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Cem milhões, sem contar a simpatia

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

08 de fevereiro de 2014 | 22h22

Edu: Tipo bem estranho esse Bale. Parece que não tem muita ambição, joga quando quer, vive inventando pequenos probleminhas… Quando joga até resolve, como hoje, mas é bem esquisitão. Só pode ser o peso dos cem milhões.

Carles: Teimosia do seu amigo Florentino, especialista em nadar contra a corrente. Como você disse, ele até resolve, da mesma forma que Di María ou Jesé. Só que justo no momento em que os espanhóis estão fazendo as malas a caminho do Reino Unido, o ‘presi’ insiste em trazer o galês, pouco treinado na arte das relações sociais. E tudo pela módica quantia de 100 quilos! Complicada convivência.

Edu: Um britânico de verdade é capaz de ficar meses, anos, no canto dele, desde que não mexam com ele. Esse Bale tem toda a pinta de que não pretende se aculturar em Madrid, nem sei se daqui a pouco o próprio Florentino não vai se encher. E a galera costuma rejeitar esses tipos também. Lembro de outros britânicos que passaram por lá com esse espírito e se deram mal justamente por isso de não se acostumar com a cultura, não ir ao ‘asador’ da moda para uma comida com os colegas. Michael Owen foi na época dos galácticos e pouco jogou. Sem contar o mico da década passada, Jonathan Woodgate.

Carles: Esse seja talvez o grande problema para os britânicos, definitivamente Madrid não é o canto deles. Mesmo assim, Bale já é o décimo terceiro da história Real Madrid, o primeiro galês. Talvez com as duas únicas exceções de Steve McManaman e David Beckham – ambos sempre com um sorriso disponível – o resto nunca chegou a se sentir em casa.

Edu: McManaman, que teve uma surpreendente adaptação, fez uma entrevista com Bale para a TV inglesa logo que negociação com o Madrid foi fechada e aproveitou para dar um conselho: ‘Aprenda a língua e interaja com as pessoas, do contrário não é o futebol que vai resolver’. Não sei se o galês esquisito captou a mensagem. O que sei é que muitos da Europa do Norte não ficaram à vontade em Madrid, desde Bodo Ilgner até os holandeses Snejder e Robben. E mesmo alguns brasileiros se deram mal.

Carles: Pois é, na época do maior fiasco social, o alemão Ilgner, teve o caso Sávio, que chegou a ser importante em campo sem ser capaz de responder às exigências de convivência do clube. Parte de um protocolo que inclui o glamour da companheira, o corte de cabelo adequado ou o famoso ‘paseíllo’ do carro até a porta do ‘asador’ da moda – um clássico na vida e nos triunfos madridistas, onde se confabulam planteis e técnicos, resolvem-se desavenças e firmam-se pactos para as grandes viradas. Quem não estiver disposto a participar desses convescotes, começa a se auto-descartar. Talvez o problema para os britânicos entenderem a importância disso tudo seja que não vem escrito no contrato.

Edu: Por isso que alguns caras fazem o social perfeito e viram ídolos eternos. Roberto Carlos, por exemplo. Aqui, nunca primou por ser um tipo muito querido das torcidas, mesmo na Seleção, mas em Madrid se transformou num ícone como o próprio ursinho da Plaza del Sol. Foi esperto, soube fazer o jogo, ser simpático e não saia do restaurante preferido da moçada, ali perto do Bernabéu. Tem o seu mérito. E não nos enganemos: na Catalunha não é muito diferente, ainda que a pressão seja menor. Muda mesmo é o sabor a comida, a ‘natilla’ se chama ‘crema catalana’ e pouco mais.

Carles: Para não entrar na sua provocação – você sabe muito bem que não estou de acordo – vou seguir desfrutando do meu ‘Tocinillo de Cielo’, enquanto recomendo que pergunte ao Gary Lineker se não segue frequentando o Camp Nou, a sociedade e a televisão catalã, sempre bem recebido, 25 anos depois.

Edu: Verdade, a todo momento o sociável Lineker elogia seu tempo de Barça. Sei que existem fundas diferenças, mas sabemos que muita gente sofreu no Camp Nou, e nem falo do incrível Giovanni, cracaço de bola, mas figurinha difícil, que não se relacionaria bem nem a vizinhança de Belém do Pará. Em compensação tem gente que também tem boas lembranças de Madrid, Ronaldo Fenômeno à frente. Para contrabalançar  casos como os de Wanderley Luxemburgo. Esse não deve ter deixado saudades por lá. Enfim, não são só os ingleses ou os britânicos em geral.

Carles: Pode que não sejam os únicos mas, como dizia a minha avó, ‘son muy suyos, esos ingleses’.

 

 

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