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Contra o aprendizado, corporativismo rasteiro

Carles Martí e José Eduardo de Carvalho

09 de abril de 2013 | 05h21

Carles: Já faz alguns posts que batemos na tecla da incompetência técnico-tática que assola o futebol brasileiro. Pelo visto, a aparente crise que sobrevoa e ameaça principalmente o desempenho da seleção chamada a vingar o desastre do “Maracanazo”, já bate no pescoço e começa a preocupar a sempre aparente inconsciência dos meios especializados. Imaginemos só por um minuto uma situação hipotética. Se hoje, num arroubo de irresponsabilidade dele e improvável responsabilidade dos dirigentes, meu amigo Pep decidisse dirigir essa nave sem destino certo, como você acha que reagiria a cornetagem oficial pátria?

Edu: Deveríamos dividir a cornetagem entre duas prateleiras, porque teríamos tipos de reações com diferentes graus de ira. A mídia de um modo geral e os torcedores influenciados de alguma forma pela visão oficial poderiam até ficar indignados no primeiro momento, mas tenho convicção de que aceitariam mais tarde, convencidos pelos fatos. Mas os técnicos nacionais e seus ‘amiguetes’ na imprensa e em outros grupos serviçais teriam acessos de fúria, com raras exceções. Aliás, quando da queda de Mano Menezes, o que levou à especulação da contratação de Guardiola antes de ser anunciado o Felipão, muitos já rodaram a baiana, numa demonstração obscena de corporativismo.

Carles: E esses contatos com Guardiola, o que você acha que tiveram de verdade? Ele mesmo brincou um pouco com essa história, em cima do mito de morar em Copacabana.

Edu: Foi uma grande patetada, uma conversa sem pé nem cabeça publicada por um jornal daqui sem nenhuma fonte confiável. Nunca houve confirmação de um contato com o agente de Pep. Mas o lado grotesco desse episódio de corporativismo foi que os mesmos treinadores que se mostraram inconformados com quem defendia a contratação de um técnico internacional (que se resumia a uma pequena parte da imprensa) nunca saíram em defesa do colega e profissional que acabava de ser vítima de uma manobra que tripudiou sobre questões básicas de ética trabalhista. Tanto que a conversa da CBF com o Felipão tinha começado muito antes de Mano Menzes ser demitido. Não me lembro de ter ouvido nenhum técnico indignado com isso, defendendo a classe, exceto o Muricy, que não foi explícito, mas disse sutilmente que Mano foi injustiçado.

Carles: E se fosse um “patrício”? Você sabe, né? Tem um português fazendo de tudo para ser despedido e receber uma polpuda indenização. Como seria recebido? Imagino que as habituais piadas como com quase tudo seriam muito mais fáceis ainda, pela origem do dito cujo.

Edu: Ah, não tenha dúvida. E o mais inacreditável disso tudo é que nenhum técnico, em nenhum momento de lucidez que fosse, teve o bom senso de sequer sugerir que a experiência de um ou mais treinadores europeus no Brasil seria uma forma importante de intercâmbio. A limitação da média dos treinadores brasileiros atinge as raias do bloqueio emocional de tal forma que ninguém percebe quanto seria importante conhecer uma nova cultura naquilo que é a maior fragilidade do futebol brasileiro de hoje: evolução tática, percepção das pequenas ciências do jogo, estratégia enfim.

Carles: Eu tenho para mim que a maior das perdas do Brasil nos anos de obscuridade foi na área de educação. O resto é quase consequência. Bom, não contei nenhuma novidade. O maior obstáculo, no entanto, quando existe um desequilíbrio educacional, acredito, é o reconhecimento da necessidade de aprender. Não vejo que a saída desse labirinto seja tão fácil de encontrar. Quem é que vai ser capaz de romper essa dinâmica? Pelo que você está me contando, não existe disposição de mudança nem da própria classe implicada, nem por parte de jornalistas e muito menos desde a direção nacional do esporte.

Edu: Não existe nenhuma análise de fundo e não existe, antes de mais nada, interesse, o que é pior. É como o sujeito que resiste aos avanços da tecnologia o quanto pode até descobrir que não se fabrica mais o videocassete. Aí vai atrás da modernidade como um alucinado, mas já não tem base cultural para isso. Nas poucas tertúlias televisivas sobre esse tema da capacitação de treinadores, invariavelmente, a certa altura do debate, o técnico entrevistado afronta o jornalista um pouco mais crítico: ‘Mas como você pode saber mais do que eu se nunca esteve lá dentro?’ Aí acaba a conversa. Tenho a impressão de que os treinadores brasileiros – salvo as exceções honrosas de sempre – estarão permanentemente correndo atrás do rabo.

Carles: É o típico protecionismo de quem, no fundo, reconhece a própria defasagem. A posição agressiva é, na verdade, uma forma de defesa. Só não entendo porque treinadores jovens não sentem inquietude por se aperfeiçoar, mesmo pela distorção que a globalização informativa gera, os modismos que todo mundo repete mecanicamente. Sou o primeiro a abominar o colonialismo, mas sempre é benéfico, pelo menos, tentar observar influências positivas. De forma crítica, mas tentar beber de todas as fontes.

Edu: E não há alternativa, a não ser pela iniciativa pessoal. Só mesmo um técnico com capacidade crítica suficiente para se autoavaliar teria o desprendimento de reconhecer que precisa avançar, estudar, aperfeiçoar-se. Mas está longe de acontecer com as muitas ‘divas’ brasileiras desse meio.

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