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Centroavantes, é hora da reciclagem

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

16 de julho de 2013 | 05h25

Edu: Você acha que o centroavante típico está em extinção?

Carles: Todo mundo se perguntou o mesmo sobre o rádio quando surgiu TV e sobre a televisão com o surgimento da Internet. Provavelmente o centroavante vai se reciclar, vai deixar de ser uma verdade absoluta, mas acho que não vai desaparecer. Toda revolução tem uma contrarrevolução e implica em assimilar conceitos novos.

Edu: Já está se reciclando. É uma função cada vez mais multiuso. Muitos treinadores ainda gostam dizer que o centroavante fixo é uma ‘referência’ no ataque. Na verdade estão falando daquele tipo tosco, que tinha dificuldade até para fazer uma tabela ou tocar duas vezes consecutivas na bola. Mas são cada vez mais raros. Por aqui esse jogador monocórdico está em visível extinção. Na Europa, então, mais ainda.

Carles: Pelo que eu sei, no Brasil, a maioria dos times joga com um homem referência no ataque, se bem que cada vez mais se exige uma maior versatilidade nessa posição. O melhor exemplo, a Seleção, em que Fred ocupa uma posição fixa, bastante centralizada, lembrando bem o centroavante mais tradicional. Ele tem uma grande vantagem, além de realizar quase todos os fundamentos com razoável competência, realiza igualmente a função de pivô, jogando de costas, como é um bom finalizador, nos últimos metros. Características que não são habitualmente encontradas num mesmo jogador.

Edu: Pois é, talvez haja essa confusão, acharem que o pivô é a referência e não passa disso. Mas Fred é um jogador que faz bem a saída de área, sabe buscar a jogada, abrir a defesa. Já fez isso melhor, quando era mais jovem, mas ainda tem essa capacidade. Coisa que, por exemplo, Leandro Damião tenta muito, mas não consegue, porque faltam recursos. Damião, em princípio, se movimenta mais do que Fred, mas no fundo é mais o centroavante do tipo antigo, um cara estritamente de conclusão. O processo de reciclagem dele é mais complicado. Imagino que, nos tempos atuais, seria muito mais difícil para jogadores que eram leões da área autênticos. Lembro de cara de dois ícones de seu tempo, Batistuta e Roberto Dinamite, eficientes na conclusão mas com a maior dificuldade no futebol de toque.

Carles: É possível dizer que Batistuta e Roberto Dinamite eram farinha do mesmo saco, mas “el angel Gabriel” levou até as últimas consequências o ofício de centroavante e conseguiu, talvez pelo temperamento, adaptar-se a distintos times em diferentes culturas futebolísticas e em todas teve presença memorável. Já Bob Dinamite fora do Vasco praticamente se aproximou do fracasso, inclusive na Seleção. Um pouco o problema do nosso Niño Torres, que em tempos de vacas gordas não teve a ambição necessária para procurar alternativas para o seu jogo e, hoje, quando vivemos uma transição de modelos táticos, esse tipo de jogador encontra dificuldades em enquadrar-se nos sistemas.

Edu: É visível o esforço dele, Niño Torres, em variar seu jogo, ajudar o time, ainda mais num esquema como o do Chelsea, em que são muito mais valorizados os meias que os atacantes. Mas veja outro centroavante deste tempo, o croata Mandzukic, do Bayern. Poderia ser um acomodado porque tem mais recursos que o Torres, mas se transformou em um demônio na movimentação, chega a bater de frente com os volantes de tanto perseguir adversários na tentativa do roubo de bola. E nem por isso faz menos gols. Aliás, esse modelo do Mandzukic teve um precedente na velha Laranja Mecânica holandesa, quando os atacantes davam o bote. A roubada de bola era o princípio daquele jogo velocíssimo.

Carles: Quem era o centroavante do Ajax ou daquela Laranja Mecânica?

Edu: Pois é, havia muitos atacantes, mas nenhum como referência. Talvez o Johnny Rep,  mas era visto em todos os cantos do campo, como Neeskens, Cruyff e companhia. Aliás, ninguém era fixo naquele time, às vezes nem o goleiro, que fazia de líbero.

Carles: Nenhum dos três era um centroavante por excelência. O goleiro que joga de líbero, uma defesa adiantada, a circulação de todos por todas as zonas, roubo de bola não necessariamente na defesa e sem nenhum jogador de referência lá na frente, com vários aparecendo para finalizar. Estamos falando da Laranja Mecânica dos anos 70 ou do Barça dos últimos cinco anos?

Edu: Sim, claro que o Barça é a melhor imagem de hoje nesse sentido, embora a Laranja Mecânica jogasse algumas rotações acima em matéria de velocidade. O fato é que todo time que adota esse sistema tipo arrastão triunfa quando a coisa é bem feita. Exige muita energia, mas costuma ser eficiente e além de tudo bonito. Mas muitos times fizeram e fazem esse tipo de pressão, mesmo não tendo jogadores do nível do Barça. E jogar sem centroavante permite essa ousadia. O Bayern faz bem isso, a Seleção Brasileira fez um arrastão contra a Roja na Confecup. E o Corinthians ganhou uma Libertadores sem centroavante fixo, num esquema em que o forte era a roubada de bola no campo adversário. Estamos concluindo o quê? Que um time sem centroavante pode ser mais eficaz e atraente?

Carles: Bom, o que eu queria dizer, na verdade, é que a grande novidade do milênio já estava em prática faz quase 40 anos. Que existe uma conexão clara e evidente entre Rinus Michels, Johan Cruyff e Pep Guardiola (quem sabe com algo de participação de Arrigo Sacchi nesse sabá) e cujos esquemas conviveram e enfrentaram durante todo esse tempo aos mais tradicionais, de funções mais fixas e de menor mobilidade. Além de um terceiro estilo, uma espécie de híbrido. Se o esquema sem centroavante é mais atraente ou não, não saberia dizer, mas provavelmente sempre haverá lugar para o centroavante dos velhos tempos, sempre que ele esteja disposto a se adaptar aos novos tempos.

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