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Desastre do Arsenal, encruzilhada do Barça

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

22 de março de 2014 | 19h30

Carles: Caro amigo, fim de semana tenso na sede do Reino que você conhece tão bem. Os ônibus que chegam para a multitudinária “mani” de hoje confundem-se com os de torcedores, para o grande clássico de amanhã. Ninguém é capaz de negar que a Liga de las Estrellas tem um gostinho de merengue, como nunca teve nos anos de mourinhismo, enquanto José vira ‘The Happy One’ na sua Londres querida. Felizes na distância, o luso e os ‘blancos’?

Edu: ‘A medias’ como vocês dizem. É improvável um desastre amanhã no Bernabéu, mas e se Messi resolve incorporar o verdadeiro Messi? E se Pepe cisma de dar uma bordoada em alguém com 15 segundos e é expulso? E se…? Bom, é uma pena que o Barça dependa de acasos, mas parece ser o que temos no momento. De qualquer forma, não será para o Madrid o cupcake que Mourinho teve em Stamford Bridge neste sábado em que Arsène Wenger comemorava seu milésimo jogo pelo Arsenal. Uma tragédia que anunciamos aqui outro dia.

Carles: Minha tese é que Pepe é um teledirigível que responde com docilidade ou hostilidade, dependendo de quem governa, mais ou menos como as tropas de choque hoje na Plaza de Colón contra os manifestantes. Como Carlo tem proposto a calma, não se prevê a mais troglodita das versões do luso-brasileiro. Em Londres, sem querer isentar a atuação, beirando a suspeita, do goleiro Szczęsny, a disposição dos ‘gunners’ em campo foi uma piada, bem parecida com os cones no treinos dos Blues. Esse Arsenal é pólvora molhada, não como o City ou Liverpool que resistem. Já na nossa Liga, se amanhã o Barça não ganhar…

Edu: O Arsenal tomou três chacoalhadas em clássicos no ano, contra City, Liverpool e esta de hoje. Não tem mais perspectiva de título e, se vacilar, nem Champions pega para o ano que vem. Fica cada vez mais viva aquela impressão de que Wenger está chegando à última estação. Não é o que ocorre em tese com o Barça, que, perdendo o clássico, tem duas frentes para se realimentar – na Champions e na Copa do Rei. O que pode ser decidido, isso sim, é o destino imediato de Neymar e, a médio prazo, de Tata Martino. Uma vitória improvável no Bernabéu será devidamente dividida entre todos, mas uma cacetada a estas alturas vai para a conta dos dois, não tenha dúvida. Nas várias análises dos últimos dias em jornais da Catalunha (nos de Madrid também, claro), o clássico é visto como a última chance para ambos. Ou Ney arrebenta, e salva a pele dele e do argentino, ou terá que começar de novo o processo de conquista de confiança que no fim do ano passado parecia questão resolvida. E verá o resto do campeonato do banco de reservas.

Carles: O primeiro pescocinho é o do argentino e Neymar está bem lá atrás na fila da guilhotina. Estou convencido que tanto torcedores como jornalistas catalães (com o perdão da redundância) estão a fim de ver o craque jogando em outras circunstâncias. Tudo isso considerando o pior dos cenários para os culés, amanhã às 11 da noite em Madrid. Sou dos que acreditam que tanto ele como Messi poderiam estar fazendo mais e que ambos andam se preservando para a Copa. E mesmo com a opinião quase generalizada (um pouco condicionada e interessada por disputas internas, também) de que a contratação do brasileiro não era prioritária – principalmente pelas carências na zaga – não deve ser a sua última chance. Sabemos como esse ambiente é volúvel e uma atuação espetacular no clássico muda tudo. Ou, pelo menos, adia a crise sine die.

Edu: Mesmo com tanta expectativa e uma tensão turbinada pela mídia, não parece, à distância, que em torno desse clássico exista uma fração do nervosismo que cercava o duelo nos tempos de Mourinho. Ao contrário, as manifestações de cortesia dos dois técnicos criam um clima ameno demais para a importância do jogo, principalmente para o Barça. Fosse um ano atrás e a cambada de gorilas que está distribuindo pancadas na Plaza de Colón teria que subir algumas quadras na Castellana e se plantar diante do Bernabéu. Não é o caso. Nem dá para descartar um empate meio sem graça amanhã – preservaria a vantagem do líder e não seria uma vergonha para o Barça, apesar de praticamente custar o título da Liga. Quanto a Neymar, não estamos acostumados a ver da parte dele, em seus cinco anos de carreira, uma postura tão introspectiva como a atual. Ou é um processo de amadurecimento que vai trazer algumas cicatrizes, mas significará evolução, ou pode significar algo que bata de frente com seu estilo de jogo despojado, gerando mais insegurança. Não acho, sinceramente, que ele esteja se poupando.

Carles: O empate é bem mais do que uma mera probabilidade. Eu cravaria uma coluna do meio com gols, um ou dois para cada lado. Nesse caso, entra em cena o terceiro homem, o Cholo, aliás, uma alternativa para Wenger, no caso de se confirmar o fim de linha de Arsène, pelo menos sentado no banco do Emirates, onde Simeone poderia se encontrar com um atual vizinho de nome Iker. E mais depois da última pífia do glorioso Wojciech.

Edu: E se te serve de consolo para a ação dos gorilas em Madrid (sei que não serve), por aqui estamos às voltas com as tais ‘Marchas da Família com Deus’, ressuscitadas em alguns estados, e que pedem a volta da ditadura. Pode? Em que universo paralelo vive esse povo? Menos mal que, em São Paulo, conseguiram reunir a bagatela de 700 cururus para protestar. Bom, por essas e outras que insisto: o melhor é ficarmos com nosso futebolzinho de cada dia… Essa turma não merece mais do que ser ignorada.

Carles: Li alguma coisa, mas preferi considerar um pesadelo. Não era, né?

Edu: Tenho até medo de dormir…

 

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