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Canto do cisne para a geração de ouro da Costa do Marfim

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

14 de março de 2014 | 20h31

Carles: A gente dá uma olhadinha nos jogadores costa-marfinenses, no que muitos deles representam para os clubes importantes onde jogam e fica até difícil entender os resultados pouco expressivos da sua seleção nos torneios mundiais e continentais.

Edu: A Copa 2014 será o canto do cisne para uma geração especial da Costa do Marfim. Uma lista encabeçada por um jogador muito querido por aqui, Didier Drogba, 35 anos, mas certamente outros, como Kolo Touré (33, mais de cem jogos pela seleção), o volante capitão Didier Zokora (33) e o atacante Aruna Dindane (33) não terão gás para o Mundial da Rússia, em 2018. Mesmo o atual maior astro do time, Yayá Touré, deve ter dificuldades daqui a quatro anos, quando terá completado 35 e não poderá mais fazer seu papel de todo-terreno com tanta competência…

Carles: Uma pequena constelação de veteranos assessorada por jovens atacantes como Kalou e Gervinho, com 28 e 26 anos, respectivamente…

Edu: Por aí é possível ter uma ideia do poder de fogo desse time. E levando-se em conta que a Colômbia (mesmo com a dúvida sobre Radamel Falcão) é favorita do Grupo C, a maior batalha dos marfinenses deverá ser contra o perigoso Japão, uma vez que a Grécia, para sermos realistas e salvo uma hecatombe, não passa de figurante, como provam as outras copas de que participou. O jogo de Recife, no sábado, 14 de junho, às 22 horas, contra os japoneses, é praticamente uma decisão de vaga nas oitavas.

Carles: Olha, considerando que a primeira vez que eu cruzei a poça demorei 12 dias, poderíamos dizer que Drogba e seus comparsas fazem sua estréia praticamente em casa. Recife fica a pouco mais de 4 horas de voo de Abidjan (se houvesse voos diretos, claro). 3.600 quilômetros não são nada comparados com os 14.326 que a seleção dos EUA vai ter que percorrer para jogar os três primeiros jogos ou os 11.240 da primeira fase do “Brasil Tour” dos próprios marfinenses.

Edu: Uma vitória no jogo do Recife dá moral ao time para pegar a Colômbia, dia 19, em Brasília, e, quem sabe, jogar mais tranquilo no dia 24 (em Fortaleza) contra os gregos, que provavelmente já estarão de malas prontas para retornar aos deuses do Olimpo.

Carles: Se conseguirem, seria a primeira vez que eles superam uma primeira fase de uma Copa, na sua terceira participação consecutiva. Na África do Sul, até que a proeza esteve relativamente perto se não estivessem num grupo com Brasil e patrícios e aquele empatezinho de compadres entre ambos, se bem que os africanos precisavam golear por 7 os coreanos do norte e acabaram ficando em menos da metade.

Edu: O crescimento do futebol marfinense está intimamente ligado a sua emancipação como nação. Foi só depois da independência, em 1960, ao fim de quase sete décadas de jugo francês, que o país descobriu algumas vocações. Ainda que a influência francesa na África Ocidental tenha tido papel importante no crescimento econômico, mesmo depois da independência, as razões socioculturais que fortalecem o nacionalismo se impuseram, a partir dos mais de 60 dialetos falados no território habitado por mais de 20 milhões de pessoas, embora a língua francesa seja a que se aprende na escola.

Carles: Acho que os “civilizados” deveríamos olhar mais para esse conceito de pertinência de algumas das tribos africanas que seguem muito vinculadas às suas origens. Os africanos que vemos por aqui circulando com os tênis e roupas de marcas esportivas famosas nada têm a ver com a resistência e persistência de alguns povos africanos.

Edu: Não que internamente o país tenha resolvido suas mazelas, marcadas por uma fragmentação social que ainda não curou as cicatrizes da guerra civil do início deste século (2002/2003), mas há uma busca permanente de identidade, na qual o próprio futebol está inserido.

Carles: É isso, processos históricos como esse são determinantes  em muitas das nações africanas. As representações nacionais acabam sendo mesmo uma reunião eventual de gente que pouco ou nada tem a ver com as próprias origens, que praticamente vivem os hábitos e costumes europeus. Talvez essa seja uma das dificuldades adicionais para que eles possam se sentir uma equipe, porque de alguma forma foram corrompidos. Nada contra essa capacidade que essas gerações de africanos demonstram ter para se adaptar e assimilar novas condições de vida e trabalho, mas, sem dúvida, cada vez menos eles têm coisas em comum e pouco resta da essência de uma prática esportivo de um modo genuinamente africano.

Edu: Talvez essa trajetória histórica tenha influenciado no fato de os marfinenses ainda não terem abraçado plenamente o técnico francês Sabri Lamouchi, responsável por classificar o país para sua terceira Copa do Mundo. Não é uma novidade ter um francês no comando da seleção, mas Lamouchi, um descendente de tunisianos que chegou a fazer alguns jogos na Seleção Francesa, não tem um currículo firme como treinador, é inexperiente e ainda não conseguiu um padrão de jogo que encantasse a torcida. Há justificativas, claro. O elenco que tem frequentado as convocações vem de 10 países diferentes, a maioria na Inglaterra, sem contar os dois jogadores que atuam na própria Costa do Marfim, o experiente goleiro Boubacar Barry e o zagueiro Steve Gohouri. Ainda assim, a presença de craques reconhecidos no contexto europeu eleva as exigências em torno do trabalho de Lamouchi, que desde o início privilegiou um ritmo de jogo baseado no estilo técnico de seus meio-campistas, principalmente Yayá Touré, duas vezes eleito o melhor futebolista da África.

Carles: Quando Yayá estava no Barça, Guardiola ofereceu-lhe a posição central, pensando já nesse seu conceito tão particular de zona defensiva e, quem sabe, tendo como referência aquele sensacional Frank Rijkaard do Milan. Hoje, Touré faz um pouco isso, só que partindo da própria intermediária para frente. Acho que ele será fundamental para o sucesso da sua seleção que ocupa a 24ª posição no ranking Fifa e enfrenta a Colômbia que é a quinta (com Falcao), Grécia que é 13ª e Japão, 48ª. Finalmente, um grupo sem bicho papão.

Edu: É bom salientar que, como todas as outras equipes africanas, a Costa do Marfim terá grande apoio do torcedor brasileiro onde quer que atue, também em função do carinho e da identificação com seus craques por aqui, entre eles o incrível Gervais Kouassi, da Roma, que tem, além do estilo com perfil brasileiro, um apelido que o consagrou em toda a Europa, dado justamente por um treinador brasileiro, Joel Carlos, nos tempos em que o habilidoso atacante ainda jogava em Abdijan: Gervinho.

 

 

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