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Como a saída de Tito Vilanova respinga em Neymar

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

20 de julho de 2013 | 06h40

Carles: Desse jeito, Rosell e Messi vão ficar sozinhos… pobre Neymar!

Edu: O que Tito poderia fazer em defesa de Neymar?

Carles: Nada, mas o “projeto” Rosell faz água. Mau momento para embarcar.

Edu: O técnico era toda essa unanimidade? Faz bem pouco tempo você disse aqui que ele estava até arriscado a perder o emprego.

Carles: Nem unanimidade, nem favorito da minoria. O que eu quero dizer é que a política de calar em público e falar deste ou daquele pelos bastidores, está demonstrado, nunca dá certo. Uma hora ou outra, o cara fica sozinho. Ele, Zubizarreta e os mais estreitos colaboradores, que segue sendo insuficiente quórum para um grande clube.

Edu: Você está dizendo então que quem mais perde com a saída do Tito é Rosell e sua turma. Não o Barça, nem os jogadores e, portanto, nem o Neymar. É uma perda só pessoal ou uma perda pessoal e institucional?

Carles: A imagem do clube e portanto da sua diretoria se enfraquece a cada demonstração pública de desagregação. No caso do Tito, eu nem ousaria duvidar dos motivos. Mas, se ele já não tinha terminado a temporada muito reforçado no cargo, pior sem ele, porque a dança dos ‘banquillos’ já está meio decidida no mercado. Não acredito que Luis Enrique deixe o Celta de Vigo antes de iniciada a pré-temporada. Sim, já sei que você não acha ele tudo isso, mas daria à torcida uma certa segurança, por ser um homem da casa, e que ademais fala e age com certa convicção. O eventual interino Rubi, ex-técnico do Girona, poderia ser uma aposta do tipo Guardiola, mas fora do estilo de Rosell, adepto de nomes antes que das promessas.

Edu: Bom, já que veio uma resposta totalmente enviesada a uma pergunta direta, antes de entrar na especulação sobre o novo técnico vou tentar mais uma questão, sobre algo que não acabo de entender: por que a saída do cara por um problema de doença grave é uma demonstração pública de desagregação?

Carles: O certo é que eu achei ter sido o suficientemente claro. Perde a diretoria, perde Rosell. Repito que em momento nenhum duvidei do motivo da saída de Tito, mas também pensei que era público e notório o clima desagregador da gestão Rosell, a quantidade de dissidências que obviamente no caso de profissionais se dá por meio de transações com outros clubes ou não renovação de contratos. Se ainda não ficou claro, posso dizer com todas as letras: agora mesmo, o Barça é um barril de pólvora, perdeu-se todo o sentido de grupo e existe uma tentativa clara de centralização de poder. O pior (para ele) é que Rosell não tem nem o carisma de Florentino para poder se transformar num líder populista, nem o Barça é um clube que normalmente permita esse tipo de comando.

Edu: Ok, prometo ficar algumas horas refletindo sobre isso para ter mais clarividência sobre a conexão entre os bastidores do Barça e a doença de Tito. Voltando aos possíveis substitutos, em pouco mais de meia hora já surgiram diversos nomes nos jornais esportivos digitais da Catalunha e de Madrid. Luis Enrique foi o primeiro deles, em quase todos, mas vi também em mais de um portal as opções de André Villas-Boas, Michael Laudrup e Ernesto Valverde. Algum deles teria o chamado ‘perfil Barça’ com tem Luis Enrique? Laudrup porque jogou aí, Villas-Boas porque é jovem e com propostas arejadas, Valverde porque gosta de um time ofensivo… Tem lógica?

Carles: Tem lógica, mas me parece tudo pura especulação. Laudrup em teoria teria o vínculo mais frágil, com o pequeno Swansea City. Mas, justo agora, ele está chegando ao ponto ideal do seu projeto pessoal no clube galês. Além do mais, ele é dos treinadores europeus mais críticos com os cartolas, se não tiver certeza que vai poder pisar em solo firme, prefere ficar onde está. Os jornais menos alinhados institucionalmente com o Barça também falam de um treinador manejável, de preferência com uma personalidade não demasiado forte. Valverde também não é esse caso, além do que, o ‘Txingurri’ fez um longo trajeto até poder voltar a casa (Bilbao) e não vai sair a não ser que a coisa vá muito mal. Talvez Villas-Boas fosse o perfil mais viável pela a atual situação política no Camp Nou. Li em algum lugar também o nome de Bielsa, mas obviamente que é especulação. Imagine se o Rosell ia correr esse risco. Falo do risco pessoal, se não ficou claro, e não esportivo.

Edu: O perfil, então, seria de um treinador com ideias modernas, mas de certa forma manejável (ou adaptável) no plano pessoal e político? Se for assim, o mais viável talvez seja mesmo o Villas-Boas, que é até meio sonso nas questões mais delicadas, se bem que neste momento ele comanda um começo de reviravolta técnica e saudável no Tottenham. Sobre Laudrup, de todos o que mais me agrada, duvido que ele não aceitasse uma proposta em cinco minutos de conversa.

Carles: Laudrup seria sem dúvida a melhor notícia para o ‘barcelonismo’. Mas opino que ele só aceitaria se não estivesse suficientemente informado sobre a situação interna do clube catalão, coisa que duvido. No caso dele, garanto, não vai haver deslumbramento, algo que sim seduziria Villas-Boas, mais propenso a aceitar em função do peso do nome Barcelona. Se bem que se o Tottenham conseguir segurar Bale, a cadeira de treinador dos Spurs fica bem interessante. O time não foi mal na temporada passada e pode ter melhor equipe ainda para a próxima. Ah! Especulou-se também com o nome de Scolari, amigo pessoal de Sandro Rosell.

Edu: Essa sim é uma especulação no sentido mais primitivo da palavra, se é que você me entende. Mas, enfim, se o Barça está nessa roda viva toda, dificilmente o treinador português seguraria a onda. É só lembrar dos poucos meses em que ele ficou no Chelsea e foi engolido pelos mecanismos políticos do clube e pelos egos de alguns jogadores.

Carles: Bingo!

 

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