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Desacreditado e ‘abstêmio’, o México não tem nada a perder

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

25 de maio de 2014 | 19h41

Carles: Uma seleção sem vícios, que não bebe, não fuma, não pratica sexo… será que não joga também? Parece inevitável a piadinha em cima da notícia sobre as proibições do técnico Miguel “El Piojo” Herrera.

Edu: Herrera foi chamado pela Federação Mexicana de Fútbol numa emergência para tentar classificar a seleção que estava sob altíssimo risco de ficar fora da Copa. Depois da conquista da vaga, o técnico ficou meio estufado, andou provocando os desafetos e jogadores que ficaram de fora e criticaram a seleção. Ganhou moral com a chefia e agora me veio com essa, dizendo que no alto profissionalismo não se pode negligenciar o trabalho em função de outros prazeres e que ninguém vai morrer por ficar duas ou três semanas sem sexo.

Carles: Os treinadores cacicões como Herrera costumam ser a solução fácil dos dirigentes para tentar controlar grupos de reconhecido talento um tanto indolentes ou chegados numa festa. O mesmo que achar que uma ditadura militar é a solução para as possíveis crises sociais. Não acho que treinadores do estilo de Simeone ou Guardiola sequer se atreveriam a fazer proibições explícitas sobre os hábitos pessoais dos comandados.

Edu: E medidas como essa funcionam mais como cortina de fumaça para problemas que ele não conseguiu resolver com competência, como, por exemplo, convencer o ótimo Carlos Vela a voltar para a seleção. No fim, Vela, provavelmente o melhor jogador mexicano em atividade e vindo de duas excelentes temporadas na Real Sociedad, foi muito convincente ao dizer que não quer ir por não se sentir identificado com a equipe nacional. Apesar do estardalhaço de Herrera, surgiu por aqui a notícia de que a delegação mexicana já tem comprados os bilhetes de volta assim que acabar a primeira fase da Copa. Pelo jeito, a crise de confiança continua.

Carles: Ou pode ser mais uma das muitas armadilhas dos mexicanos em torneios internacionais. Não seria a primeira vez que uma equipe que entra por pouco numa competição desse nível acaba dando trabalho e chegando longe. É o que pensa um velho conhecido do futebol mexicano, Tita, ex jogador do Flamengo, da seleção e do León mexicano durante sete temporadas e atual técnico do Necaxa. Tita destaca no time mexicano o meio-campista Luis Montes e o veterano zagueiro Rafa Marquez, ex Barça, como inquestionável líder, ambos atualmente no León.

Edu: Oribe Peralta, autor dos dois gols da vitória mexicana na final olímpica contra o Brasil está entre os convocados por Herrera, assim como o maior ídolo do time hoje, Chicharito Hernandez, meio em baixa no United (e que, com Van Gaal, deve ser rifado). Se bem que Giovanni dos Santos, seu vizinho de Villareal, ainda representa a maior fonte de criatividade no primeiro escalão mexicano e costuma se dar bem contra o Brasil.

Carles: Outro titular incontestável andou dois anos por aqui, com relativo sucesso no Valencia, no início, e depois bastante irregular como o resto do time é o ala-lateral Andrés Guardado, hoje emprestado ao Bayer Leverkusen. É um dos jogadores mais experientes, como Rafa Marquez, que servem para equilibrar o time, relativamente jovem depois de tantas modificações nos últimos cinco anos e, claro, por ter revelado bons nomes na Olimpíada.

Edu: O que sabemos todos é que, com crise ou sem crise, não vai ser fácil para o Brasil, dia 17 de junho, em Fortaleza. Esse jogo tem histórico de dificuldades e os mexicanos sabem que o Brasil sente um grande incômodo em enfrentá-los seja qual for a situação.

Carles: Dos quatro do grupo, o Brasil é o 4º na última versão do Ranking Fifa, enquanto México e Croácia são respectivamente 19º e 20º e Camarões aparece na 50ª posição. Na teoria, os africanos são a zebra e o Brasil não acabar a fase em primeiro lugar no grupo, seria uma hecatombe. Por isso Croácia e México devem disputar a segunda vaga. Mas com o México nunca se sabe. Uma coisa é certa, os mexicanos estão entre as dez torcidas que mais compraram entradas paras os jogos da Copa, quase 30 mil.

Edu: Certamente eles contam com essa torcida que virá em peso e com a prática em lidar com situações difíceis. Ficarão hospedados e treinando em Santos e espera-se que Pelé faça uma visita à delegação em função dos laços que têm com os mexicanos desde o tricampeonato.

Carles: O Brasil, aliás, deve uma grande recepção aos mexicanos, em retribuição ao apoio recebido pela seleção ganhadora do tricampeonato, numa celebração memorável, como se os brasileiros estivessem jogando em casa. Em 1986, a seleção de Telê também recebeu bastante apoio dos mexicanos, se bem que no jogo contra a Espanha, os responsáveis do estádio de Jalisco fizeram soar o Hino à Bandeira em vez do Hino Nacional Brasileiro.

Edu: Mas os tempos são outros, Carlão. O México andou sendo uma ‘bestia negra’ para os brasileiros desde o final da década de 90 e completou o ciclo com a malfadada vitória na decisão da medalha de ouro na Olimpíada de Londres diante do time de Mano Menezes (com Neymar, Thiago Silva, Hulk e Oscar). Na Copa das Confederações o time foi recebido com bastante indiferença e também, tecnicamente, mostrou-se pouco empolgante, apesar de ter dado um certo trabalho no grupo brasileiro. As boas vindas, isso sim, estão garantidas para o torcedor mexicano, que de fato tem histórico de interação com a rapaziada verde-amarela.

Carles: A verdade é que custa imaginar esse rigor todo pretendido por ‘El Piojo’ Herrera, numa cultura como a descrita pelo grupo Maná na sua canção ‘México’: ‘Todo el mundo a bailar, todo el mundo a cantar, todos a gozar en un lugar que es mágico,
 la fruta llueve sin parar, 
el sol se asoma sin cesar, en un lugar que es mágico, romántico, México, desde Tijuana a Cancún, de Chihuahua a Tulún, Acapulco a Veracruz, éxotico y mágico es México’.

Edu: Há também alguns estigmas que o México ainda luta sem tréguas para superar, como o da violência dos cartéis do tráfico, que ocupam mais as manchetes da mídia histérica do que a riqueza cultural de uma sociedade alegre, mística e musical. Também por isso talvez seja um país que vive um tanto fracionado – e espremido – entre os ricos opressores do Norte e os irmãos latino-americanos, o que estimula suas orgânicas contradições políticas e uma desigualdade econômica que já foi muito semelhante à do Brasil em tempos recentes. Já veremos que México estará por aqui, o reprimido ou o festeiro.

Carles: São as duas forças econômicas da América Latina e ambos, modelos sociais massacrados pelas grandes diferenças. Como disse uma vez Fidel, se Brasil e México decidissem, ia ter muita potência e fundo financeiro internacional pedindo licença para entrar na região.

 

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