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Com quantos ‘grossos’ se faz um grande time

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

31 de março de 2013 | 09h51

Carles: Arbeloa teve o privilégio de não entrar em nenhuma das seleções escaladas por jornalistas, jogadores, torcedores ou treinadores, mesmo sendo titular da seleção campeã da última Eurocopa. Ultimamente até os próprios companheiros de seleção parecem questionar o ‘salamantino’, compadre do Marquês. Isso me fez pensar na figura clássica do “grosso do time” e recordar jogadores como o Luciano “Coalhada”, meio-campista daquele time corintiano que quebrou o jejum de títulos na década de 1970 ou Paulo, um ponta tático, parte do campeoníssimo tricolor paulista daquele mesmo período, repleto de craques. Quem mais carregou essa cruz ao longo da história?

Edu: Muitos ‘grossos’ entraram para a história. O time considerado o melhor de todos os tempos, a Seleção Brasileira de 70, tinha um lateral esquerdo sério, que até funcionava bem na marcação, mas destoava de uma forma pornográfica do resto do time quanto à capacidade técnica: Everaldo. Era bastante tosco – no que lembra muito o Arbeloa – e mesmo assim entrou para a história daquela seleção impressionante. Aliás, outro ‘grosso’ participou da campanha do tri, embora nem todo mundo concorde comigo: o goleiro Félix, bastante fraco.

Carles: Everaldo “Garrastazu Medici”? Uma lembrança cheia de significado para o post de hoje, 31 de março…

Edu: Pois é, o patriota Everaldo era orgulhoso conterrâneo daquele presidente de pavorosa memória.

Carles: A presença do Félix “Papel” estendeu pelo resto do planeta futebol o mito bastante próximo à realidade de que os grandes times brasileiros sempre deveriam ter um goleiro abaixo da crítica. Taffarel mesmo, responsável direto por algum título, não chegou a despertar paixões por aqui. Se bem que a geração seguinte ao gaúcho conseguiu desmentir por algum tempo essa meia verdade.

Edu: Quanto ao Luciano Coalhada, a parte incrível da história é que ele chegou ao Corinthians na pior época, longa fila sem títulos… Era lento, sem vibração, meio ‘pasota’ como o Benzema. Destoava em tudo do time que vivia da garra e da entrega. Nem número certo tinha. Jogava com a 5, com a 7, chegou até a vestir a 10 que foi de Rivelino. Mas persistiu, apesar de todas as gozações. No fim, se não virou ídolo, caiu na graça da torcida por causa de sua tranquilidade e por ter feito um campeonato honesto quando o time saiu da fila em 1977.

CarlesIsso confirma que às vezes uma peça adequada tática ou socialmente acaba sendo mais favorável que um craque. Voltando à Seleção Brasileira, a maioria dos espanhóis em particular sofreram quase tanto como os brasileiros com a injusta desclassificação do time do Telê na Copa de 1982, mas não evitam um certo  “cachondeo” quando lembram a presença de Valdir Peres e Serginho Chulapa naquele time.

Edu: Eu já acho que o Chulapa foi um pouco injustiçado. É claro que destoava pelo contraste, porque tinha ao lado Falcão, Zico e Sócrates. Mas poderia ter sido um bom complemento para aquele time. Já o Valdir, Deus me livre. Nós aqui também estranhamos que o Capdevilla fosse titular da ‘Roja’ campeã do mundo, mas parece que ele sempre foi muito querido por vocês…

Carles: Não permanecerá na minha memória futebolística, garanto. Ele entra no grupo de jogadores que ajudam no ambiente social, acabou favorecido por uma certa carência de laterais esquerdos então e por ter marcado alguns gols decisivos durante as eliminatórias. Como se costuma dizer por aqui tem gente que prefere ‘ser cola de león que cabeza de ratón’. Temos que admitir que o Arbeloa tem que ter um enorme ego para suportar essa situação.

Edu: Tem e muito, além do respaldo do chefe. Mais ou menos o que aconteceu quando tivemos que suportar na Copa de 2010 o Felipe Mello como titular absoluto do Dunga!! Alguém fez um levantamento na época e o único jogador que o Dunga não havia mexido em algo como 20 partidas seguidas era o Felipe Mello. Ou seja, para o treinador da Seleção Brasileira, era Felipe Mello e mais dez. Deu no que deu.

Carles: Grande Mello… atual companheiro de Drogba e candidato à Champions League, enquanto ele não decidir fuzilar o Muslera. Pior assim porque, ainda que o futebol brasileiro possa não estar vivendo o seu melhor momento, tinha de onde o Dunga tirar melhores opções. No caso do Alvarito Arbeloa, por mais que quebremos a cabeça, não sobram possíveis substitutos. A chegada do paradigma Jordi Alba à história do futebol espanhol habitualmente voluntarioso fez-nos sonhar com uma reconversão também para a direita, mas o tal Juanfran derrubou nosso castelo de cartas e voltamos à realidade do burocrata Arbeloa. É a maldição da direita espanhola.

Edu: Mesmo assim, me permita uma liberdade abusada: ainda prefiro um time com dois ou três grossos e alguns craques do que um conjunto de bonzinhos e medianos, sem ninguém que chame especialmente a atenção, um solista, um grande tenor. Como a Seleção Brasileira de hoje em dia.

Carles: Sem dúvida. Tudo menos ‘aburrimiento’.

 

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