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Dos Balcãs, riqueza de estilo e muita história para contar

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

12 de fevereiro de 2014 | 21h26

Carles: Na Copa teremos um estreante que vem dos Balcãs, um tema que sempre me interessa pelas lições que a história dos povos dessa região podem nos dar. E o futebol funciona como um grande mirador ao alcance de quase todo mundo, que permite perscrutar e perceber que nem sempre da quantidade se tira a qualidade.

Edu: E que estreia, no Maraca e contra Messi! A Bósnia foi uma das nações da antiga Iugoslávia mais penalizadas com a guerra. Até hoje há os núcleos atuantes de sérvios e croatas dentro do próprio país, enquanto os bósnios buscam afirmar sua identidade para o mundo. O futebol tem sido um bálsamo e a classificação para a Copa foi muito festejada em Sarajevo, apesar de os meios de comunicação ainda dominados em parte por sérvios e croatas terem praticamente ignorado a conquista de Dzeko e sua rapaziada.

Carles: Mais além da consternação pelos conflitos, dos dramáticos processos de segmentação e da devolução da autonomia aos povos originais, é importante ressaltar que as repúblicas que um dia formaram a Iugoslávia foram demonstrando através do esporte que a divisão acabou por multiplicar as suas possibilidades. As equipes iugoslavas sempre ofereceram um estilo de jogo elegante, estético e pouco corrompido pela tentação de serem mais competitivo. E essa vocação parece herdada por seus estados que cada vez se mostram mais competentes, sobretudo com boas campanhas da Croácia e, a progressiva evolução dos demais – Sérvia, Eslovênia e Montenegro tinham chance de classificação até as últimas rodadas. Quanto aos os bósnios, para muitos, a agonia da classificação, a apenas 20 minutos do final do jogo com o gol de Ibišević contra a Lituânia, equivale à emoção de 5 de Abril de 1992, quando finalmente esse território com pouco mais de 4 milhões de habitantes foi reconhecido como país.

Edu: Desde muito antes dos conflitos, o estilo iugoslavo tinha reconhecimento internacional e é um dos motivos de orgulho dessa gigantesca legião de jogadores que se espalhou pela Europa. São, de verdade, embaixadores de um estilo e levam consigo histórias de vida bastante dramáticas. O próprio Dzeko, quando garoto, foi morar com a avó porque teve a casa bombardeada no início da década de 90. A Seleção Bósnia é hoje um puzzle com várias figurinhas espalhadas pelo mundo, não tem ninguém atuando nos clubes do país, mas seus jogadores reafirmaram, logo após a classificação, que era uma questão de honra levar a pequena nação balcânica à sua primeira Copa. E  que os hermanos fiquem de olho porque, ao lado de Dzeko, tem jogadores como Miralen Pjanic, hoje o cérebro da Roma, e um ponta à moda antiga, Lulic, da Lazio. Sem contar jogadores muito experientes, um dos quais vocês conhecem bem daquela passagem por Sevilha, Emir Spahic, capitão do time.

Carles: Os futebolistas da península, de diferentes origens, seguem se confundindo nas diversas ligas, tanto que Emir Spahic jogou durante muito tempo na Croácia, antes de passar pelo Montpellier e vir para o Sevilla. Ele tinha contrato até o fim desta temporada, mas como Unai Emery não lhe dava muitos minutos e a Copa se aproximava, decidiu romper o compromisso e a última notícia que tive dele é que tinha aceitado uma proposta do Anzhí Majachkalá, velho conhecido de Willian. Antes de deixar o clube hispalense, Emir trouxe o companheiro de seleção Miroslav Stevanović, que acabou jogando na segundona, no Deportivo Alavés, depois de passar pelo Elche. Nem todos os balcânicos demonstram a capacidade de adaptação do croata Ivan Rakitić ao “salero” andaluz.

Edu: Com toda essa rica experiência de vida andando pelo mundo dá a sensação de que eles têm uma história a construir nesta Copa. Os líderes do projeto são o próprio Spahic, hoje transferido para o Leverkusen, e principalmente o técnico Safet Susic, este considerado o maior jogador nascido no hoje território bósnio em todos os tempos. Susic foi um meio-campista representante clássico do modelo iugoslavo, disputou duas copas, uma delas a de 1990, quando compunha o setor de criação com outro craque muito conhecido na Espanha, Robert Prosinečki. E é considerado pela torcida do Paris SG o melhor jogador da história do clube, à frente de nomes como Ronaldinho Gaúcho e George Weah. É um treinador bastante rígido quanto a princípios táticos e tem proposta nitidamente ofensiva. Mas por aqui, a notícia que mais teve repercussão foi o anúncio feito por ele de que os jogadores ficarão de quarentena durante a Copa. Nada de sexo, nada de passeios, nada de saídas com a família, só concentração ao estilo mais tradicional. E olha que o quartel-general deles é o Guarujá.

Carles: O próprio Prosinečki, figura pitoresca e um dos clássicos da liga espanhola nos anos 90, foi jogador do Sevilla, além do Oviedo e de ter sido uma das figurinhas carimbadas que conseguiram vestir a camisa dos dois grandes clubes rivais, Real Madrid e Barça. Quanto à decisão de Susic, é uma pena que ainda tenhamos que conviver com pensamentos desse tipo. Já falamos aqui que uma das coisas que menos favorece o desempenho dos jogadores é a dificuldade de conciliação da atividade profissional de alta competição com a vida familiar. Pode ser que se trate de um erro estratégico de novato.

Edu: A explicação dele para a decisão foi sua própria experiência da Copa da Itália, quando, segundo ele, a Iugoslávia poderia ter ido mais longe não fossem alguns exageros da moçada. Seja como for, a Bósnia tem ótimas chances de passar à segunda fase. Se não conseguir aprontar uma surpresa no Maracanã, não deve ter problemas contra os adversários seguintes, Nigéria, em Cuiabá, e Irã, em Salvador. No mínimo, os bósnios vão experimentar um calor que nunca imaginaram existir – exceto Spahic por conta de sua aventura sevilhana.

Carles: Ele está falando de 1990… pelas minhas contas, já faz disso 24 anos!!! Como curiosidade, Susic não chegou a defender as cores da sua Bósnia como jogador, enquanto seu companheiro de meio campo Iugoslavo naquela Copa, Prosinečki, passou a defender a Croácia. Imagine como será complicado processar toda essa informação.

 

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