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De Rivaldo a Neymar, as aflições do choque cultural

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

03 de maio de 2013 | 21h58

Carles: No post desta semana “Enquanto isso, no Santiago Bernabéu…” fizemos referência a que, possivelmente, se Marcelo, jogador brasileiro do Real Madrid, tivesse tido a oportunidade de ter alguém para apoiá-lo e aconselhá-lo quando, digamos, foi acossado pelo conclave luso em favor de Coentrão, talvez, e só talvez, as coisas tivessem sido diferentes para o brasileiro. Caso ele não tivesse se sentido desamparado, quem sabe não tivesse tido uma queda de produção, da condição física e tivesse se imposto à concorrência desleal. Porque, num princípio, os torcedores e inclusive a imprensa preferiam o Marcelo ao português. Você está de acordo comigo que é uma aventura para todos os jogadores brasileiros, normalmente craques indiscutíveis no campo, a vinda para a Europa, sem nenhum tipo de preparação mental ou cultural específica?

Edu: Sim, estou de acordo, e só faço uma ressalva ao termo ‘aventura’, que é uma licença poética neste caso. Porque ninguém que vai ganhando 400 mil euros por mês pode ser enquadrado no quesito ‘aventura’. Dinheiro na mão pressupõe um mínimo (e que mínimo!!!) de segurança. É, sim, um tremendo choque para o tipo de formação que o futebolista brasileiro tem, na qual pouco ou nada se privilegia o trato com a nova realidade social e as barreiras culturais que vão muito além da língua. A língua é efetivamente um problema, mas só um de uma imensa lista. É claro que um processo de acompanhamento/aconselhamento do clube que vai receber o jogador seria essencial, mas que clubes têm hoje essa preocupação?

Carles: Verdade, aventura mesmo é a de quem vem com uma mão na frente e outras atrás ou mesmo com algumas economias. Olha que eu acho a língua o menor dos obstáculos. Digo mais, em alguns casos, é até uma bela desculpa que protege da exposição de uma possível ignorância. Obviamente que é uma proteção com tempo de validade. Passado o período de tolerância, que costuma ser proporcional ao desempenho em campo, o torcedor começa a se indignar com as dificuldades de integração e de aprender o idioma. Mesmo assim, se jogar como o Rivaldo fez no Barça, garantindo vitórias e classificações como aquela histórica com 3 golaços num disputadíssimo 3 a 2 contra o Valencia, incluindo o antológico de bicicleta de fora da área e que valeu a vaga para a Champions 2001, nesses casos, o torcedor perdoa quase tudo.

Edu: O que fica claro, como nesse caso do Marcelo, é que mesmo uma integração razoável não basta. Marcelo tem o carinho de grande parte da torcida, está acostumado à vida em Madrid, fala muito bem o castelhano e é visto com tremenda simpatia pela diretoria, mas caiu nas garras de uma turminha que, por mais que seja de passagem efêmera, fez muitos estragos, encabeçada pelo Special One. Talvez coisa parecida não aconteça com Neymar, no Barça, que respeita mais seus atletas, mas nesse caso prevejo outros tipos de problemas, como o entendimento real de ser uma figura institucional importante na cultura ‘culé’. Coisa que, por exemplo, Messi aprendeu ser desde garoto, embora não tenha nascido na Catalunha.

Carles: No caso de Messi, digamos, ele não se desprendeu da educação familiar, argentina, é um cara protegido por esse entorno, mas a convivência desde criança com a cultura catalã ajudou a pelo menos não negar os valores locais publicamente. Isso às vezes acontece inconscientemente, como o próprio Rivaldo fez. Não conheço tanto o Neymar, mas, de longe, parece-me um tipo “avispado”, pronto para as adaptações, pelo menos às questões mais triviais. De todos modos, não viria mal um condicionamento. A preocupação do clube de destino, na maioria das vezes, se restringe ao aprendizado do idioma. Parece-me insuficiente, já que num possível fracasso perdem todas as partes. Claro que o nível de civilidade de cada um, independente da escolaridade, interfere muito. Com parte de razão ou não, um caso clássico foi a convivência de Djalminha com então treinador do Deportivo La Coruña “Jabo” Irureta, em quem chegou a praticamente dar uma cabeçada durante um treinamento. Lembra disso?

