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Coisas para se fazer com o futebol até a Copa

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

14 de janeiro de 2014 | 18h42

Carles: Você acha que a Copa vai acabar tirando o já pouco interesse que existe pelas competições internas no Brasil? Pode ser impressão mas, mais do que nunca, a minha sensação é a de que os clubes brasileiros continuam se reforçando com as sobras e tendo em conta que não tem surgido muitas revelações… quem sabe se o Brasil for campeão, aí sim, nesse caso, a Copa pode servir para animar o futebol brasileiro, no contexto interno?

Edu: As duas coisas são verdadeiras, tanto a Copa está ‘desanabolizando’ os torneios locais, quanto o sucesso da Copa pode ter o efeito contrário e turbinar todo mundo. A diferença é que a primeira parte é certa, segura, já está acontecendo. A outra é uma incerteza completa. O que sei é que, pelo que os clubes fizeram até aqui, de uma maneira geral, o primeiro semestre praticamente é um trâmite que todo mundo quer que passe rápido, exceto talvez pelos que estão na Libertadores, porque, se relaxarem, quando a Copa chegar, já era…

Carles: Quer dizer que aquela velha frase “depois do Carnaval” este ano virou “depois da Copa”, é isso? Quanto à Libertadores, imagino que para o resto de países sul-americanos, se bem que afetados de forma indireta, o fato de que a Copa do Mundo aconteça no continente também deve funcionar como um fator de distração. Temo que o torneio continental também vai sofrer um certo esvaziamento das atenções. De todos modos, e pensando no futebol negócio, quando vi Seedorf e Forlan desembarcarem por aí, até pensei numa estratégia dos clubes de aproveitar o clima de internacionalização para levar alguns nomes de referência e colocar o futebol interno nos noticiários do planeta, como um grande teaser da Copa. Acho que se está perdendo uma grande oportunidade. Imagine os torneios regionais e o inicio do Brasileirão com alguns craques de renome internacional, como se fosse um prólogo…

Edu: A intenção foi essa e até teve algum resultado no ano passado. O que acontece é que nessas fracas estruturas de gestão que trabalham com base no imediatismo é difícil segurar a onda se a temporada não foi muito boa. Todo mundo sabe que só um será campeão, mas mesmo assim faz um balanço negativo se o time chegou em quarto ou quinto. Tem ainda uma espécie de efeito bumerangue entre os times que investiram muito e agora estão pagando contas. O Corinthians vinha de uma temporada ótima e colocou muito dinheiro no ano passado para manter o time e contratar mais alguém, o que era elogiável, não fosse a temporada que se seguiu, muito ruim. O Grêmio, que nem vinha de um bom ano, gastou tudo e mais um pouco no Projeto Luxemburgo e agora é obrigado, entre outras coisas, a ceder Elano para o Flamengo e ainda pagar metade do salário dele, só para se livrar da outra metade! E são só dois exemplos. Isso num clima de expectativa para a Copa se agrava, porque, na cabeça do cartola, o torcedor e a mídia vão se lixar para os torneios regionais e ficar esperando pelo Mundial. Há exageros nisso, mas não deixa de ter uma lógica, perversa, mas lógica.

Carles: É tudo uma questão de ponto de vista, a Copa pode ser vista como um concorrente imbatível ou como o monoposto mais veloz da competição do qual vale a pena pegar o vácuo e ganhar maior velocidade que a habitual. Mas você tem razão, o culpado é o de sempre, a falta de planejamento ou, talvez, falta de vontade de arregaçar as mangas e aproveitar as oportunidades, mesmo com recursos limitados. E, depois, sempre se pode culpar o Blatter de tudo.

Edu: Ou ao Governo, que é até mais fácil, porque está aqui pertinho. Aliás, já é o que muita gente está fazendo por conta; se a Copa fracassa, já tem um culpado; se não fracassa, o estrago já está feito e o que vier é lucro. Isso em ano de eleição é um filé… Como você sabe o mundo do futebol tem figuras rastejantes e daninhas, que se aproveitam da podridão com a mesma desenvoltura com que se fartam com o sucesso. O problema é a falta de lucidez para perceber o que pode e deve ser feito, antecipando etapas. No fundo é falta de trabalho mesmo, de arregaçar as mangas. Sei que é pedir muito para os clubes e também para a mídia, mas era a hora de apostar nesse prólogo sugerido por você. E apostar não significa só colocar dinheiro. É preciso imaginação, um mínimo que seja de criatividade, para aproveitar o tal clima de Copa, as novas arenas, o entusiasmo do torcedor. Poderia, sim, ser um senhor prólogo para o banquete principal.

Carles: Claro! Acho que pelo menos você me entendeu, eu não falei em grana, não mais do que já está se gastando. Só falei em preguiça mental. Se é negócio que eles querem, pois que cumpram as suas obrigações. Por mim, com que não estragassem o jogo jogado no campo já era suficiente, mas acho que aí é pedir demais. Imagino que pelo menos os cursos de línguas para taxistas e garçons devem estar faturando, né? Pelo menos é do que mais se falava há um ano.

Edu: Tem um lado formal, oficial, e que inclui a parte nefasta da iniciativa privada, que geralmente anda mais devagar mesmo e às vezes nem anda – aqui, aí, em qualquer lugar. E tem os pró-ativos de sempre, a sociedade que se movimenta. Mas podemos falar desse cenário macro outro dia, falaremos certamente. Agora, se pensarmos apenas no meio futebolístico, é um desastre, porque as pessoas agem como se o assunto não fosse com elas, querem tudo pronto, uma dádiva. Não vejo corpos e mentes a serviço de algo mais nobre. No fim das contas é o meio em que vivem, o ganha pão, mas mesmo assim não se tocam. O meio futebolístico teria que estar à frente do processo, colaborando com ideias e também com a mão na massa, mas continua de camarote, só apontando as mazelas com o dedo em riste e a arrogância de sempre.

Carles: Para alguns, o mundo sonhado é o que contempla um modelo socializado para as obrigações e privatizado para o lucro. O ideólogo que encontrar essa fórmula vai ser o grande personagem do milênio. Hehe! Então, resumindo, as chances de que as competições internas ganhem força com a Copa estão em que o Brasil seja campeão ou você acha que o clima de festa vai finalmente fazer que o meio futebolístico se torne mais exigente, seja mais seletivo na hora de escolher os seus gestores? Claro, e que isso tenha uma repercussão crítica, mas desinteressada, nos meios. É possível ou agora quem está sonhando sou eu?

Edu: Você reparou que volta e meia estamos entrando no departamento dos sonhos né? Pois é, mais um para a coleção.

Carles: Anote mais essa, então.

 

 

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