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Craques de sobra, ousadia nem tanto

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

18 de maio de 2014 | 20h31

Edu: Vai ser uma Copa de toque de bola ou de verticalização? De controle de ritmo ou de velocidade?  De cautela ou de ousadia?

Carles:La duda ofende’. É a Copa com os melhores roteiristas de todos os tempos que se esmeraram em ter todos os grandes, todos os campeões da história, tem os uatsapes e essemeesses diários de Jérôme e Joseph para que as estrelas não entrem em divididas, que passem o maior tempo possível no estaleiro. Tem tudo para ser um torneio vistoso, bem jogado…

Edu: Sempre algo vistoso terá, com tanta gente boa se guardando. Mas veremos algo aqui mais para Atético de Madrid ou para Chelsea? Mais para Bayern de Guardiola ou Dortmund do ano passado? As seleções não costumam adotar muitos modelos rígidos dos clubes – exceto a Espanha de 2010, por razões óbvias, já que tinha sete jogadores do Barça. Hoje já não será tanto. Sendo assim, o que esperar, por exemplo, da Alemanha de Löw que não tem nada a ver com o Bayern de Guardiola, embora o time titular tenha uma meia dúzia de craques que atuam por lá?

Carles: Os torneios mundiais costumam ser um catálogo variado em tipologias. Os grandes campeões como Itália, Alemanha e Brasil sempre fiéis aos seus padrões, se bem que os italianos de Prandelli ameaçam surpreender com um futebol mais moderno, enquanto Löw também tem trabalhado para deixar o modelo alemão mais flexível. O Brasil, se você reparar, vive desde 70 sob o mesmo padrão, independente do futebol que se joga nos torneios nacionais. Talvez menos em 1982, desde o tri, a comissão técnica sempre teve algum (ou alguns) dos componentes da equipe original que substituiu João Saldanha. E tem o grupo de aspirantes, representados por Espanha, Bélgica, França, Suíça… na verdade, todos produtos da diversificação étnica que só fez enriquecer os seus estilos. Talvez fossem estes os que devessem oferecer essa nova estética, generosa e associativa. Mas, convenhamos, em um campeonato espalhado por um território continental em plena zona tropical, não vejo que possa chegar a ter um ritmo lá muito dinâmico. Quem sabe não é a grande oportunidade para a Argentina, que também não chega a representar um modelo de inovação.

Edu: Clima ora seco ora muito úmido, grandes variações de temperatura, viagens longas, todos são fatores que serão decisivos e que – você tem razão – podem até definir as formas de jogo, talvez de acordo com o adversário. A Espanha, por exemplo, que tem uma estreia que já é uma decisão, pode se controlar depois, contra o Chile, e poupar meio time contra os australianos. Mas outros terão problemas maiores, como a Inglaterra e os europeus do norte, que sofrerão com o clima mais do que o normal. Não acho que o Brasil é esse padrão bem definido, acabado. O Brasil ‘está’ nesse padrão, porque é um jeito de jogar que Felipão encontrou e deu certo. Não tem outra opção no momento. Mas desde 70 já teve retranca, ousadia, híbridos diversos e até Sebastião Lazaroni. Mas com Felipão não haverá novidades nessa questão. A Argentina idem, se bem que seu nível de competitividade ainda é uma incógnita. Mas citei a Alemanha porque parece ser o trabalho mais meticuloso dos últimos anos, com uma renovação gradual que Del Bosque poderia ter feito mas preferiu não fazer. Não acho que virá nada inovador, mas o nível de competição pode ser mais agudo em um torneio com influências externas tão grandes.

Carles: Pois é, se consideramos que a Alemanha ainda preserva seu modelo original esportivo, baseado nos clubes de bairro, de cidade, de comarca, que seus campeonatos regionais até há pouco tempo eram muito valorizados, não é nenhuma surpresa que eles se aproximem do padrão ideal de desenvolvimento esportivo. E se este não fosse o esporte do imponderável, a Alemanha teria vinte títulos mundiais. Não é assim, felizmente. A capacidade de planejamento não é garantia de títulos e aos fatos me remito. Mesmo assim, se imaginássemos um modelo que juntasse a capacidade de improvisação tão típica dos povos latinos com o famoso planejamento da Europa do Norte, poderíamos fabricar fácil, fácil, um campeão em todos os esportes. Sem ir muito longe, foi o que aconteceu por aqui quando a geração de moleques criados nos ‘poliesportivos’ de bairro cresceram. E veja quantos títulos importantes ganharam.

Edu: Isso significa que o imponderável tem poderes suficientes para derrubar qualquer grande planejamento graças à improvisação? É uma tese um tanto kamikaze que seguimos por aqui faz tempo, talvez uma das razões por ter a América Latina esse perfil tão bipolar, no futebol e na vida. Mas em Copa do Mundo é real, sim, e quem sabe, com medo do imponderável, a maioria das seleções venha com esquemas mais conservadores, mesmo as que poderiam a princípio introduzir alguma novidade. A Bélgica, por exemplo, tão badalada, não mostrou nenhuma inovação tática nas partidas que andei vendo, exceto pelo fato de que agora tem craques no time. Mesmo o Brasil tem um modelo conservador, que privilegia a pegada, mais para Atlético de Madrid que outra coisa. Logo, estamos concluindo que veremos mais pragmatismo do que ousadia, certo?

Carles: Muito provável. E seria uma pena com a porção de craques que estará por aí. Quem sabe o que sobram mesmo sejam treinadores conservadores. Não esqueçamos que os selecionadores são escolhas de uns senhores que ocupam cargos políticos, muitas vezes pouco representativos das legítimas idiossincrasias. Talvez fosse uma boa ideia começar a revolução pela forma de escolher os chefões nas federações, mesmo sabendo que eles ainda não foram capazes de estragar o espetáculo dentro de campo, não é assim?

Edu: Sempre haverá alguns transgressores para animar nossas tardes-noites de futebol.

 

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