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Criatividade sim, mas com sacrifício

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

29 de janeiro de 2014 | 19h13

Edu: A todo momento tem alguém por aqui para lembrar que Oscar, na Copa das Confederações, foi o maior ladrão de bola do torneio. Roubou mais que todos os volantes, incluindo italianos, uruguaios e espanhóis. Aí vemos na Liga Espanhola que Koke é o maior ladrão do Atlético, sendo que tem que dividir também a função de criação com Arda Turam. Teria sido essa a explicação para Mourinho abrir mão de Juan Mata. Será que os meias criativos perdem muito de seu rendimento com esse sacrifício padrão Mourinho ou padrão Simeone? Ou é um sinal dos tempos e vamos ter que conviver com isso?

Carles: É mais do que provável que a filosofia Mourinho tenha muito que ver com o sacrifício de Mata. E apesar do estilo Simeone também exigir muito trabalho dos seus jogadores, acho que a grande diferença entre os estilos dos dois treinadores está nas habilidades sociais. Digo mais, isso não está só relacionado com o ambiente no vestiário, mas com o rendimento técnico e tático dos jogadores. Simeone e sua equipe se dão ao trabalho de convencer ao jogador que ele pode variar seu estilo para encaixar no esquema – foi o que mais se viu nesse Atlético. Quanto a Mourinho, quando ele decide que determinador jogador não serve para o seu esquema, pouco faz para tentar adaptá-lo. Não tem conversa, literalmente. Claro que no caso Mourinho-Mata ajuda muito a velha rixa “cordial” entre ibéricos.

Edu: Pois eu já acho que aquilo que Mourinho quer e aquilo que Simeone quer são basicamente as mesmas coisas – descontando essas questões de tratamento pessoal, claro. Aliás, é o que Felipão quer também, se bem que com argumentos bem mais rústicos, para usar um termo delicado. O engraçado dessa história é que Mata não é um acomodado. Não foi o principal jogador do Chelsea em duas temporadas à toa, voltava muito para ajudar e sempre com o mesmo dinamismo. O caso dele com Mourinho é de visível rejeição mútua, ou rejeição ibérica como você diz. Não pode ser outra coisa. O que me leva a concluir que obrigar um jogador criativo a esse sacrifício não é uma aberração, porque nem Oscar nem Koke estão jogando menos em função disso, ao contrário. Ou seja, Mata não deixou do Chelsea por questões táticas, isso está claro.

Carles: Descontando o tratamento pessoal? Você acha pouco? É a diferença entre aproveitar um bom jogador ou até uma peça menos brilhante que complete perfeitamente um estilo, antes de descarta-lo e pedir um brinquedinho novo para o ‘presi’. Ou até mesmo na questão de manter a autoestima coletiva e individual, algo essencial para qualquer profissional e não só futebolistas. Também existem diferenças muito grandes entre Mata e Koke. Juanin é um canhoto com “recorrido” de jogador moderno, participativo mas com trato de bola clássico. Além disso, é um ex-atacante recuado o que facilita sua adaptação, lhe dá certa intimidade com a área adversária. Koke é mais pragmático, engenhoso na construção do jogo também, mas com passado de volante e que se sente à vontade chegando ao ataque, mas principalmente naquela última linha de passe. Diria que Koke pode inibir a sua criatividade com mais facilidade que Mata, poderia se adaptar bem a um time montado por Mourinho.

Edu: O que me parece cada vez mais evidente é que o longo prontuário de babaquices na história profissional do português não anula algumas virtudes que, às vezes, essa postura grotesca dele não nos deixa notar. Mourinho não despreza o talento, não podemos mais dizer isso dele. Em Madrid, o jogador que mais rendeu com ele foi Özil. Ao colocar Oscar, Hazard e Willian (como podia ser Mata) no mesmo time, coisa que duvidávamos no começo, ele faz uma indiscutível opção pelo talento, mas exige algum sacrifício. A mesma coisa não se pode dizer do Felipão, que prioriza o sacrifício. Enquanto o time do Atlético, hoje, é mais sacrifício que talento.

Carles: Sem dúvida, por isso ele nunca escolhe trabalhar em clubes que não tenham suficientes reservas orçamentárias para contratar talento. E com uma carteira recheada na retaguarda, ele monta times vitoriosos, seguros, extremamente geométricos, sempre com jogadores que fabricam futebol, combinados com velocidade e força física não isenta de talento. Precisa mais? Até eu. E se ainda por cima ele é capaz de fazer birra, bater a porta e ir para outro clube com grana disposto a contratá-lo, mais mérito ainda. Convenhamos que o Cholo não encontrou exatamente esse mesmo cenário no Atlético e os seus resultados não são menos meritórios.

Edu: Cholo tem todos méritos, não é essa a questão. Tem até mais méritos de fazer um time que jogue, tenha resultados e cresça, mesmo com esses recursos. E recursos às vezes não são garantia de nada se a proposta técnica não fluir. Nem é preciso ir longe, basta ver como foi o próprio Mourinho com toda aquela grana do Madrid. De volta à ideia do início da conversa, deve ser mesmo sinal dos tempos que o jogador criativo tenha hoje que se submeter ao penoso trabalho de zelador, junto com os volantes. Um zelador qualificado, é verdade, sem que precise se transformar num cabeça de bagre.

Carles: Zé, você vai ter que me perdoar de novo, porque vou insistir em desviar um pouco dessa questão, já que eu tenho outra teoria sobre a tal localização – chamemos pouco glamorosa – do talento lá na cozinha. Entendo que é basicamente uma estratégia circunstancial. Um antídoto que não só permite fabricar o jogo desde uma zona do campo alternativa e menos povoada, como obriga os adversários mais fechados, aqueles do antijogo, a adiantarem a sua marcação para tentar bloquear essa criação. Como efeito principal temos a separação entre as linhas, o que facilita a circulação da bola para o time que tem maior interesse nisso. É uma circunstância que, acredito, valoriza um tipo de jogador mais versátil, uma espécie de híbrido, mas não por isso com menor capacidade técnica e criativa. Ao contrário, com uma enorme visão de jogo global. Por isso a melhor versão de La Roja funcionou bem com Xabi Alonso lá atrás, junto com Busquets, além de Xavi e Iniesta mais adiantados.

Edu: Você não desviou de nada, só acrescentou algo com um discurso bem mais rebuscado diante minha definição um tanto humilde, simplista. Vou pensar um pouco nisso com meus parcos neurônios, mas desconfio de que falamos a mesma coisa.

Carles: Provavelmente, e sem os salários nem do Cholo nem do Mou – the Special One & SimeOne (desculpe, não resisti!).

 

 

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