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De Owen para Ganso, a lição

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

25 de março de 2013 | 06h19

Edu: Lendo na última semana sobre a aposentadoria de Michael Owen, aos 33 anos, foi impossível não fazer um paralelo entre o início fulminante da carreira dele e a do Paulo Henrique Ganso, que tem 23 e já parece um veterano – mas no mau sentido.

Carles: Só 23? Impressionante como o futebol de alta competição obriga essa molecada a abreviar toda uma vida em uma única década, na maioria dos casos. Vivem, ainda muito jovens, momentos que muito cara vivido teria dificuldades em enfrentar. O que convém mais a um jovem desses, ser inconsciente ou sólido?

Edu: Pois é, aí entra a questão da supervalorização antes de que o cara esteja pronto, perto da graduação, saiba um pouco mais da vida. O Owen marcou aquele gol impressionante contra a Argentina em uma Copa do Mundo (1998). Tinha 18 anos e imediatamente foi elevado a uma categoria de extraterrestre. Ganso fez dois campeonatos paulistas de altíssimo nível, comandou o Santos e, a rigor, foi tão ou mais importante do que Neymar. Então é inevitável: o que normalmente vem pela frente é excessivo para um garoto desses. Não existe história mais manjada no futebol, mas a turma continua entrando nessa onda.

Carles: Existe um caso por aqui, com grande potencial para virar ídolo, mas que, pela tenra idade, também é uma incógnita. É o francês Raphael Varane, jovem central do Real Madrid que aos 19 anos é a nova sensação da Liga e amanhã jogará seu segundo jogo como titular da sua seleção nacional. Dizem que quando ele e o pai estavam conversando com a diretoria madridista para fechar a sua vinda, quiseram saber informações detalhadas sobre as universidades da cidade. As entrevistas de Raphael, apesar da dificuldade do idioma, são verdadeiras aulas de maturidade e até de retórica para muito jogador da terra. Eu arrisco e aposto que vai ser um grande jogador e não só pelas suas condições técnicas em campo. Talvez seja uma pista para jogadores como o Ganso ou outros que não conseguiram administrar as reviravoltas nas suas vidas.

Edu: A questão da maturidade, claro, tem tudo a ver com a formação familiar do cara. E aí são expostas as grandes diferenças entre os casos de Owen e Ganso, que podem ser ilustradas também pela trajetória do Varene. Owen jogou em times como Liverpool, Real Madrid, na época dos galácticos, e Manchester United. Foi reserva na maior parte do tempo em que esteve na Espanha, porque o time era cheio de feras, e ficou quase três anos praticamente no banco do Manchester. Ao que parece, nunca tirou os pés do chão (mesmo quando ganhou a Bola de Ouro em 2001), nunca esbravejou porque sabia de suas limitações. Ganso, ao contrário, achou que era um jogador acabado porque tinha vencido dois campeonatos regionais, era solicitado pela imprensa na Seleção, imaginava que conquistar a Europa era questão de semanas. O garoto da periferia de Belém do Pará que uns dias depois era celebridade nacional foi pessimamente orientado. Vieram sucessivas contusões, que podem acontecer com qualquer um, e nunca mais se viu o Ganso, mesmo depois de se transferir para o São Paulo por uma bagatela (24 milhões de reais). O temperamento afundou o cara, ao contrário do Owen, que nunca se deslumbrou. E Varene, ao que parece, também está em outro patamar.

Carles: Tem ainda outro exemplo por aqui, com algumas semelhanças ao do Ganso, Sérgio Canales, jogador que há três temporadas deslumbrou toda a Espanha jogando pelo quase sempre medíocre Racing de Santander. Menino bonitinho, o Canales desfrutou do acosso das fãs e foi festejado pela imprensa como o novo Beatle da liga. Imediatamente o Real Madrid sacou o talão de cheques e foi buscar o craque. É certo que as contusões sérias nunca deixaram o rapaz em paz, mas, como muitos jogadores encostados no time da capital, acabou contratado, na baixa, pelo falido Valencia. Depois de um início fulgurante, Canales nunca voltou a ser o mesmo. Outros casos como o de Javi De Pedro, jogador do último time célebre e quase campeão da Real Sociedade que também foi muito festejado e acabou indo para a Inglaterra. Sua carreira foi murchando, murchando até acabar de forma anônima em times de segunda e terceira divisões.

Edu: Se de um lado tem essa questão da supervalorização – lembro bem de outro caso daí, Julen Guerrero, do Bilbao -, esses padrões de promoção assoberbada de jogadores, como os do Real Madrid, são o outro lado da moeda: como queimar um garoto no próprio berço. É um imenso desperdício porque os clubes e técnicos confundem proteção com orientação. Para eles o que importa é blindar o garoto, afastá-lo das mulheres e das noitadas. Nunca pensam em orientação profissional e capacitação pessoal. Aliás, os dirigentes é que normalmente precisam de orientação psicológica antes mesmo que os jogadores. Sem falar nos técnicos, muito deles notórios esquizofrênicos, maníacos por disciplina militar.

Carles: O Julen nunca representou o modelo de jogador que eu destacaria, mas tenho que reconhecer as dificuldades adicionais que ele viveu como ícone de uma sociedade como a basca, num momento em que a tensão política e a pressão sobre todas as figuras destacadas de Euskadi eram quase insuportáveis. Chegou um momento da carreira de Julen em que todos davam como certa sua saída para outros clubes dos grandes centros. Mas isso naquela época era inadmissível para uma figura como ele, de alguma forma implicado com a causa da região. Nunca se soube até que ponto isso rompeu a carreira dele ao meio, causando uma visível decadência. Também não sabemos em que medida ficar em Bilbao foi uma decisão própria ou devido às pressões.

Edu: Nesse caso é mais um componente para ter peso definitivo da trajetória do jogador, que além de tudo tem que tratar com a família, os agentes, o entorno associativo, coisas que Guerrero, um símbolo em Bilbao, deve ter sentido na carne. Mas que fique claro, hein Carlão: o jogador não é santinho, faz uma série de bobagens pessoais e precisa aprender a pagar por elas, ter responsabilidades como o vizinho da frente, como qualquer cidadão. E é capaz de fazer besteiras mesmo sendo, no todo, um bom moço. Ganso nunca foi indisciplinado, mas subiu nas nuvens, tornou-se um cara acima das críticas, simplesmente desprezou seu futuro. Gostaria de estar enganado, mas não vejo remédio para ele.

Carles: Mas acho que estamos falando disso o tempo todo, de como cada um é capaz de assimilar tanto os momentos de glória efêmera como os momentos de aparente decadência. E tudo isso tendo em conta o entorno familiar, social e político.

EduFalamos disso porque o futebol é isso.

Carles: Talvez o ambiente em que as certezas sejam mais efêmeras. Dureza para a molecada, meu amigo.

 

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