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Casemiro e Kaká, sob o efeito Ancelotti

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

11 de agosto de 2013 | 09h57

Carles: Segundo as manchetes da festiva imprensa esportiva de Madrid, ontem foi o dia grande de Casemiro e Kaká. Quanto disso tudo é entusiasmo e quanto é estratégia de venda?

Edu: Se for uma visão catalã é estratégia de venda, se for uma análise madrileña é euforia por uma descoberta e uma ressurreição. Pelo que vi durante todos os jogos a pré-temporada, incluindo estes 3 a 0 contra a debilitada Inter de Milão, algum entusiasmo se justifica. Pode ser que eu tenha queimado a língua há seis meses, quando disse a você para me cobrar sobre Casemiro, que considerava – e ainda considero – um problema irremediável de falta de temperamento para jogar na Europa. Se algo mudou desde então, uma transformação completa provocada pela experiência no Castilla, menos mal. Seria uma queimada de língua com bom gosto. Mas ainda prefiro esperar um pouco. Quanto a Kaká, está com mais confiança – efeito Ancelotti -, mas ser titular é outra história.

Carles: Comecemos pelo garoto, de quem vi até agora só partidas para cima de corretas, no time principal. As primeiras comparações com Mauro Silva que li por aqui talvez estejam relacionadas com a seriedade e a capacidade de tomar a decisão certa, já que me parecem estilos bastante diferentes. Bom, tem também o modelo ideal de volante brasileiro, encarnado por Mauro. Se o problema, segundo você, era falta de temperamento, isso pode ter o contraponto da maleabilidade e capacidade de aprendizado. Sem dúvida, ele parece muito disciplinado taticamente, aparece para fazer gols em bolas paradas, aproveitando bem a altura, e demonstra uma boa visão de jogo. Não é de se estranhar que em 2011 fosse um dos jovens valores mais observados por todos os grandes da Europa.

Edu: O problema é que a gente às vezes pode se enganar com os sintomas. Casemiro tem um privilegiadíssimo porte físico e, quanto à habilidade e trato com a bola, numa primeira olhada, parece um lorde, muito mais clássico do que Mauro Silva e com boa saída de jogo. Essas chegadas ao ataque também sempre foram sua característica. Dito assim, parece um cracaço, e até poderia ser. Alem de suas virtudes individuais, foi formado nas escolas do São Paulo com tudo de melhor à disposição e esteve na Seleção junto com Neymar,  Oscar e Lucas. Foi justamente quando pesou o temperamento. Já se considerou um jogador pronto, como os colegas famosos. É verdade que entrou no time titular do São Paulo num momento ruim, de transição, e talvez não tenham tido tanta paciência com ele. Mas ele deu a ideia de que não tinha mais nada a aprender e perdeu para sua própria petulância. Pode ser que a saída para o Madrid B tenha feito cair a ficha e o garoto pode ter começado de novo. Se foi assim, melhor.

Carles: É uma possibilidade e talvez uma trajetória interessante para a formação e consolidação de craques, nascer num grande celeiro e aperfeiçoar-se em uma das segundonas europeias. Muitos já repetiram essa história de forma fortuita, pode ser que Casemiro seja um caso raro de absoluto planejamento. Mesmo antes da chegada de Ancelotti, ele já vinha entrando no time de lateral ou volante ocasionalmente, ainda estando inscrito no Castilla, onde também fez partidas memoráveis, junto com Morata e Jesé que ontem também jogaram. Veja que eu tenho mais dúvidas quanto ao sintoma Kaká. Parece que ele se sente mais à vontade quando não tem à sua volta todo um time de protagonistas. Nem acho que seja uma questão de ego, mas de jogo mesmo. Parece que com Benzema, Cristiano, Özil, ele não tem a liberdade de circular por aquela ampla zona intermediária do adversário que o consagrou. Como se as outras estrelas tolhessem o seu jogo.

Edu: O fato de não ter encontrado seu espaço é tão evidente quanto suas limitações físicas durante esse tempo todo de Madrid. Kaká sempre precisou de uma área ampla e não só para suas arrancadas, hoje bem mais raras, mas para ter liberdade de ação. Não é um jogador de futsal, é um arquiteto de grandes espaços. Para não ser injusto com o Real Madrid, nos primeiros jogos com Pellegrini no comando Kaká teve essa liberdade, mas em seguida vieram as contusões e, muito tempo depois, quando voltou ao time, já encontrou Özil, Di Maria e outros ocupando seus espaços – para não falar do próprio Cristiano, que também precisa de corredores e áreas livres. Neste momento, o que está claro é que Ancelotti tem essa sensibilidade e Kaká parece mais leve. O problema é que o time titular já está com lotação esgotada. E pode chegar mais um galáctico por aí.

Carles: Um galáctico que, pelo visto, só Florentino quer e até ele está começando a perceber que gastar 100 milhões de euros num jogador e para um time que está funcionando e que tem várias opções do mesmo nível no banco, é querer fazer um papel ridículo.

Edu: Digo mais, Bale pode atrapalhar. Na atual circunstância é um tipo de jogador desnecessário, que vai dificultar a circulação de jogo e a mobilidade mesmo do Cristiano.

Carles: Pode ser que o Florentino seja um visionário e que esteja enxergando mais do que todo o resto dos mortais, exceto as tietes caça-autógrafos. Mas é quase um consenso que Gareth só vai trazer problemas para um jogo e um ambiente que deram muito trabalho até alcançarem uma certa normalidade. Aliás, nem foi tanto trabalho, foi só deixar a coisa correr com tranquilidade, sem inventar histórias. Quanto a Bale, o problema da sua eventual chegada não seria precisamente ele que já demonstrou ser um craque, mas o desequilíbrio que ele pode representar tanto para o jogo como para o ambiente.

Edu: Se para Kaká já está difícil sem Bale, imagine se chegar o galês. Temo que, apesar de Ancelotti, ele está condenado a mais uma temporada com poucos minutos. E para finalizar sobre Casemiro, arrisco mais uma previsão. Ele viverá agora o mesmo processo de elogios e oportunidades que teve no São Paulo depois de voltar da seleção dos garotos, quando não segurou a onda de expectativas. Se superar esta etapa sem máscara, aí sim teremos a confirmação de uma mudança saudável de comportamento.

Carles: Entendo que segundo você, as expectativas criadas para ambos no jogo de ontem são meros “espejismos” como se diz por aqui. Mesmo que eles se encontrem no meio do caminho de situações praticamente inversas.

Edu: As ilusões são cada vez mais comuns nestes tempos de flashes e celebridades instantâneos. No fundo, acho que nem o mais tolerante dos madrileños acredita piamente na recuperação de Kaká. Ele pode ajudar? Claro que pode. Mas nunca será o Kaká de antes. Quanto a Casemiro, é a hora da verdade.

Carles: A hora da verdade que começa dentro de uma semana.

 

 

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