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Coreografia e hipnose, em 28 toques

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

28 de setembro de 2013 | 06h02

 

Carles: Finalmente, o jogo do meio de semana do Barça  contra a Real Sociedad mostrou uma porção de coisas que esperávamos: que o time do Tata, se quiser, sabe jogar ao tiqui-taca, que Neymar fez o primeiro gol na Liga, e que de tropeção também vale, mas uma jogada em particular marcou esse jogo e não foi nenhuma das que subiram ao marcador. Uma jogada que certamente passará a fazer parte dessas montagens que começam com a finta do Pelé sem tocar na bola, ao uruguaio  Mazurkiewicz, na Copa de 1970… só que esta é uma ode ao jogo coletivo, são 28 toques no total, começando com a troca de passes entre quase o time todo e como se fosse obra de um roteirista, acaba justo nas botas dos quatro Beatles. Então, depois de uma sequência ao som de Ohhhhs! e com o corações de todos os presentes, disparados (menos os deles), aconteceu o impossível: Messi falhou! ¿Pero que pasa? O gol convertido teria acabado com toda a poesia do momento ou o argentino ficou meio atordoado, como o resto de espectadores?

Edu: Foi um daqueles lances de resgate, sublime. Pura estética, mesmo sem o gol, só quem admira muito este jogo sabe como isso permanece forte na memória. Assistindo ao vivo, durante aqueles segundos, fiquei imaginando o que poderia estragar aquilo. A jogada poderia acabar a qualquer momento, com um descuido, um resvalão, alguém poderia errar o passe, um adversário intruso poderia atrapalhar, mas o lance nunca acabava, até Messi – que foi o pivô de toda a orquestração – furar no último toque. E 8 dos 11 jogadores do Barça tocaram na bola. Quem foi o incauto que disse que o futebol de mercado sufoca a criatividade e o instinto?

Carles: Tenta, tenta, faz de tudo, o Carletto insiste na teoria dos 3 toques em vez de 30, mas a verdade é que, pelo menos por mim, essa jogada poderia ter durado uns 30 toques mais. Ou o resto do jogo. E se não, diga ao italiano que em vez de um Duvalley Reserva vou lhe servir um Sangue de Boi, que dá no mesmo, que o importante é matar a sede, para ver o que ele acha. Depois de ver a jogada fiquei achando que em vez do Gerardo Martino veio o Bob Fosse.

Edu: Me lembrou seu amigo Jorge Valdano, dublê de filósofo na sua definição, descrevendo aquele gol de Maradona contra a Inglaterra, no México, quando ‘El Pelusa’ pegou a bola em seu campo e foi se livrando dos britânicos como num slalom até chegar ao gol. Correndo ao lado do craque, Valdano pedia, em silêncio, para que ele não resolvesse lhe passar a bola porque poderia estragar tudo. Aconteceu também com os companheiros de Neymar, no Santos, quando daquele gol contra  Flamengo que valeu um prêmio da Fifa em 2011. Neste lance do Camp Nou, como naqueles de Dieguito e Ney, vimos uma pequena antologia para entrar nas cartilhas: posse (Messi), toque (Xavi e Iniesta) e drible (Neymar). E tudo isso em poucos segundos, hipnóticos segundos.

Carles: Valdano sempre foi mais inteligente que craque. Mas insisto na coreografia, na composição das ações, sem tempo nem vestígio de combinação anterior, que começa com os dois bandos se encarando de longe, espaçados e distantes como em West Side Story, e quanto mais a jogada vai chegando perto da área, multiplicam-se as pernas adversárias e na mesma proporção, a destreza do quarteto para esquivá-las. Porque, no início, é questão de coordenação, de ajuste coletivo, mas no final, sobretudo nas fintas de Andrés e Neymar, aparece a perícia de quem maneja um bisturi e não uma bola.

Edu: E eu destaco a intuição e o feeling, mais do que a combinação, até porque Neymar chegou outro dia nessa orquestra e, obviamente, coisas desse tipo não saem de um treinamento. É algo impossível de se coordenar a partir de um ensaio, foi de uma espontaneidade gritante. Tanto que nem Xavi nem Iniesta costumam estar naquele lugar juntos, entre os zagueiros, como uma dupla de área. Muito menos com Messi vindo de trás, como o armador do time. Não, aquilo não foi normal e aí está a razão do encanto. Bendito YouTube, que perpetua esses ornamentos.

Carles: Intuitivo o garoto demonstrou que é um montão. Na parte final da jogada, Iniesta começa a fazer a sua famosa “croqueta”, vai fechando para o meio e, sem prévio aviso, Neymar adivinha que era para ele ir para o fundo, receber a bola. Será mesmo que eles não tinham ensaiado antes? Que estranha soberba evitaria que jovens (incluindo Xavi) com uma bola e todo o tempo do mundo para treinar não se divertiriam inventando malabarismos? Agora poderíamos até pensar que Neymar já realizou a sonho de moleque de poder entrar nessa ciranda de talento, só que essas coisas viciam. Azar dos adversários e dos que pensam que 3 passes são melhor que 30. Pode até ser, mas tudo depende de quem dá os 30 toques.

 

 

 

 

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