As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Direto da Pérsia, com paixão e política

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

07 de fevereiro de 2014 | 11h14

Carles: Fico pensando que a maioria dos jovens torcedores (e não tão jovens) que jogam ao ‘Prince of Persia’ no videogame, nem imaginam que os personagens são ancestrais dos iranianos, “temíveis” adversários de Messi e companhia na Copa.

Edu: Uma nação de rica história e uma seleção de muitas passagens marcantes, embora a maioria nem dê importância. O futebol é um esporte massivo no Irã, autêntica paixão nacional, e as classificações conquistadas para copas anteriores foram motivo de concorridas festas de rua em todos os cantos do país. Agora, um velho conhecido dos espanhóis está no comando do time, mas tem, como sempre, inúmeros problemas. Carlos Queiroz nem sabe se conseguirá amistosos até o Mundial e deve receber sua moçada 14 dias antes do primeiro jogo, contra a Nigéria. Será a temporada de treinamentos mais curta de todos os participantes.

Carles: Queiroz é um cara de semblante sereno, mistura da melancolia lusa e da fleuma britânica e pouco muda a expressão diante dos problemas – sofreu os caprichos da “casa blanca madrileña” na pele. E não é o único conhecido da “afición” local, principalmente da gente de Pamplona: Masoud Shojaei, agora no Las Palmas, e o veterano Javad Nekounam, que deixou bons detalhes técnicos e gols importantes durante seis temporadas. Principalmente o famoso gol do Osasuna na prorrogação da Copa da Uefa de 2007, que eliminou o Girondins de Bordeaux, o que permitiu aos ‘pamplonicas’ passarem às oitavas de final para eliminar o Leverkusen e chegarem à semifinal. Uma proeza histórica para o clube, na que Nekounam teve muito peso.

Edu: Masoud e Nekounam foram os pioneiros nessa ponte entre Teerã e o reino de Navarra. Ambos jogavam no Osasuna quando do famoso protesto nas eliminatórias da última Copa, no qual alguns titulares entraram para enfrentar a Coreia do Sul ostentando munhequeiras verdes, a cor da oposição comandada por Mir Houssen Mousavi  contra o governo de Mahmoud Ahmadinejad. Quatro dos seis que protestaram foram banidos para sempre do futebol, todos jogavam no Irã. Os osasunistas escaparam. Nessa país de tantas tradições, rupturas e lutas sociais e religiosas, futebol e política definitivamente andam juntos.

Carles: O establishment, contando com a inestimável força dos grupos de comunicação conservadores, conseguiu transformar o governo de Ahmadinejad numa das grandes referências do quadro político mundial contemporâneo. O apoio ou a oposição ao líder iraniano vira diretamente uma declaração de intenções de qualquer estadista. Isso, claro, não passou em branco por aí também e imagino que pode haver algum tipo de manifestação prevista em torno ao assunto. Já em campo, o mais previsível é que o time seja mais bem inofensivo, não? Nas outras três participações, a seleção do Iran não passou da fase inicial, com a diferença de que em 1998, na França, conseguiu a terceira posição do grupo, à frente dos Estados Unidos a quem venceu por 2 a 1, uma vitória muito comemorada e não só pelos iranianos.

Edu: O Irã será uma atração por si só, mais que uma curiosidade, até em função da grande colônia muçulmana por aqui. Ficará hospedado em São Paulo, perto do Aeroporto de Guarulhos, e fará sua preparação no Centro de Treinamento do Corinthians, também ali a pouco mais de cinco quilômetros do Aeroporto. Pode não parecer, mas o futebol do Irã conseguiu construir um currículo razoável de participações internacionais, graças principalmente a jogadores que saíram para conquistar a Europa, muitos deles na Alemanha nas décadas de 1990 e 2000, além dos ‘espanhóis’. E a seleção não foi mais longe porque ficou praticamente uma década fora de tudo, primeiro com a Revolução dos Aiatolás, em 1979, e depois com a guerra contra o Iraque. É atração garantida, pode ter certeza, mas não acredito que vá haver alguma manifestação.

Carles: É, acho que Obama já tem bastante dor de cabeça com o Tea Party. Voltemos ao terreno de jogo, do futebol, quero dizer – historicamente, a melhor classificação do futebol Irani no Ranking Fifa foi o 19ª, em 2005. Atualmente ocupa o 34ª e seus adversários de grupo são Argentina, 3ª; Bósnia, 19ª e Nigéria, 41ª. Você acha que existe alguma esperança de vê-los na próxima fase, contando com o apoio de uma colônia (e mais colônias afins) razoável?

Edu: Nem o mais otimista torcedor do mundo árabe espera que o Irã passe de fase, mas estar quase um mês convivendo com os grandes times do mundo já justifica, nas palavras do próprio Queiroz, que andou no fio da navalha nos últimos meses, justamente por causa das críticas sobre a falta de apoio na preparação. Claro, por lá, qualquer crítica não fica no mundo do futebol, é questão de estado, e o português sabe disso. Só é de se lamentar que os iranianos não farão nenhum jogo em São Paulo, a comunidade terá que se deslocar para Curitiba, Salvador ou Belo Horizonte, onde o time vai pegar a Argentina.

Carles: Boas praças, sem dúvida e certamente, os torcedores iranianos vão se divertir muito. E como a maioria dos descendentes de qualquer colônia radicada no Brasil tem uma longínqua lembrança e um conhecimento seletivo de costumes. O esporte, como a música ou a culinária, segue mantendo vivos os tênues laços culturais de gente que, no caso do Brasil, foi para ficar.

Edu: Fiquemos então, já que você citou aquela partida de 1998, com estas imagens do ‘jogo da paz‘, um dos momentos mais marcantes da história das Copas do Mundo, quando Irã e Estados Unidos fizeram um embate cheio de ameaças, nuances políticas e crispações fora de campo, mas que se transformou em uma grande confraternização entre os jogadores, bastante disputada mas sem nenhum lance violento e com participação emotiva das torcidas no estádio de Lyon.

 

 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.