As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

De idiotas e malacos

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

28 de julho de 2013 | 07h48

Carles: Tem uma história que corre por aqui, nem confirmada nem desmentida, e que expressa como a torcida pode influir decisivamente num jogo. Corria o ano de 1995 e o Zaragoza disputava uma das semifinais da antiga Recopa da Europa contra o Chelsea, torneio que a equipe espanhola acabou vencendo. Diante da sua torcida e de três mil seguidores ingleses, o argentino Juan Eduardo Esnáider marcou o 3 a 0 para o time local e desencadeou uma série de brigas, tanto na arquibancada como no campo. Foi quando parte da torcida local começou a entoar uma musiquinha inspirada numa famosa frase do treinador argentino Carlos Salvador Bilardo, de moda na época: ‘¡Pisalo! ¡Pisalo! ¡Pisalo!’ Repentinamente a confusão cessou. No dia seguinte uma parte da imprensa inglesa teria louvado o exemplo de fairplay da torcida “maña” que, segundo eles, pedia em coro: ‘Peace and Love! Peace and Love! Peace and Love!’ (‘Pissanló…’  semelhante foneticamente). Você acha mesmo que a arquibancada pode ser considerada uma tribuna livre para a livre expressão das massas?

Edu: Essa história é uma das pérolas do futebol moderno – acho que pouco importa se é mesmo totalmente verídica a estas alturas. Mas a resposta é sim, um contundente sim. Acontece que a massa é formada por uma série de grupos heterogêneos de tipos humanos, cuja ação coletiva pode facilmente extrapolar certos limites. Se pensarmos nos gritos nazistas e racistas que, por mais que clubes e entidades se esforcem, são uma realidade em vários campos de futebol da Europa, podemos colocar em dúvida se vale a pena ter uma tribuna livre. Acontece que nunca se viu nem se verá um estádio inteiro entoando slogans racistas. Essa atitude caminha para ser uma doença social de minorias. Portanto, o torcedor em geral merece a liberdade das arquibancadas. Mais do que uma concessão, é um direito.

Carles: Verdade, qualquer coisa diferente disso pode ser considerado censura e juízo dos valores alheios. Até aqui estamos de acordo, mas diante de manifestações racistas, o atleta profissional que está sendo pago para desempenhar seu ofício e é alvo dessas manifestações tem direito de recusar-se a seguir em campo, como fez recentemente o francês de origem guineana Constant, jogador o Milan, que, ofendido por parte da torcida do Sassuolo, decidiu sair de campo no que recebeu o apoio dos colegas e até do árbitro?

Edu: Tem direito, todo direito, aliás como já aconteceu com seu colega de time Boateng. E por pouco não passou o mesmo com Mario Balotelli na temporada passada, num jogo contra a Roma se não me engano. Os clubes e as federações que se virem para evitar essas bizarrices medievais. Só faltava alguém dizer que o jogador é profissional, ganha muito bem e que isso faz parte. Por favor! Se a punição para o sujeito que atira um copo de cerveja em campo é rigorosa, para o canalha que manifesta publicamente o mais rasteiro tipo de preconceito e atentado à dignidade, a pena tem que ser ainda mais pesada.

Carles: O camaronês Eto’o deve ter sido o precursor nesse tipo de reação de protesto. Quando jogava pelo Barça, justamente em La Romareda, em Zaragoza, ameaçou e esteve a ponto de sair de campo por ser alvo de manifestações racistas de parte, é bom frisar, parte da torcida local. E, como não, na Itália, jogando pela Inter, em Cagliari, a coisa se repetiu com Samuel e o jogo chegou a ser suspenso durante uns minutos até que os gritos cessassem. Propondo uma penalização severa ao cara que se manifesta, mesmo sendo em base a uma posição discriminatória e nazista, você não está de alguma forma atuando como censor, como comentamos no início?

Edu: Evidente que não. Combater a intolerância é exatamente oposto da censura, é levantar a bandeira da convivência e da cidadania. Há milhares de formas de torcer que são empolgantes, eficientes, têm uma incontida força estética e, além de tudo, ajudam os times a vencer. Ninguém pretende que esse tipo de manifestação seja tolhida. O futebol é antes de tudo uma experiência sensorial em torno do que ocorre dentro de campo. Agora, se uns quantos idiotas querem afrontar essa empolgação legítima, eles é que são os estranhos no ninho e tem que ser banidos. Não é caso de censura não, é caso de cadeia.

Carles: Quem já foi umas quantas vezes ao estádio sabe muito bem que o torcedor comum, o anônimo, o que vai com a família, esse dificilmente começa um tipo de manifestação negativa. Nada além de tentar intimidar legitimamente o time adversário. As tais minorias que incitam fazem parte normalmente de grupos que praticam a intolerância como modo de vida e não só no estádio. Em muitos desses casos, esses grupos contam com o beneplácito do clube, mesmo que extraoficialmente. São grupos influentes que servem um pouco de termômetro e podem fazer o poder político do clube pender para um lado ou para o outro. Não deveríamos começar a pensar em punir esses dirigentes coniventes, pelo menos denunciá-los publicamente?

Edu: Desde que saibamos exatamente de quem se trata, claro que é preciso denunciar. Mas esse de tipo de malaco anda sempre na sombra e, neste caso, usa a instituição que comanda para posar de justiceiro, porque está mexendo com entidades representativas de grandes coletividades. Óbvio que temos algumas ideias claríssimas de quem se trata, mas como pegar esse sujeito de uma forma objetiva? Por ora, o futebol já tem problemas suficientes com vândalos, hooligans e arruaceiros para ter que aturar o meliante preconceituoso e sectário. Se a estes for mais fácil identificar, e parece que é, o momento de acabar com eles é agora. Mas não vejo um grande empenho, exceto por um punhado de campanhas protocolares de conscientização que parecem não surtir nenhum efeito, como essa do fairplay da Fifa.

Carles: Campanhas institucionais que de tão empoladas acabam sendo frias e perdem qualquer efeito. Sem dúvida, muita gente sabe quem são os tais malacos, mas preferem aderir ao jogo dos interesses e omitir-se para depois serem os primeiros em vociferar contra a atitude da torcida, que também é injustificável. Muitos desses torcedores encontram na arquibancada a sua única possibilidade na vida de se sentirem algo importantes, são seus minutos de “glória”. Costumam ser os mesmos que criam cânticos inofensivos, coreografias que empolgam a grande massa. O problema é o excesso de poder para tão pouca consciência histórica e social. E acabam virando os únicos protagonistas desses lamentáveis episódios de intolerância quando são só uma parte do processo.

Edu: Para falar a verdade, não vejo nem mesmo o engajamento de dois setores que deveriam inclusive liderar empreitadas como essa: a mídia e a própria classe dos jogadores de futebol, que em grande parte continuam pensando que a história não é com eles. Mas esse é tema para mais um post.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.