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Do berço do WikiLeaks, o patinho feio no caminho da Espanha

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

16 de maio de 2014 | 20h42

Carles: Outro dia, durante um acalorado debate sobre qual seria o maior nome australiano a vestir a camisa da seleção de futebol, foi inevitável surgirem os nomes de Viduka e Kewell – para os fãs do Pro Evolution Soccer ‘02 -, do ex-rojillo Aloisi ou o do já veterano meio-campista artilheiro Tim Cahill. Sem chance, a escolha recaiu sobre um famoso australiano que recentemente vestiu a camisa canarinho: Julian Assange. Será que, depois da Copa, a Austrália vai deixar de ser conhecida no Brasil só por ser terra dos cangurus, do bumerangue e do homem WikiLeaks?

Edu: No futebol eles já têm um título: o de o país que mais vezes disputou repescagens na vida.  Só na Copa de 1994 foram duas, contra Canadá e Argentina, e ficaram de fora, claro. Assange é fã declarado de futebol, como o australiano em geral. Aquela é uma nação essencialmente esportiva e tem sido um mistério entender a lenta evolução técnica no futebol, ainda mais com raízes tão britânicas. Só a concorrência do rugby não justifica. Chegam apenas a sua terceira Copa, a segunda seguida, o que pode ser um bom sinal, desde que o bilionário Frank Lowy, um investidor mundial em redes de shoppings centers, assumiu a Federação Australiana há pouco mais de uma década e deu uma repaginada no campeonato local. Mesmo assim, a Austrália será um dos patinhos mais feios da Copa – e total café com leite no grupo dos campeões mundiais.

Carles: Supomos por aqui que o último jogo do grupo, em “casa”, contra a Austrália vai ser como um respiro, num grupo que tem a vigente vice Holanda e o Chile, uma das seleções que mais evoluíram nos últimos tempos e que joga 90 minutos com a mesma intensidade. E mais, esperamos que esse jogo não sirva para nada além de decidir se a Roja termina em primeiro ou segundo no grupo. Falando em repescagem, imediatamente vem à mente o enfrentamento entre Austrália e Uruguai que, desta vez, e numa hipótese mais do que remota poderia acontecer nas quartas. Os australianos conseguiram evitar o já tradicional confronto, mudando de continente! Algo que, desde a teoria da Pangeia, só uma Copa conseguiu.

Edu: Foi justamente Frank Lowy, um dos líderes da comunidade judia de Sydney, que propôs essa mudança, como forma de disputar um torneio eliminatório mais competitivo, o da Ásia, e ao mesmo tempo se livrar da repescagem para a Copa. Lowy fez boas coisas no futebol australiano, montou um campeonato com dez equipes, quase todas recém fundadas, e ultimamente investiu em jogadores veteranos da Europa, mais ou menos como os americanos fazem. Conseguiu, com isso, que o campeonato local fosse transmitido por televisão para 60 países, entre Oceania e Ásia. Hoje estão por lá vários velhões de peso, como Alessandro del Piero e o francês William Gallas, ambos perto dos 40. Alguns ingleses também foram, caso de Emile Heskey, aquele atacante padrão ‘armário’, que chegou a disputar dois mundiais pelo English Team, inclusive o da África.

Carles: A maior conquista do combinado australiano foi justamente um título de vice-campeão, no pódio que tinha a seleção brasileira na posição mais alta, a terceira edição do Confecup, última disputada na Arábia Saudita. Na final, o Brasil meteu o mesmo resultado do último jogo entre ambas as seleções, 6 a 0, mas na semi, adivinha quem era o adversário e que vestia celeste e perdeu com um gol justamente de Kewell nos descontos? O mesmo Harry Kewell que formou uma famosa dupla no Leeds inglês com o conterrâneo Viduka no final dos 90, depois passou pelo Liverpool e recentemente se aposentou, fazendo ainda seu último gol pela seleção num jogo em 2012, num jogo válido pelas eliminatórias da Copa 2014.

Edu: O atual técnico, Ange Postecoglou, cidadão australiano nascido em Atenas, encarregou-se de aposentar alguns veteranos com a intenção de renovar o time, mas conseguiu só em parte. Kewell foi um dos jubilados e mais recentemente o treinador abriu mão do capitão Lucas Neill, quase cem jogos defendendo a Seleção. Mas para o Brasil ainda trará alguns mais experientes, como o provável novo capitão, já citado por você, Tim Cahill, 34 anos, e o interminável Mark Bresciano, aquele carecão que andou pelo futebol italiano mas continua dando um gás no time nacional, também com 34 anos. Pena que não veremos no Brasil o goleiro reserva do Chelsea, que aos 41 andou aprontando das suas na Champions: Mark Schwarzer. Também foi um dos rifados por Postecoglou.

Carles: Pois é, Mourinho tratou de homenagear o quarentão dando-lhe a confiança e o posto de titular no segundo jogo contra o Atleti, mesmo com o jovenzinho e titular Čech já recuperado da contusão. Com uma media de entre 12 a 14 horas de diferença entre Brasília a Sidney (de costa a costa), a maioria dos australianos estarão começando o sabadão quando a sua seleção, atual 59ª no ranking Fifa, estiver entrando em campo em Cuiabá, na sexta-feira 13 de junho, para enfrentar a seleção do Chile, 13ª. Demasiados trezes para uma cultura anglo-saxã talvez.

Edu: Quem sabe por essa razão eles serão os primeiros a desembarcar no Brasil, para digerir as superstições e ter tempo de aclimatação suficiente: chegam no dia 28 de maio, 15 dias antes da abertura da Copa. Férias antecipadas, talvez, para depois tentar alguma surpresa. E vão se concentrar em um lugar ‘descontaminado’ em matéria de Copa, Vitória do Espírito Santo, longe de qualquer agito. Como outras seleções desse padrão, serão mais uma atração simpática e exótica do que uma equipe para ser levada a sério.

Carles: Na ausência da seleção brasileira,  os capixabas  certamente vão entrar no coro de go socceroos!

 

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