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Bom Senso versão espanhola

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

09 de janeiro de 2014 | 18h20

Carles: Já tínhamos visto por aqui jogadores protestarem contra salários atrasados, trancando-se durante um tempo dentro do clube, por exemplo. Neste meio de semana, o Racing de Santander inaugurou um estilo inédito, com a partida rolando, os jogadores, com três meses de salário atrasado, decidiram ficar congelados feito estátuas durante quase 30 segundos, enquanto o adversário, o Almería, jogava de forma inofensiva, fruto da surpresa ou da solidariedade, não se sabe.

Edu: Eles fizeram o protesto e quem ficou orgulhoso foi o pessoal do Bom Senso, que viu sua iniciativa proliferar. Protesto via exportação. Nas últimas rodadas do Campeonato Brasileiro em praticamente todos os jogos foi praticada a tática do congelamento por alguns segundos. Houve partidas em que os jogadores se sentaram no gramado, com a aquiescência do árbitro. O melhor de tudo é que muitos jogadores de times grandes participaram dos atos em solidariedade àqueles que, como o Santander, são periféricos e sofrem muito mais com o desdém da cartolagem. Aqui, a vítima maior foi o Náutico, rebaixado à Série B e com salários atrasados por meses.

Carles: O Racing, que foi clube de Primeira Divisão, hoje disputa a Segunda B, que corresponde à Terceira Divisão do futebol espanhol. E tudo por causa das péssimas gestões administrativas que atravessou, incluindo a compra por um misterioso milionário indiano que apareceu duas ou três vezes na tribuna de autoridades, mas que, dizem, nunca cumpriu os compromissos financeiros, nem ao menos os que correspondiam à compra do clube. Além disso, com um bom futebol, o time de Santander conseguiu se classificar para as oitavas de final da Copa del Rey, percorrendo o país em ônibus, por falta de dinheiro, enquanto seus adversários o faziam em avião. Parece que pelo menos uma parte cumpre o seu compromisso, além de, claro, conseguir chamar a atenção para uma situação precária.

Edu: Segundo os líderes do Bom Senso, o ‘protesto congelado’ tem funcionado muito mais do que mil discursos e o que surpreendeu foi a rápida adesão dos jogadores que normalmente parecem omissos, mesmo os privilegiados, que recebem altos salários. Pela repercussão na mídia daí e mesmo pelo apoio da torcida (que no caso do Santander teve violência incluída), parece que eles têm razão. Só tenho minhas dúvidas se o alvo dos protestos se sensibiliza com alguma coisa nesse mundo do futebol. Acho até que a cartolagem aposta sempre num esgotamento natural das pressões, na banalização do protesto. Por isso, os grandes precisariam aderir para manter a chama acesa.

Carles: Duvido muito que os grandes clubes se somem ativamente a qualquer protesto, mais além de declarações de apoio das grandes estrelas aos meios. Existe um abismo entre a realidade de uns e de outros, além dos faustuosos compromissos dos grandes clubes com patrocinadores que não permitiriam em nenhuma hipótese esse tipo de associação das suas marcas com “atos de rebelião”. Só que, mesmo dentro de uma visão mais egoísta, ninguém sabe onde pode estar no futuro. Qualquer dia, os que hoje jogam num clube grande podem muito bem, estar numa situação semelhante à dos cántabros. Uma coisa é certa, os atletas do Racing contam com o apoio da AFE, a Associação de Atletas Profissionais que após o jogo, através de um comunicado, explicou a situação e manifestou o seu total apoio. Quanto aos atos de violência da torcida, nada tem a ver com a “greve” dos jogadores, se bem que alguns jornais começam pelo destaque aos atos vandálicos para só depois apontar o sucedido no campo. Questão de prioridades.

Edu: Quando digo ‘grandes’ me refiro aos jogadores, nunca aos clubes, que desses não se pode esperar nada. Mas também não vejo no contexto espanhol ninguém entre as estrelas muito interessado em apoiar com ênfase, e publicamente, a causa do Racing. Certamente não teremos Sérgio Ramos, David Villa ou Xavi abraçando uma causa dos humildes, até por subserviência aos seus chefes. Muito menos os superastros. O que é uma lástima em um país que teve setores sociais muito atuantes nos últimos anos em função da crise social e financeira e que tem uma tradição de inconformismo bem maior do que deste lado do mundo.

Carles: Não se esqueça nunca da existência das “duas Espanhas”. Continua viva uma parte do país de tradição operária, reivindicativa e muito atuante, enquanto a outra se preocupa em manter as tradições aristocráticas, conservadoras e ligadas às crenças católicas. Foi assim na questão da guerra do Iraque em 2003, em que acabou prevalecendo a posição de uma minoria dominante e temo que vai ser assim com o retrocesso na lei do aborto, agora. O grande problema talvez esteja na desigualdade crescente entre a repercussão midiática de cada uma das duas Espanhas, um fenômeno que se repete e a que todos parecemos condenados. E, só por uma questão de justiça, permita-me duvidar de qual seria a posição de Villa ou de Xavi numa situação extrema. São justamente dois exemplos que poderiam surpreender. Já Messi, Cristiano…

Edu: Justamente dessa parte da sociedade que se movimenta é que os eventuais líderes dos jogadores deveriam ir atrás. Foi o que surpreendeu no Bom Senso, o desprendimento dos líderes em buscar apoios importantes, a partir dos colegas famosos, antes de mais nada, se a ideia for mesmo fazer o protesto ganhar musculatura de dentro do movimento para fora. Imaginei que você fizesse uma defesa do Xavi, mas, sinceramente, duvido que esses caras da elite, sejam da Catalunha ou de Madrid, vão um dia levantar a cabeça para tomar porrada. Se tivessem que fazer isso, já teriam trabalhado dentro da categoria contra a amazônica distância entre grandes e pequenos, que na Espanha há anos tomou proporções abusivas, enquanto todo mundo assistia de camarote.

Carles: A minha defesa do Xavi e do Villa tem a ver com as suas origens pessoais, o compromisso e a ética relacionada com a educação deles e não por que Xavi seja catalão. Claro que, como eu disse, isso seria num caso extremo ao que ainda não chegamos. Apesar de tudo, por aqui vivemos em uma sociedade muito mais estável e isso, queiramos ou não, cria certa acomodação. O problema é quando a água começa a bater no traseiro, como no caso dos jogadores do Racing. Esperemos que o pessoal do Bom Senso siga dando exemplos inclusive a ponto de sensibilizar as grandes estrelas europeias. Quem sabe?

 

 

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