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Capitães reinventados

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

15 de julho de 2013 | 06h01

Carles: Quem é o atual capitão do seu time?

Edu: Eu sei muito bem quem é. Era para não saber?

Carles: Eu, por exemplo, não sei quem é, ando meio perdido, acho que aquela função original do capitão, do líder ou representante dentro de campo, ganhou tantas interpretações que muitas vezes me surpreendo ao ver o bracelete no braço de determinado jogador. Ou você não concorda que os critérios para a escolha mudaram muito?

Edu: Mudaram sim e na Europa são bem diferentes do que por aqui. Normalmente os times europeus respeitam coisas como linhagem, raízes, antiguidade no clube e outras tradições. Acho legal essa liturgia dos europeus. Aqui, ao contrário, é quase sempre uma premissa do técnico, que põe o sujeito no qual ele tem confiança e não abre mão disso.

Carles: Nem sempre. Muito treinador, mesmo por aqui, costuma utilizar a faixa de capitão como uma prenda, para lustrar egos, como forma de resgatar um jogador que esteja passando por horas baixas, que se sinta desvalorizado. Às vezes, é nomeado justamente o cara que tem todas as características opostas ao que se espera desse líder. O mais bala perdida, o mais irresponsável, e acaba escolhido por um sistema de psicologia inversa. E normalmente é uma aposta arriscada.

Edu: É uma atitude esporádica, imagino, ao menos nos clubes grandes. O que parece é que em países como Espanha e Itália, principalmente, o técnico tem que se adaptar e pronto. Tem um exemplo clássico aí de Madrid. Mourinho e Sérgio Ramos não se suportavam, mas o português teve que engolir o zagueiro como capitão durante todo o tempo em que Casillas esteve fora, por decisão do próprio técnico, aliás. Mourinho não teria cacife para peitar a instituição e dar a braçadeira ao seu amigo Pepe, por exemplo. Mas vai dizer ao Luxemburgo ou ao Felipão que a instituição é mais importante que o treinador e que o capitão é fulano e está acabado….

Carles: Segundo a tradição, o capitão deveria ser aquele que melhor simboliza o clube, sua cultura, mas também deveria ter o maior trânsito possível dentro da próprio plantel, bom senso para reivindicar durante as partidas sem se transformar num reclamão compulsivo e, se for possível, poliglota. Eu já vi esse conceito sendo completamente destruído, ao entregar-se a faixa de capitão ao que tem mais cacife técnico ou prestígio de goleador, jogadores individualistas, pouco comunicativos ou mimados. Uma tendência que, por extensão, acabou por subtrair autoridade, por exemplo, à figura do capitão junto ao árbitro. Por isso, ultimamente, uma queixa durante o jogo, mesmo do capitão, acaba sendo castigada com cartão.

Edu: Esse bom senso o técnico tem que ter na hora de definir o capitão, talvez até em uma ação coordenada com a direção do clube. Que jogador nos representa melhor? Quem será capaz de ser a imagem do equilíbrio em um jogo tenso? Quem tem ascendência suficiente para se impor aos companheiros e também ser respeitado pelo árbitro? Há muitos com esse perfil na história. Mas há também os trapalhões e destemperados e isso, de fato, nada tem a ver com sua superioridade técnica em relação aos colegas.

Carles: Diego Maradona, por exemplo, um caráter forte, mandão até, suficientemente entregado às cores que defendia, sobretudo à Seleção da Argentina. Mas, a meu ver, nunca teve o equilíbrio necessário para, numa situação extrema ou tensa, manter a calma e agir como exemplo para jogadores mais novos. No outro extremo temos Karl-Heinz Rummenigge, contemporâneo do ‘Pelusa’, talvez demasiado frio, dentro de campo já se vislumbrava o cartola que vivia dentro dele.

Edu: Dieguito então é o ‘não exemplo’, o cara que não se impõe apenas por sua diferença técnica. Há, nesse aspecto, uma bizarrice na história recente do Atlético de Madrid, que colocou Fernando Torres como capitão quando tinha 20 anos, só porque era o melhor do time. Em parte foi o que o Santos andou fazendo com Neymar. Não que o cara precise obrigatoriamente ser muito experiente para ser capitão, mas também não dá para querer responsabilidade e liderança de alguém que até outro dia era um adolescente.

Carles: Pois é, esses são exemplos do que eu dizia, a capitania como forma de compensação, para o garoto se sentir importante. Isso ocorre muitas vezes com os craques muito cotados, propensos a sair do clube. Vira um agradinho e desmoraliza a condição de porta voz. Aconteceu também com Eto’o que pode ser tudo, bom sujeito, sociável ao extremo, menos ser reconhecido por ter o perfil ideal para representar o grupo. Outro conceito questionável de muitos treinadores é a associação da delegação da capitania somente a determinadas demarcações. Há quem não goste de que seja o goleiro, pois considera que ele está lá, preso e não pode transitar ou aproximar-se do árbitro. Centrais ou meio campistas são os favoritos, nesse caso. Pelas zonas do campo mais frequentada por eles. Acaba sendo outro fator limitador e possível causador de injustiças.

Edu: A posição, na verdade, pouco importa. Só acho que sujeitos como Ronaldinho Gaúcho, Ibrahimovic, mesmo Torres e o citado Pepe são exemplos de temperamentos muito diferentes entre si mas que, numa situação extrema, jamais funcionariam com o devido equilíbrio, ou porque têm pavio curto ou porque são omissos e, pressionados pelo bracelete, saem fazendo bobagem e acabam expulsos como você lembrou. Ainda vejo o capitão como um ícone de referência, um farol em campo. Onde trafegaram Beckenbauer, Carlos Alberto Torres, Baresi e Zidane não pode haver lugar para Dungas, Ibras e quetais.

Carles: Pois acabando o nosso papo, vou dar uma olhadinha para ver se descubro quem tem essa responsabilidade no meu time e poder decidir se ele é um verdadeiro capitão ou não passa de um sargentão.

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