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Desinformação e intolerância

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

08 de julho de 2013 | 04h28

Carles: Parece que o esporte, como você costuma dizer, é mesmo um perfeito reflexo da sociedade. E nem sempre para bem. Uma dessas facetas é a frequência com que o discurso sexista aparece no cenário esportivo. Esta semana, John Inverdale, um embalado comentarista da BBC, recebeu o triunfo da tenista francesa Marion Bartoli em Wimbledon com uma declaração desafortunada que dizia mais ou menos o seguinte – “será que o seu pai, a pessoa que mais a influenciou na vida, avisou quando tinha 12, 13 ou 14 anos que ela nunca seria um bombom?”, referindo-se ao aspecto físico de Bartoli, obviamente longe do padrão Sharapova. A verdade é que não é um caso isolado. As meninas do futebol, por exemplo, ou mesmo do basquete sofrem com esse tipo de postura retrógrada. Imagino que também não seja fácil a vida das “musas” do vôlei, por exemplo, às que muitas vezes se valoriza mais por determinados atributos físicos do que pelo valor técnico.

Edu: É um dos traços discriminatórios que corre solto no ambiente esportivo, a ponto de ter influência direta nos contratos de patrocínio e nas opções de transmissão pela tevê – além de ser um execrável ataque a padrões básicos de cidadania. Muita gente da comunidade do vôlei reconhece esse outro lado da moeda, quando a preferência estética simplesmente derruba a questão técnica. Para uma parte dos críticos com poder de discernimento, o vôlei de praia, por exemplo, representa um modelo bastante artificial de prática esportiva, no qual o desfile de beldades importa muito mais do que os padrões técnicos. Não que não seja agradável, mas claro que perde a característica de esporte de alto rendimento, vira uma atividade de fachada.

Carles: É notório o caso das jogadoras de vôlei de praia empenhadas em ter a liberdade de escolher usar biquíni ou não, e a postura de muitos meios, contrários a essa medida. Imagino que a resposta de Marion, demasiado tolerante com o jornalista, define um pouco essa situação, tirando importância à gravidade do comentário já que, seguno ela mesma, não alimentava nenhum sonho de ser modelo, mas sim de ganhar Wimbledon. E assim fez.

Durante o último Mundial de Futebol Feminino, quando o Brasil foi desclassificado, um jornalista esportivo comentou através do Twitter que, se tivesse poder, proibiria o futebol feminino. A reação não se fez esperar e, diante das manifestações bem mais civilizadas que a dele, em vez de retificar, o cara pediu socorro: “Estou sofrendo bulliyng de mina feia!!!”. Enquanto o jornalista da BBC pediu desculpas, este último ainda recebeu algum apoio pela atitude de machinho. Justamente os comunicadores que deveriam dar o exemplo, alimentam esse comportamento preconceituoso e permissivo com a mulher esportista e por extensão, com todas as trabalhadoras.

Edu: Tenho bem poucas esperanças quanto aos bons exemplos de uma parcela da mídia, que se esmera em cobrar atitudes macro, mas se comporta de maneira suja e animalesca no universo micro, nas pequenas relações. Ainda mais em manifestações próprias de territórios livres, como Facebook e Twitter. Esses exemplos do futebol feminino e da Bartoli denotam não só preconceito, mas que estamos diante de sujeitos imprestáveis. Só que há coisas mais sutis e não só de cunho sexista. São pequenas cruzadas diárias e campanhas deploráveis até por questões políticas corriqueiras ou simpatias pessoais. No futebol nem se percebe muita coisa, talvez porque seja um universo muito amplo, onde por exemplo a diversidade racial é assimilada mais naturalmente no caso do Brasil – certamente ainda não na Europa. Mesmo assim, todos os dias estão sendo julgados os comportamentos, a maioria fora do campo de jogo.

Carles: Bom, territórios livres, mas com responsabilidades, sobretudo se o sujeito se identifica como jornalista e usa as redes sociais como trampolim. Quanto à questão da aceitação da diversidade racial, a intolerância também existe por aí, né Zé, e você sabe bem disso. Até pela formação étnica da América Latina, ela pode até estar aparentemente mais normalizada, mas também está presente e às vezes de forma dissimulada, em forma de diferença social e, por certo, bem acentuada. No frigir dos ovos, os danificados acabam sendo os mesmos. É uma situação em que ambiente esportivo, ao menos o de alta competição, acaba se distanciando da sociedade, já que produz milionários aceitos apenas pela sua condição social. A conta bancária e os carrões acabam igualando as coisas, aparentemente.

Edu: Obviamente que tem o fator pesado da discriminação social. Esse segue existindo com força própria e afeta muita gente, incluídos provavelmente eu e você, que não priorizamos e nem temos orgulho de nossas contas bancárias. E, claro, os branquinhos, amarelinhos e negrinhos pobres em geral. O que digo é que especificamente os episódios de racismo dentro do futebol são muito menos comuns do que em outras áreas do próprio esporte, até porque o futebol já passou por isso, já pagou um preço alto em épocas bem mais bicudas.

Carles: Aprender dos próprios erros não deixa de ter o seu mérito. No caso da tenista francesa, não só recebeu as desculpas do jornalista como do porta voz da emissora. Por muito que o tal comentarista tenha “deixado escapar” durante a transmissão o que ele pensa no fundo, teve que corregir publicamente, empurrado por uma sociedade vigilante, que reprova esse comportamento. Repito que alguns ambientes, como o esporte, parecem mais lentos nesse aprendizado. Também pode ser que tudo fique mais exposto. Ou ambos. Evidente que o papel das mulheres no esporte deve ser de protagonista e não mais exibindo a placa do próximo round ou entretendo o público no intervalo, como cheerleader. Do contrário, seguirão existindo comentários como os de alguns meios durante os Jogos Olímpicos de Londres, sobre o corpo da nadadora australiana Liesel Jones, cujas formas “não atendiam aos padrões de beleza feminina”. Uma expectativa, no mínimo, injusta com o trabalho dela.

Edu: Certamente Bartoli, que segundo consta tem um quociente de inteligência muito acima da média, não se importou mesmo com a baboseira do sujeito da BBC, do contrário poderia ter elaborado uma resposta bem mais afiada.  De todo jeito, esses episódios mostram que alguns valores essenciais do esporte pregados com tanta ênfase antigamente – respeito, interação, força de caráter, boa convivência – estão correndo pelo ralo, e faz tempo, muito por negligência e despreparo de quem teoricamente forma opinião.

Carles: Um amigo meu diria que a culpa é do esporte de mercado.

Edu: Acho que conheço esse cara.

 

 

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