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Com Xabi, tudo o que reluz é merengue

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

19 de janeiro de 2014 | 22h17

Edu: Ficamos um tempão aqui falando da Liga, que o Atlético é competitivo, que o Barça é uma maravilha, que Messi é isso, que Neymar é aquilo, que Cholo é um gênio… Depois dos jogos dos líderes acho que muda muita coisa. É Madrid comendo pelas beiradas e jogando neste momento o melhor futebol da Espanha.

Carles: Faz uns dias que a Liga sofre o efeito Xabi Alonso, com quem não compartilho ideias e valores, mas em quem reconheço a capacidade de mudar completamente o curso e o rendimento de um time. Com ele em campo, a final da Confecup não teria sido o massacre psicológico que foi, garanto. Ele é importante por futebol, mas principalmente pela sua capacidade mental. Neste fim de semana, antes do início do segundo tempo do jogo do Real Madrid contra o Betis, as câmeras de televisão mostraram um plano fechado de Xabi e Cristiano conversando no centro do campo. O português de costas, fazendo um monte de considerações sobre o jogo, com indicações e trejeitos. O “tolosano”, introspectivo e distante, só assentia e parecia repetir: “Sí Cris, sí Cris”, enquanto traçava mentalmente seu próprio plano de jogo. Com Xabi, a Liga é outra, porque o Madrid é outro e porque por exemplo, Modric transforma-se no centrocampista mais produtivo do país. Por isso jogadores como Xabi podem acabar sendo essenciais só por fazerem melhores seus companheiros de time. Claro que nada disso surtiria efeito sem a inestimável colaboração de Barça e Atlético.

Edu: É uma boa tese, mais do que uma tese. Jogadores assim têm peso específico, fazem os outros renderem mais, transmitem algum tipo de segurança técnica que alivia o resto – mal comparando era o caso de Paulinho no Corinthians, sem a mesma capacidade de liderança. Só que há outras coisas acontecendo por lá, porque o time é o mesmo do Mourinho – exceto Bale – e joga parecido inclusive, com dois distribuidores de jogo e puxando contra-ataques. Mas agora está rendendo. Ancelotti, parece, dá mais autonomia aos jogadores, o que não engessa nem limita os criativos. A final da Confecup seria outra coisa é? Sei… hãhã…

Carles: Entenda bem, não disse que o vencedor da final no Maracanã seria outro, mas aumentariam as chances de que a atitude dos espanhóis tivesse sido bem diferente diante da avalanche brasileira. Xavi e Iniesta, você sabe, exercem um outro tipo de liderança, mais blasé, e Sergio Ramos confunde garra com atropelo. Certamente a Seleção Brasileira levaria aquele jogo com ou sem Xabi, mas as sensações acerca da diferença entre as duas seleções, provavelmente seriam outras. Quanto à forma de trabalho de Ancelotti, tem gente que chama de autonomia, outros de autogestão do vestiário. Eu acho que muito ajuda quem pouco atrapalha. Também não vou dizer que Carlo seja um absoluto ausente, mas ele deixa as coisas fluírem, algo que Mourinho, Ramos e Casillas com as suas diferenças teimaram em bloquear. Esse jogo de lideranças e egos que a imprensa insiste em simplificar, dividindo o plantel em bandos e colocando Xabi no mesmo lado que o ex-técnico, Arbeloa, e o presidente Florentino. Na verdade, Alonso parece estar acima das panelinhas e isso às vezes acaba provocando a antipatia de alguns companheiros, tanto que o seu status não mudou com a chegada do treinador italiano. Nesse contexto, talvez,  a grande diferença entre Ancelotti e Mourinho seja mesmo quanto às habilidades sociais.

Edu: Diria até que foi bom para o Real Madrid passar por aquilo para chegar nisso de hoje. Amadureceu o time, inclusive os mais exaltados como Pepe e Ramos. Basta ver o caminho inverso que faz o Barça, por ter abandonado certas virtudes, uma coisa que nem parece de responsabilidade do Tata. O time anda travado mesmo, despersonalizado. Não é mais tão prazeroso ver este Barça, com altos e baixos, momentos de ausência, bipolar, sei lá. Algo passa no reino da Catalunha. E quanto ao Atlético, me enganei: pensei que não ia mais lembrar do complexo de cavalo paraguaio, mas esse jogo contra o Sevilha me provou o contrário. O hipertenso time do Cholo ainda vai ter que mostrar que sabe ser grande.

Carles: Acho um pouco cedo ainda para julgar o Atlético cujo declive de jogo e resultados coincidiu com a queda de produção de Diego Costa – ou vice-versa. E como as teorias conspiratórias são a minha especialidade, vou arriscar mais uma: a insistência do Cholo em trazer um queridinho como o “principito Sosa” para uma posição já com tanta concorrência, pode ter rachado levemente o clima de magia e de cumplicidade que se mantinha entre o grupo de jogadores e comissão técnica. Essa confiança mutua me parece, era ingrediente essencial para o tipo de desempenho proposto pelo Cholo. Enquanto isso na Catalunha, pelo visto, chegou o momento decisivo para o futuro do Tata. Eu não queria estar no lugar dele, pois acaba de perder o único argumento para contar com certo respeito e confiança do clube e da torcida – os ponto de vantagem sobre o rival de toda vida. Sem essa rede de segurança, os riscos dele se esborrachar são muito grandes.

Edu: Nunca é bom estar fora de circuito por lesão, mas você não acha que este foi, por coincidência, o momento mais adequado para Neymar ficar uma pouco à margem disso tudo?

Carles: Num tipo de cenário como o Camp Nou, nunca é bom perder protagonismo. A única situação capaz de salvar alguém da queima é por ativa e não por passiva. Pode ter certeza que mesmo sem participar diretamente de um eventual fracasso, a única chance de Neymar não ser associado com ele, é estando em campo para justificar a sua contratação. Claro que ninguém tem culpa de estar contundido, mas quanto antes ele voltar e ajudar a reverter essa situação, melhor.

 

 

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