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Do campo para a telona

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

09 de fevereiro de 2013 | 09h54

Carles: Cinema ou futebol?

Edu: Cinema e futebol.

Carles: E filmes sobre futebol? Qual o seu favorito? É difícil assistir a sequências de jogo críveis que talvez nem sejam essenciais para contar uma boa história sobre o esporte.

Edu: Os argentinos abordam o futebol melhor que os cineastas brasileiros. Por aqui há poucos que merecem lembrança, ‘Boleiros’ e alguns documentários, não muito mais que isso…

Carles: Boleiros é aquele das velhas glórias do futebol em volta de uma mesa de bar?  Se é esse, gostei muito.

Edu: Isso, tem uma linguagem bem apropriada, o que já é uma vantagem em relação a outras tentativas.

Carles: Ah, claro, do Girogetti! E ‘The Danmed United’, você viu? Sobre as glórias e principalmente penas de um treinador, interpretado Michael Sheen, é um dos meus favoritos.

Edu: Não vi, mas verei.

Carles: Vale a pena, gosto da forma como os britânicos mostram o futebol na telona. Inclusive, confesso, certa quedinha por (não ria) ‘Fuga para a Vitória’.

Edu: Direção de John Huston. É tão brega que virou um objeto de admiração. E para quem gosta de futebol tem algumas peculiaridades engraçadas.

Carles: E com um Michael Caine bastante canastra, mas gosto de ver as jogadas combinadas entre Bobby Moore e Ardiles. Tem também aquela sequência impressionantedo Campanella, no estádio,para o oscarizado “El secreto de sus ojos”. Veja só: http://www.youtube.com/watch?v=MtB117zNC2E

Edu: É o que digo dos argentinos. Eles conseguem passar esse ambientão, o magnetismo. E quase todos os filmes tem algo da torcida.

Carles: Antes ele tinha feito um filme singelo sobre um clube de bairro, aliás a base do futebol argentino, como os clubes cariocas, são as agremiações de bairro. O filme era ‘La luna de Avellaneda’.

Edu: Luna é o nome do clube né?

Carles: Conta um pouco a história das dificuldades desses clubes para se manterem e resistirem à pressão de grupos financeiros que querem transformar os estádios das metrópoles em Shopping Centers ou condomínios.

Edu: Coisas de Campanella. Há também um espanhol, de mais ou menos uma década atrás, que virou cult, por retratar a Espanha da pós-transição e da pré-crise. A conexão com o futebol é pano de fundo. Chama-se ‘Días de Fútbol’.

Carles: É da fase dos filmes daqui, meio musicais, falando da geração dos mileuristas, com algumas mudanças de hábitos, em vez de se casarem de véu e grinalda, os casais passaram a compra um apartamento em sociedade. Tem também Looking for Eric, do Ken Loach. O Eric do título é o Cantona.

Edu: É outro que preciso ver. Vocês ainda têm mais acesso a filmes alternativos por aí. Essa é a dura verdade.

Carles: Dura mesmo, não é nem um problema de demanda no Brasil. É problema de distribuição que não permite ver muitos dos filmes europeus. Chegam os americanos e não chegam os europeus. Pois esse filme é muito divertido e o Cantona faz o papel de uma aparição para um carteiro, fanático torcedor do Manchester United.

Edu: Aliás, estão falando bem do documentário sobre o Manchester. Do desastre de 1958, a queda do avião em Munique.

Carles: Há bons documentários. Inclusive entre os documentários oficiais das copas, eu destacaria aquela cena do jogo Inglaterra e Argentina no Mundial de 1966 em que o Rattin é expulso e a câmera vai acompanhando a sua saída de campo junto com o massagista enquanto eles seguem o jogo. Os lances da partida não aparecem, só tem música de fundo e o olhar atento dos dois.

Edu: É impressionante essa tomada. Uma cena clássica.

Carles: Mais um espanhol, o nome é ‘El portero’.

Edu: Opa, claro. Com Maribel Verdu.

Carles: É a história de um goleiro de primeira divisão que é obrigado a deixar o profissionalismo com a chegada do regime franquista e ganha a vida uniformizado de goleiro dos 40, boina e tudo, em sua camionete de cidadezinha em cidadezinha, desafiando os moradores locais a uma disputa de pênaltis por uns trocados.

Edu: Se bem me lembro o cenário é Astúrias…

Carles: Exatamente. Luz típica, dias chuvosos e sombrios, acentuando a tristeza do momento e as circunstâncias.

Edu: E, se você não viu, sugiro outro, ‘Rudo y Cursi’, mexicano… Gael Bernal é meio tosco jogando bola, mas a história é interessante, sobre dois irmãos que enfrentam as pressões do mundo do futebol profissional…

Carles: Anotei.

Edu: Acho que temos um bom menu. Mas o Brasil ainda está devendo um grande filme sobre futebol.

Carles: Concordo, a linha de boleiros é um veio interessante.

Edu: Então assista ‘Boleiros 2’. Como sempre acontece com as segundas partes não tem o charme do primeiro, mas ainda assim vale a pena.

Carles: Devemos ter esquecido de alguns importantes, mas quem sabe os amigos de 500a.C. nos ajudem a lembrar…

 

(*) Os filmes citados:

Boleiros na íntegra: http://www.youtube.com/watch?v=iU4NyREZxWQ

Boleiros 2: http://www.youtube.com/watch?v=H0ppgt8KazE

The Damned United: http://www.youtube.com/watch?v=aI434PkkQUI

Fuga para a vitoria: http://www.youtube.com/watch?v=pDVJN-25E4M

Making of da cena de ‘El secreto de sus ojos’: http://www.youtube.com/watch?v=OBeYm2aPKCw

Luna de Avellaneda: http://www.youtube.com/watch?v=B2ZnKwQA33U

Días de futbol: http://www.youtube.com/watch?v=NmWpNYhK67U

Looking for Eric: http://www.youtube.com/watch?v=xzUddao92JQ

Inglaterra x Argentina, Copa o Mundo 1966: http://www.youtube.com/watch?v=1QVUKwpGwno&feature=endscreen&NR=1

El portero: https://www.facebook.com/video/video.php?v=3574525676345

Rudi y Cursi: http://www.youtube.com/watch?v=zAMlwcJchoQ

 

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