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¡Diez veces, sí señor!

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

24 de maio de 2014 | 20h44

Edu: Três motivos para La Décima: fortaleza mental, peso da camisa e variação de estratégia, não necessariamente nessa ordem. Uma decisão se ganha assim.

Carles: Não tenho certeza se vimos o mesmo jogo. Ou sim, porque é verdade que faltou fortaleza mental ao Atlético durante os 5 minutos finais do tempo normal, mais os 3 de descontos e os 2 inventados por Kuipers. Um castigo muito rigoroso, apesar de imperdoável. E olha que o Cholo gritava para o time sair da cova, mas parece inevitável para 99% dos times do mundo, nessas circunstâncias. Suficiente para tomar o empate, de cabeça, a primeira que o ataque (o zagueiro Ramos, na verdade) do Madrid ganhava por cima e justo quando os rojiblancos tinham três centrais em campo. Agora, o peso da camisa foi fundamental. Um alívio para Florentino e Josemari, flagrados comemorando o gol na tribuna. A variação estratégica, eu preciso que você me explique.

Edu: Prefiro nem me concentrar em quem estava na tribuna porque desqualificaria, por princípio, a qualidade do espetáculo. Em campo, gol nos descontos não só vale como ganha títulos e foi o resultado de um massacre durante todo o segundo tempo, ou quase, a partir das entradas de Marcelo e Isco, que puseram a bola no chão – essa foi a mudança estratégica -, já que Cristiano e Benzema não tinham explosão física para aproveitar contra-ataques. Desconfio que foi uma decisão conjunta de Ancelotti com Zidane. E a força mental esteve sempre pendente da força física. Não era humanamente possível para o exausto time do Atlético, ainda com a ressaca da comemoração da Liga, suportar aquela pegada toda, marca registrada do Cholo. Basta ver o nível de esgotamento com o qual terminaram a prorrogação ao menos uma meia dúzia de jogadores, o que talvez tenha levado automaticamente o time a recuar.

Carles: Concordo que no tempo prolongado o Atleti não teve pernas, mas não vi esse massacre, além de, é claro, as chegadas ao fundo do Marcelo o que não é mais do que a obrigação para um lateral moderno. Só precisam avisar o Coentrão disso. Faltou força física para 120 minutos depois de uma temporada com um plantel muito mais curto que o poderoso adversário. Logicamente essa meia hora não estava nos planos e mais uma vez dou a razão a você de que o gol nos descontos vale e foi legal. Mas foi um desfecho muito cruel para um time que provavelmente vai demorar outros tantos anos para chegar nessa final que tem alguns habituais frequentadores, como o Madrid. A decisão da prolongação é arbitrária e por isso o árbitro (sem trocadilho) não infringiu nenhuma regra, a não ser a de não considerar o esforço dos modestos e ser mais realista que o rei.

Edu: O Atlético não é o primeiro time a ser punido depois de uma temporada soberba e muita gente vai, com razão, considerar ‘uma judiação’ perder o título desse jeito. Só que castigos como esse, falta de equilíbrio emocional e de pernas para correr na hora decisiva são componentes tão corriqueiros do futebol que justificam plenamente qualquer resultado. ‘Injustiça’, vão dizer outros. Para quem cara-pálida? O Madrid não fez uma grande campanha? Não enterrou dentro de casa o favoritaço do ano, o Bayern? Também fiquei penalizado com o castigo ao Atlético, um clube que ganha poucos títulos porque investe na medida suas possibilidades, vive à sombra dos gigantões milionários e, por mérito próprio, deveria sair com o prêmio, como um símbolo de resistência e de trabalho duro em todos os sentidos. Até por isso, acho que esse time saiu da toca, fez uma temporada que é um marco em sua história, desestabilizou o equilíbrio de forças e pode mudar o que vier daqui por diante.

Carles: Não, não e mil vezes não. Recuso-me a engrossar o coro dos que insistem em normalizar uma situação que costuma penalizar o esforço e inclusive o melhor jogo, cinco minutos depois de finalizado o jogo. Faltou algo mais ao Atlético, mas faltou tudo ao Madrid, exceto fortuna, a deusa mais poderosa da competição. Quem sabe meu retrato está meio distorcido mesmo, pelo imediatismo da frustração que neste momento assola todo torcedor, menos os do time vencedor. O problema é que o passo do tempo vai ser todavia mais injusto porque vai apagar os detalhes desse jogo em que se o Atleti mostrou a inexperiência dos ganhadores pouco habituais e foi derrotado pela experiência dos que estão acostumados ao topo, praticamente  a única coisa que o Madrid ofereceu. O que não é pouco, suficiente para ganhar o título, mas não para me convencer.

Edu: Não sei aonde você quer chegar. Se o que foi visto em campo nesta Champions não o convenceu, quem sou para entrar nessa aventura. Estou bem menos envolvido emocionalmente e o que vi me parece senso comum. Atlético e Real Madrid foram, com sobras, os melhores times da Champions, derrubaram outros gigantes pelo caminho em um torneio que é disputado no fio da navalha, junto com as alucinantes ligas locais. E na decisão fizeram dois jogos em um, dois tempos distintos, nos quais o perdedor não pode se eximir de suas culpas, nem o vencedor punido por ser mais competente. É isso que você chama de normalidade? Então tudo bem. Eu já acho que nessas idas e vindas durante o tempo de jogo é que está a anormalidade do futebol. Ainda bem. Aliás, goleada em prorrogação é a essência do anormal.

Carles: Bom, eu estava falando da final, em nenhum momento me referi ao torneio, e nada a objetar sobre a melhor partida que o Madrid fez em anos, aquele de Munique. Tampouco vi idas e vindas, além das do placar. Talvez possa considerar que houve um jogo até o minuto 93, com um Real Madrid sem ambição e aproveitando algum erro do adversário para chegar, como o passe equivocado de Tiago. E outro depois do gol de empate, mas até isso é discutível. Os times de Madrid são, ao meu juízo, os justos primeiro e segundo colocado desse torneio, só não estou tão certo de que tenha sido na ordem mais justa, seja pelo curso total do torneio ou pelos 90 minutos da final. Objetivamente, tem razão quem diz que o jogo só acaba quando o árbitro apita o final. E o time do Manzanares esqueceu-se disso por uns minutos. Suficientes para perder o título mais importante da sua história.

 

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