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Corinthians: remasterizar não basta

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

23 de agosto de 2013 | 06h06

Carles: Acidentes acontecem, mas Luverdense???!!! O que se passa com o Corinthians?

Edu: A impressão que dá é que a vitória contra o Chelsea ainda não acabou.

Carles: Não é possível que seja isso, ninguém lembra disso mais. Não será a ausência de Paulinho?

Edu: Paulinho faz falta, e muito. Diria até que o time está reaprendendo a jogar sem ele. Sem ser um cara muito criativo, tinha o dom do movimento, fazia os outros jogarem e era uma solução para todos os momentos difíceis. É claro que o Corinthians ainda não sabe como se virar sem ele, mas não pode ser só isso. O que está todo mundo vendo é uma equipe meio enfastiada, achando que tudo vai acontecer por inércia só porque há entrosamento e um padrão de jogo relativamente seguro. Mas do doutro lado pode ter alguém que faça tudo certinho também, como o tal Luverdense, e pronto. O fato é que o Corinthians pretende continuar ganhando sem criar alternativas, apenas remasterizando o que já foi feito. E sabemos que futebol não é assim. Esse fiasco contra o Luverdense é simbólico, ótimo para a mídia e para os adversários, mas, a rigor, é o de menos. Há tempos o time vem mal.

Carles: Quem não incorpora novidades deixa de surpreender, está claro, mas também corre o risco de deixar de criar estímulos das portas para dentro. Como você diz, a rotina deixa de ser efetiva para ser fastidiosa.

Edu: Talvez o principal componente dessa história esteja justamente portas adentro. Quando um time de futebol que conquista títulos em série, ainda mais no caso do Corinthians, que tinha o trauma da Libertadores, forma-se um bloco meio inexpugnável entre jogadores e comissão técnica, um tipo de pacto que é daninho para o vestiário, chamado normalmente pela infeliz expressão ‘grupo fechado’. É falácia, ilusão. Não existe ‘grupo fechado’ nesse ambiente. O que pode existir é um ‘projeto fechado’, mas nunca estanque. Tite tem inúmeras virtudes, é um técnico que estabeleceu paradigmas nos últimos anos no futebol brasileiro. Mas não vejo nele essa visão mais dinâmica. Acredita ter montado um modelo e não arreda pé. Não quer dizer que o culpado seja o Tite, definitivamente não é. Mas é difícil para ele convencer 20 ou 22 sujeitos de que aquilo é o certo sempre e que não há plano B. Os argumentos se esgotam. Os jogadores do Corinthians, hoje, parecem funcionários públicos. Alguns mais competentes, outros menos e alguns visivelmente encostados. E a verdade é que ninguém se coça quanto a isso…

Carles: O grande problema dos projetos sólidos pode ser justamente sua solidez, a rigidez que dificuldade os desvios ou correções de curso só com retoques. Pelo que você está dizendo o projeto de Tite não admite retoques, mas necessita ser repensado e isso acarreta que muito dos pilares sejam substituídos. Nem acredito que a questão esteja em convencer 20 jogadores. Provavelmente a porção pensante esta sobre seis ou sete ombros. São esses os que têm de ser convencidos. E muito deles não estão dispostos a correr os riscos pessoais que essas mudanças exigem. Por insegurança ou por consciência das próprias limitações. Por isso o futebol de tempos em tempos nos apresenta quadros aparentemente inexplicáveis, como a tentativa do Real Madrid se livrar do seu jogador símbolo, Iker Casillas que pode até representar um obstáculo para a evolução. Ou como a Seleção Espanhola, que precisou se livrar do então seu maior craque, Raúl, para poder começar a ganhar. Definitivamente, o apego não foi feito à medida da competição.

Edu: Ao Corinthians, para ser claro, faltam líderes, e esse pode ser outro problema sério. Tite reina absoluto, tem pleno controle. Tem tanto controle que, se fosse outro técnico, como tantos que conhecemos de caráter duvidoso, não teria dado certo. Mas é bem mais transparente com os jogadores, pauta sua relação na honestidade, e nisso reside sua principal virtude. Acontece que a reciclagem também passa pelas convicções técnicas dele. O Corinthians que ganhou do Boca até mudou algumas peças, recebeu Guerrero, Renato Augusto e Pato, o zagueiro Gil. Mas foram todas reposições muito bem pensadas pelo próprio Tite, que em tese se enquadravam no esquema. Mudar não é apenas repor. E isso vale para fora de campo, mas também para o estilo de jogo. Certamente a Seleção da Espanha não mudou apenas porque Raúl saiu. Foi uma mudança de concepções, que incluiu a saída do maior ídolo.

Carles: Exatamente, ao se desfazer de Raúl, La Roja não fez mudar de estilo de jogo ou de jogadores dentro de campo, mas romper com os conceitos anteriores, com a resistência que normalmente não está nas peças sem importância, mas nas fundamentais, nas bases. Não acho que essa queima de arquivo seja essencial, acredito na reciclagem de métodos e objetivos sem se desfazer das peças. Aliás, seria muito mais rentável não começar os projetos de zero e poder contar com as experiências e o conhecimento da cultura. O mais difícil é vencer o conservadorismo, o medo às mudanças ou às reconduções.

Edu: Neste caso, não teria mesmo sentido recomeçar do zero. Há muita coisa ali que ainda funciona bem, que vários clubes gostariam de ter, é o indefectível padrão de jogo. Mas nada que não possa e não deva ser aperfeiçoado. O Corinthians tem a melhor defesa do Campeonato Brasileiro, está numa situação razoável, dentro da zona Libertadores (quarto lugar) e nada impede que no jogo de volta contra o Luverdense pela Copa do Brasil aplique uma goleada. Só que já recebeu vários avisos de que a fórmula precisa ser reativada, não com uma recauchutagem, e sim com uma mexida nas entranhas, na substância, nas peças e nas cabeças. Sem isso, será um ano perdido e o fim do projeto que melhores resultados deu na história recente do clube.

Carles: Um dos maiores méritos do grande gestor é a capacidade de detectar as necessidades de mudança mesmo antes do fracasso ser uma evidência. Tem mais, as fases de estabilização que normalmente se seguem à dos grandes triunfos são uma grande tentação, que normalmente cegam a autocrítica. O Corinthians parece saborear essa estabilidade tão traiçoeira. Nada impede que as correções se façam sobre uma base ou uma estrutura vencedoras. Difícil é conseguir, numa atividade tão passional como o futebol, distinguir os fatores críticos, as verdadeiras deficiências, sem se deixar levar pelos vínculos afetivos.

Edu: Só sei que a Fiel está de olho e perdendo a paciência. Para a Fiel, o Chelsea é ótimo para preservar a memória, as lembranças são eternas. Mas perder para o Luverdense também será uma lembrança.

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