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Do sol nascente para a Confecup

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

07 de junho de 2013 | 11h12

Carles: Dentro de uma semana é para valer. E justamente entre os dois únicos times já garantidos para a Copa 2014.

Edu: O Brasil tem um histórico bem favorável contra os japoneses, mas já penou em muitos jogos, principalmente em torneios de jovens. E esta seleção foi de certa forma renovada pelo Zaccheroni.

Carles: Nem me fale de torneios de jovens que eu me lembro do Espanha-Japão da última Olimpíada.

Edu: Eles dão trabalho né?

Carles: Meteram 1 a 0 justo nesse grupo de jogadores de ‘La Rojita’ que começou a disputar o Europeu Sub-21 em Israel, esta semana.

Edu: Mas quando viram profissionais, os japoneses não têm segurado o rojão. Nas poucas vezes que vi o atual time me pareceu bastante conservador, como convém a um técnico como o italiano. Tudo gira em torno do Kagawa e dos outros mais experientes do time, os meias Honda e Yasuhito Endo.

Carles: Eles sabem que é mais uma fase de um projeto a longo prazo e que, por enquanto, não convém inovar, nem pretender fazer nenhuma revolução tática. A hegemonia da região já é uma grande conquista. Normalmente, a seleção japonesa não tem nenhuma dificuldade em superar as fases classificatórias, são líderes em número de títulos continentais, ganhadores de três das últimos quatro edições da Copa da Ásia.

Edu: Mesmo assim é um grupo de jogadores muito mais ocidentalizado hoje do que há algumas copas. Falamos tanto aqui em adaptação cultural dos nossos jogadores na Europa, mas certamente para estes japoneses a transição é duplamente complicada, embora os asiáticos sejam muito mais resistentes e, mais que tudo, predispostos a conviver com novos cenários sociais. O time atual tem vários jogadores com experiência na Alemanha, Holanda e Rússia. O próprio Kagawa teve uma passagem brilhante pelo Dortmund antes de se transferir para o Manchester. Imagino que esse tipo de jogador seja referência para a seleção não só em função do aprendizado técnico, mas como padrão de experiência bem sucedida.

Carles: Verdade, contudo, imagino, eles são conscientes de que, mais do que pelo futebol, em alguns casos, atraem o interesse de clubes europeus como chamariz para mercados de muito peso. Por aqui tivemos Iroshi Ibosuki, que passou por vários times de segunda divisão até ser contratado pelo Sevilla e agora joga na Bélgica.

Edu: Essa ligação com o mercado asiático, que é obvia e crescente, mas tem mão dupla. Shinji Kagawa, ganhando cinco milhões de libras por ano, não deve estar muito preocupado com a exploração que o Manchester faz, e de forma bem competente, do mercado nipônico.

Carles: Um mercado que ajuda muito, por exemplo, a que o presidente do Madrid, Florentino Pérez, tome suas decisões na hora de contratar seus galácticos. Só com a venda de camisetas e outras “baratijas” na região asiática, ele recupera boa parte o capital investido. Aliás, as excursões de pré-temporada à Ásia sempre provocaram um ou outro atrito entre diretorias e atletas que, alegam, são muito desgastantes. Para os cartolas, as cifras merecem o esforço. Dos outros.

Edu: Aliás, estão preparando o mercado asiático para o novo galáctico da Catalunha. Neymar assinou com aquela empresa inglesa de marketing que ‘vendeu’ Beckham por aqueles lados. A realidade é que o Japão entrou de vez no circuito do futebol, como de outros esportes, mas ainda falta o grande salto. Zico, que conhece como poucos o futebol japonês, como jogador e técnico, disse uma vez que eles têm todos os requisitos – organização, disciplina tática, dedicação, predisposição ao novo -, menos um: há uma barreira técnica difícil de transpor, que se nota no momento em que enfrentam equipes tradicionais. É o estágio mais complicado entre o time-surpresa e o time de verdade.

Carles: Os números indicam que mesmo em fim de carreira e, agora, aposentado, Beckham segue sendo o campeão de vendas por lá. Nenhuma surpresa. Se David não existisse, algum desenhista de Mangá teria pensado em criá-lo. Rosell, o presidente ‘culé’ mais parecido com Florentino que já existiu, não perderia essa oportunidade. Neymar tem a imagem e a história perfeitas para vender milhões no Japão, Coreia, China… Se eu não soubesse que ele está sendo absolutamente sincero nas suas declarações carregadas de humildade e espírito de superação, dignas de um lutador shaolin, eu diria que fazem parte de um roteiro previamente escrito. Ah, não podemos esquecer o pioneiro nessa coisa de exportar a grife do sol nascente ao mundo ocidental: Nakata, com um relativo e merecido êxito no Calcio e na Premier.

Edu: Bem lembrado, foi um desbravador. E responsável por criar, de alguma maneira, um mercado fixo no Calcio, que tem hoje japinhas bem menos brilhantes como Yuto Nagatomo, lateral voluntarioso da Inter de Milão, e  Morimoto, do Catania, que cumpre sua sétima temporada na Itália. Este último nem virá à Confecup.

Carles: É possível que as carências às que o Zico se refere sejam, em parte, fruto da concorrência de outros esportes entre as crianças orientais, em que pese o esforço em difundir e implantar o futebol entre os estudantes. Essa pode ser uma das razões pelas quais o futebol feminino vem ganhando adeptos em países como Japão, Estados Unidos e onde ainda exista uma preferência dos meninos por esportes coletivos com maior tradição nacional. E elas, pelos resultados, estão aproveitando a brecha muito bem.

Edu: Tem tudo a ver. No masculino, porém, há um permanente pré-julgamento do lado de cá sobre a limitada capacidade física dos japoneses no que diz respeito à estatura. Na semana passada, alguém, numa entrevista da comissão técnica da Seleção Brasileira, lembrou que as jogadas pelo alto podem ser decisivas contra o Japão. Não será nada estranho se, na semana que vem, Felipão gastar mais da metade do tempo treinando cruzamentos para a área. Ele adora essa jogadinha primitiva.

Carles: Aos Felipões e Mourinhos sempre restarão as bolas paradas.

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