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Com Neymar e Messi no banco, muito juízo e pouco jogo

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

11 de janeiro de 2014 | 20h49

Carles: Você diria que o duelo entre estrategistas argentinos, líderes da “Liga de las Estrellas” foi um pacto de não agressão mútua?

Edu: Não acho, porque o Simeone fez o jogo dele de sempre, de estocadas, pressão, o bom mostruário de Arda Turan. Agora, o argentino de Rosário foi bem covardão pra falar a verdade.

Carles: O Tata foi jogar contra o co-líder dentro do seu caldeirão, contra o time revelação da temporada e candidato a tudo. Uma eventual dose de precaução não me parece, tenha sido seu maior pecado. Alexis, Cesc e Pedro tinham feito por merecer a titularidade, inclusive porque as duas estrelas, Messi e Neymar, estavam em baixas condições físicas. O pior para mim foram as substituições que ele tinha decidido ou combinado com os protagonistas antes de iniciar o jogo e acabou realizando ipsis litteris, sem ter em conta possíveis variações e o desenrolar do jogo. Isso sim é covardia, mas não tática e sim, cênica. Concordo, realmente o turco foi o grande destaque do jogo. Um craque!

Edu: Vamos por microcapítulos: primeiro o fato de enfrentar o co-líder. O Barça é o outro líder, lembre-se, tem sua tradição, seu estilo e uma maneira de enfrentar adversários em seus estádios que não admite hesitações. Do contrário, seria um time comum, daqueles que você é o primeiro a criticar. Aliás, até onde sei você é inimigos das cautelas do futebol, como eu. Bom, segundo capítulo: Alexis, Pedro e Cesc. Fizeram um montão de gols contra Elche e Getafe outro dia. Por favor! São jogos como os de hoje que mostram, como diria o sábio Orson Welles, a diferença entre meninos e homens. E sobre as estrelas voltarem de contusão, a saída era simples: Neymar no primeiro tempo, Messi no segundo. Ou ao contrário. Só sei que num jogo contra um time tão compacto, você não ter, durante todo o primeiro tempo, um único jogador para quebrar a marcação com um drible já entra no departamento das burrices.

Carles: De uma tacada só, você arrasou o resto de dignidade do Elche, do Getafe e dos três operários do Barça, que vem fazendo uma temporada muito boa. Além de tudo, os “seus homens” às vezes estão tão preocupados com os seus egos que isso acaba trazendo consequências. Principalmente Cesc e Pedro quando saem do banco de reservas para jogar 20 minutos, é com total entrega, coisa que Neymar, desconfio, ainda tem que aprender. Um quarto do tempo final de um jogo amarrado como este pode ser decisivo para o resto da temporada. Também entendo que ele não está acostumado a esse tipo de estratégia, mas repito, deve entrar com mais tensão, porque hoje entrou adormecido. Messi inclusive, costuma render muito mais quando entra com poucos minutos de jogo pela frente e acaba sendo sempre decisivo.

Edu: Ah, ficou mordido porque fui mexer com seus queridinhos? Quando o Neymar reclamou de ter ficado no banco? Quando não mostrou entrega? Sinceramente, não me lembro e acho que ele deveria reclamar, sim, é até muito pacato para o futebol que tem. E sobre o Messi render muito mais quando entra com poucos minutos prefiro me abster de qualquer comentário, Carlão.

