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Intriga, retaliação e passa-moleque

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

24 de outubro de 2013 | 14h56

Carles: Parece que Felipão andou fanfarronando, sem saber que seria ouvido por muita gente, em ambos continentes. Alvo de chacota por cair no trote de uma emissora de rádio espanhola, algo que pode acontecer com qualquer um, principalmente com quem anda ávido de manchetes. O maior problema é que, nessa história toda, ele pode estar sendo usado por Jorge Mendes, agente dele próprio e de Diego Costa, que nunca esteve tão valorizado no mercado. Vamos ouvir…

Edu: Nisso de bancar o adolescente birrento Felipão é especialista, ainda mais depois de ter levado um passa-moleque. Foram cutucar o gaúcho… A partir de agora, convocar Diego Costa já não tem nenhum motivo técnico, é pura retaliação aos espanhóis, mais até do que pela valorização do passe do sergipano, que já faz parte dos sonhos de Mourinho no Chelsea. O tal Mendes realmente é profissa e deve estar esfregando as mãos.

Carles: E uma eventual troca com Torres, ‘niño’ querido e idolatrado no Manzanares, amenizaria a perda do atual ídolo ‘rojiblanco’. Quem não deve estar nada feliz com essa história é a Hoppenworth & Partner, representante de esquecido Jô, talvez o jogador com a maior queda do valor de passe de ontem para hoje. Mourinho também é representado por Mendes, que costuma fazer do clube lá por onde seu compatriota passa, uma espécie de quintal particular. Quanto ao caso Diego Costa, os boatos correm soltos por aqui, dizem, inclusive, que tudo seria uma pantomima, que faz parte do processo protocolar em que Costa deve ser convocado pela sua federação original para que ele renuncie e fique livre para ser chamado por outra federação. Ou seja, as intervenções públicas de Scolari, mais uma vez, sobram, só alimentam as especulações e aumentam a crispação. Enquanto isso, Diego Costa demonstra uma maturidade muito maior, discreto e esperando que seja o seu momento de intervir e manifestar-se.

Edu: Tenho a impressão que Diego tem personalidade suficiente para assumir tranquilamente sua preferência e deixar esse barulho todo para quem vive disso.

Carles: Ou isso ou está muito bem assessorado…

Edu: É óbvio que a decisão dele está tomada e não é de hoje. Acontece que Felipão está se calçando para, mais tarde, ter justificativa para um possível desastre. Nem acho que, na hora H, ele prefira deixar o Jô de lado e levar Diego, por causa dessas manias de Família Scolari. Mas agora é hora de ‘fazer frege’, como dizia o sábio vô Rodolfo. Ainda mais depois que o tal programa da Cadena Cope põe um imitador do presidente do Atlético de Madrid para conversar com o Felipão e ele abre o jogo com a maior desfaçatez, se achando. Além de tudo se mete a dar conselhos ao clone do Enrique Cerezo, sobre o tal dinheiro extra que o clube madrileño supostamente teria que pagar a Diego se ele disputar a Copa.

Carles: Logo quem, humoristas de segundo time. Ele podia ter sido solícito e discreto, comportamentos absolutamente compatíveis. Justamente esse deslize, de querer aconselhar o suposto presidente ‘colchonero’, denota que Scolari não está disposto a garantir que Costa esteja na lista definitiva para a Copa. Por isso prefere aconselhar o presidente a não pagar ainda. E mais, avisa que vai estar em Madrid em dezembro. Para quê? Para colher os louros da glória ou para convencer Diego Costa? Olha, até pensei que todas as partes conheciam o desfecho desse episódio, o jogador, seu representante Jorge Mendes, a CBF, os dirigentes da Real Federación Española de Fútbol, Del Bosque… Pelo visto, é assim, só quem está boiando nesse assunto é o Felipão e, por isso, está se arriscando a ser um joguete nas mãos dos maiores interessados.

Edu: Não me estranha, Carlão. Felipão, campeão do mundo, técnico de equipes europeias, longa vivência no futebol, ainda tem uma assessoria rusticamente amadora. Também porque sua postura autoritária não permite outra opção. Felipe, aliás, não tem assessoria, tem porta-voz. Mas, neste momento da carreira dele, às vésperas do clímax que significa disputar uma Copa em seu próprio país, mais do que nunca precisaria de alguém de bom senso ao lado para dizer: ‘Professor, controle-se, não é hora de crispar’. Ou alguém mais chegado, Murtosa ou sei lá quem, para dar um puxão de orelhas: ‘Menos, Felipão, menos’.

Carles: Ele ainda acredita na força dos personagens. É cativo de um personagem marrudo, vociferador, na medida demandada por parte da sociedade brasileira. Imagino que não seja uma unanimidade, talvez nem tenha maioria, mas, sinto muito, existem poucas possibilidades de que vocês tenham uma alternativa até a data dessa festa tão importante. E apesar dele, o Brasil tem muitas chances de ser campeão. Aliás, nem posso imaginar o que aconteceria se não for assim. Pior, só se for por causa de um gol de alguém nascido no Brasil e jogando com outra camiseta. Ele, Felipão, já está preparando a desculpa, mas e o resto?

Edu: É o que veremos. Lógico que ele tem chances de voltar a ser campeão e, neste momento, tem esses ataques personalistas porque está em alta, ficou bem na foto depois das Confederações. Não duvido que a postura dele fosse aprovada por grande maioria se hoje tivéssemos uma pesquisa sobre o caso Diego Costa.  Depois, bom, depois é jogar com a negligência com que o brasileiro trata as questões de memória. Mas te garanto que sempre haverá gente para lembrar de toda esta balbúrdia sem sentido.

 

 

 

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