Edu: Lembro sim, foi um episódio marcante. Mas, com repercussão bem menor, aconteceram coisas semelhantes em vários clubes pelo mundo, envolvendo tanto brasileiros quanto nossos vizinhos sul-americanos. Recentemente, aliás, o nada cordato Hulk teve lá uma alteração de humor um pouco mais violenta, e pública, com seu treinador no Zenit, o italiano Luciano Spaletti. Ainda assim, vejo as questões disciplinares como um mal menor, nestes casos, porque se trata de uma rotina no futebol que os managers e treinadores são obrigados a controlar. Acontece muito em qualquer país da elite do futebol envolvendo jogadores de qualquer nacionalidade. No caso do Neymar, como ocorreu de certa forma  com Alexandre Pato no Milan, a preocupação sobre o aconselhamento inclui todas as frentes – técnica, disciplinar, convivência em grupo, respeito às instituições, comportamento em campo e fora dele. É uma necessidade ampliada de adaptação à cultura local, por se tratar de uma celebridade internacional desse meio que é, por si só, bastante predatório. E ainda mais sendo jovem e muito assediado.

Carles: Acho inclusive saudável que o jogador, como qualquer emigrante, não se sinta que está violentado os seus próprios valores culturais, pela necessidade de conhecer a cultura que vai recebê-lo. Nos casos como o do Djalminha, que pude acompanhar mais de perto, a causa da reação mais violenta, a indisciplina pode até ser a ideia ou a sensação de não aceitação. Veja que o estopim que levou à quase agressão foi que Irureta propôs treino “um toque” somente tocando a bola com o interior do pé. Ninguém discute a habilidade do Djalminha no toque de “três dedos”, com o exterior o pé. Pois ele insistiu na desobediência e partiu para a briga quando o treinador insistiu e deu-lhe uma bronca. Estou certo que a tolerância e empatia de ambos lados poderiam ter contornado a situação. O Djalminha seguiria com o seu projeto europeu e o La Coruña não teria perdido outro craque.

Edu: Mas aí entra o fator humano, né Carlão. Mourinho e Luxemburgo agiriam de um jeito, Del Bosque e Tite de outro bem diferente. E o nível de tolerância dos jogadores varia ainda mais. Esse tipo de conflito sem dúvida é uma faceta da interação cultural, mas está ligado mais ao trato pessoal do que ao entorno de uma forma geral.

Carles: No caso de Pato, pelo visto, foi justamente contrário, excesso de envolvimento com as belezas da cultura local, não?

Edu: Pato é um garoto educado e de boa formação. O deslumbramento dele com a vida glamourosa de Milão teve um lado perverso e de falta de controle, mas serviu como plataforma de amadurecimento rápido. Se ele estivesse começando a carreira dele no Milan, agora seria um outro jogador certamente.

Carles: Pois é, mas a tentação dos clubes é de trazer os jogadores quando são jovenzinhos mesmo. E as segundas chances, como por exemplo a do Luís Fabiano no Sevilla e tantos outros, são cada vez mais escassas. Quanto ao Neymar, você entende que dependendo de quem estiver no comando do Barça quando da chegada dele, pode estar a chave do êxito ou fracasso na Europa? Não é jogar demais com o acaso?

Edu: Não acho que tem a ver necessariamente com quem estiver no comando do Barça. Mas tem uma certa influência. O importante, para o Barça e para o Neymar e seu indefectível grupo de apoio pessoal, é que um processo de ‘blindagem’ garanta um bom período de aprendizado. Mas não uma blindagem totalitária, militarizada. E sim uma saudável troca de conhecimentos que permita que o garoto faça seu trabalho sem um peso extra. Já basta o peso representado pela adaptação cultural.

Carles: Esperamos com ansiedade. E agora mais do que nunca.