil contemporâneo.

Edu: Pois é, se buscarmos aqui um modelo com nossas características seria uma ótima chance de começar a criar essa tradição participativa, esse é o ponto central. Até porque não temos notícia de que exista hoje, na Europa ou em qualquer lugar, uma militância sempre atuante de jogadores de futebol, a não ser em certos aspectos como você frisou. Ao contrário, Uefa e Fifa têm deitado e rolado sobre o calendário em geral, sobre férias e sobre questões financeiras. Só chamo a atenção para dois riscos graves que o movimento corre por aqui. Primeiro, ser dominado pelos abutres viciados em oportunismo, sejam do meio político-esportivo sejam da mídia, alguns que se julgam os paladinos de sempre e que crescem nessas horas. O outro risco é o movimento fechar sobre a elite de futebolistas voltados a um único tema, o calendário. Não há como querer moralizar essas questões trabalhistas básicas sem incluir na discussão situação dos jogadores excluídos da cena central bem como aspectos ligados a formação, educação e cidadania.

Carles: É o problema de uma discussão de ordem classista em meio a uma enorme estratificação e com os extremos distanciados por um mundo, aliás, como o resto da sociedade. A não ser que o movimento não perca nunca sua referência que obviamente não são os mais privilegiados. Esses já perderam sua identidade individual, são uma marca e, como tal, dependem e ao mesmo tempo alimentam uma quantidade de assessores e empregados e, por isso, infelizmente já não são os mais representativos numa associação de classe trabalhadora. Quanto aos oportunistas, é o mal do século e só vejo uma saída: verbas para poder seguir pesquisando a cura. Enquanto isso, uma solução pode ser o velho e bom remédio da leitura de várias fontes plurais, quatro ou mais vezes ao dia, um pouco de boa reflexão antes de formar uma dessas bonitas opiniões “feicecebuqueáveis”.

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