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Digam o que digam, mas respeitem a Azzurra

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

20 de fevereiro de 2014 | 21h37

Carles: Depois do fracasso na África do Sul, Prandelli parece ter devolvido a confiança dos tiffosi na sua seleção, com um estilo de futebol renovado. Parece que Cesare tem crédito, a ponto de apostar todas as suas fichas em peças tão polêmicas como seu centroavante titular, Balotelli. O treinador declarou numa entrevista ao site da Fifa que Mario tem potencial ilimitado e cacife suficiente para ser campeão. Você imagina a Azzurra igualando o seu número de títulos mundiais aos do Brasil em pleno Maracanã?

Edu: Não, não imagino. Vai dar trabalho, certamente, até por jogar praticamente em casa, por causa da colônia, da simpatia dos brasileiros e por estar num grupo com a Inglaterra, que gerou muitas antipatias por aqui. Mas não é, hoje, um time de chegada, como em outros tempos. E Balotelli tem mostrado que gera mais desgosto do que ajuda. Para cada partida boa, some em outras cinco. Na verdade, todo mundo sempre fica esperando uma grande partida de Super Mário.

Carles: Não é time de chegada hoje, mas historicamente, nas vezes que chegou, costuma ser pelas beiradas e quando menos se espera, dá o bote. Em 2006 empatou com EUA no segundo jogo e como sempre, semeou a incerteza até que, na semifinal, derrubou a poderosa anfitriã, a Alemanha para ser campeã em cima da França, nos pênaltis. Em 1982, de triste lembrança para os brasileiros, a vítima foi o inesquecível timaço do Telê, em Sarriá, estádio que até já foi derrubado. No modelo mata-mata  de 1934 e 1938, os resultados raras vezes passaram da vantagem mínima, com exceção de um 7-1 aos EUA. Enfim, a Itália se transforma sempre num convidado inesperado e parece que, quando mais se espera deles, mais provável que acabem sendo recebidos ao molho de pomodoro por sua torcida. Para bem ou para mal, sempre surpreendem.

Edu: Ninguém tem dúvida de que é uma das poderosas, incomoda, merece toda a atenção, tem uma história imensa e respeitável. Tudo isso é verdade. Só que o lado bom de Prandelli – uma proposta ofensiva – não encontra respaldo no material humano. Quem hoje é um jogador brilhante na Azzurra? Pirlo aos 34? Pode ser. Balo? Nunca se sabe. E Buffon é uma garantia. Mas a grossa maioria do time tem jogadores razoáveis, de prestígio, mas nenhum craque indiscutível. De Rossi, Montolivo, Marchisio, Chlellini são todos jogadores importantes para dar consistência. Mas falta um fator de desequilíbrio. E a defesa está longe de ser aquela de outros tempos.

Carles: Obviamente que Prandelli não vai reconhecer publicamente, mas pelo visto o projeto dele não é a curto prazo já que fala com entusiasmo justamente dos seus jovens jogadores. Cinco ou seis, segundo ele, em que bota muita fé e cita Lorenzo Insigne, Alessandro Florenzi, Mattia Destro, todos com 22 anos, além de Mattia De Sciglio e Marco Verratti, ambos com 21 anos. Claro, insiste, apoiados na veteranice de Buffon e Pirlo e do Super Mário. Portanto, o mais lógico é pensar que ele não se ilude e que não espera o título para já, mas sabe perfeitamente que só um resultado digno da moçadinha no Brasil pode garantir o suficiente fôlego para garantir a continuidade do seu trabalho.

Edu: Aí pode estar o segredo da Azzurra, alguma possível surpresa, quem sabe. Mas duvido que Prandelli, numa situação dessas, vá abrir mão de De Rossi para escalar o ótimo Verratti, ou encaixar Insigne no lugar de algum figurão. Difícil. Se bem que Prandelli tem mostrado ser um tipo surpreendente, desde sua carreira modesta como jogador até o crescimento como técnico mesmo sem dirigir times de ponta.

Carles: Acho mesmo que o sangue novo vai ser necessário, já que a seleção italiana começa com o famoso jogo do dia 14 às 6 da tarde, em Manaus contra os simpáticos ingleses – que estão achando que jogam na selva. Depois, o Recife, a Costa Rica do glorioso Keylor Navas, atual herói do Levante. E para finalizar a fase de grupo, contra os também imprevisíveis uruguaios, em Natal. Nesse jogo poderia estar se decidindo quem passa como primeiro ou simplesmente quem passa. E a Itália poderia acabar nem jogando no sul-maravilha, apesar de ter escolhido uma cidade carioca para a concentração, não é assim?

Edu: Pode, até se passar para as oitavas, dependendo se for primeira ou segunda do grupo. Com tudo isso, tenho a impressão de que, no fundo, nunca descartaremos a Itália, por mais insípido que seja o time. Nenhum adversário, em sã consciência, escolheria enfrentar a Itália, se pudesse. Aquele país melodramático, que é capaz de gerar um Gramsci e um Berlusconi, quando o assunto é futebol é capaz de tudo.

Carles: Só de ler o nome de Antonio junto com o de Silvio, na mesma frase já dá calafrios. Essa é a Itália, contraditória e surpreendente, provavelmente o único pedacinho da Terra onde o caos pode parecer ‘affascinante’.

 

 

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