Carles: Bom, sempre deixei clara minha admiração por Neymar, mas acho que qualquer garoto de 21 anos tem muito que aprender. Não tenho especial admiração por Alexis, que me parece, inclusive, menos maduro que o brasileiro. Mas, sem dúvida, as últimas semanas de Neymar não foram das mais felizes e você sabe. Ele é um atleta e tem a obrigação de se cuidar. Saiu antes de férias que o resto de companheiros e quando deveria estar à disposição do treinador, passou por um processo gastrointestinal que, seria um milagre, não estivesse relacionado com o seu trem de vida de fim de ano. Todo mundo sabe do poderio no meio de campo do Atleti e o, segundo você, não muito inteligente Tata buscou equilibrar as forças. Tanto que conseguiu arrumar algo de que você sempre reclama, a pouca fiabilidade da zaga. Piqué e Mascherano fizeram uma grande partida. É simples, jogaram com maior proteção. Com isso sofre o jogo de ataque. Insisto, não sei se Neymar e Messi deveriam ter começado o jogo, mas conforme as coisas estavam, eu não teria colocado o Neymar sabendo que ele estava abaixo da forma, porque o problema não era o ataque, mas que a bola não chegava lá, algo que só o Iniesta conseguiu até sofrer uma pancada no joelho.

Edu: Jogar com muita proteção atrás é um modelo totalmente anti-Barça, isso sim. Não sei se Tata quer administrar ou tem medo de perder o emprego, ou ambos. Se quiser só administrar para suportar a pressão do ambiente culé, até é compreensível. Mas mexer tão radicalmente no DNA do time me parece que é jogar descaradamente pelo empate mesmo. Até porque mesmo com Iniesta o time não criou nada no primeiro tempo. E sobre o Neymar, lamento essa sua posição, lamento bastante. Dizer que o garoto voltou com gastroenterite por causa do ‘trem de fim de ano’ é a mais velhaca forma de estereotipar os jogadores brasileiros. Lembro a você que Neymar não pediu e sim foi orientado pelo Tata a sair mais cedo de férias porque estava suspenso, depois de fazer seis gols em três jogos em sequência, sua melhor fase. Voltou depois da folga como todo mundo, treinou dois dias como todo mundo e só então ficou doente.

Carles: Eu tenho a esperança de que  a trajetória de Neymar ajude a destruir definitivamente qualquer resíduo de imagem estereotipada de qualquer jogador e não só dos brasileiros. É um enorme craque e ninguém duvida disso, só acho que ele deve aprender a lidar com todas as situações possíveis, dentro das mais diferentes circunstâncias. Acredito que neste jogo ele tinha a oportunidade de mostrar que não precisa sair com todo o glamour de titular para mostrar a sua qualidade e capacidade de decisão. Esteve perdido, não mostrou tensão. São fatos, não julgamento de valores culturais, entenda. Messi que teve mais tempo, é verdade, tampouco decidiu, mas mostrou gana. Claro que o argentino sempre defende o Eu Futebol Clube, mas seja pelo motivo que for, chutou em gol, assistiu… Mais que nada é uma advertência para que Neymar não relaxe e mostre que ele não vai nunca justificar qualquer insinuação “velhaca”, como você diz.

Edu: Bom, nada disso perdoa a pouca ambição desse Barça, em um jogo que o Parreira e os irlandeses/ingleses/escoceses devem ter adorado. Só quero reafirmar que não consegui ver o Neymar sem tensão, talvez porque não passou pela minha cabeça o que ele fez ou deixou de fazer no fim de ano. Recebeu duas ou três bolas, foi para cima dos zagueiros como sempre faz, sofreu duas faltas que o juiz ignorou e acertou uma só jogada, algo que na partida hoje foi comum a todos os outros companheiros de time. Saio desse jogo duvidando do Barça nos momentos mais difíceis que virão nos próximos meses.

Carles: E deu um pontapé feio, muito pouco típico dele e sintomático de que não estava no melhor da sua condição emocional. Tudo isso é nada perto do que ele já fez ou do que demonstrou ser capaz. E, sobretudo, confesso que conquistou a minha admiração pela sua maturidade diante de tudo que teve que enfrentar até aqui, sendo ainda um menino. O mais curioso é que o fato de estarmos discutindo o comportamento de Neymar, no dia em que ele foi muito pouco transcendental, fala muito sobre a qualidade desse tão esperado enfrentamento entre os líderes da liga espanhola. Um jogo com toda a beleza futebolística neutralizada pela tática.

 

 

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