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E Kaká deu um basta

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

29 de agosto de 2013 | 19h18

Edu: Bem estranha essa história do Kaká. De repente o bom moço resolve reagir e dar um basta.

Carles: Mais estranho é ficar tanto tempo acomodado, demonstrando ambição profissional zero. Imagino que o salário é importante, mas um cara jovem como ele tem (ou tinha) ainda muita vida no futebol pela frente.

Edu: Tenho minhas dúvidas de que foi simplesmente uma atitude ambiciosa. A três dias do fechamento da janela de transferências, depois três anos na sombra, numa situação bem pouco digna, enfim resolve se manifestar? Tem todo jeito de ser um jogo de cena acertado com o Real Madrid, que já deve ter um destino para ele. Do contrário, duvido que Kaká não suportasse mais um ano ganhando 9 milhões de euros para jogar alguns minutos de vez em quando.

Carles: Será que ele perdeu toda a motivação pelo jogo? Não é pouco frequente essa situação no esporte de alta competição. A força de vontade do próprio atleta costuma ser insuficiente e é inevitável o empurrãozinho desde o seu entorno. Não sei porque me vem à lembrança aquela final do Open de Austrália em que Nadal venceu Federer e este caiu em prantos. Minha impressão é de que ele só reagiu porque as pessoas que tinha a sua volta trabalharam pela sua recuperação. A sensação é de que o verdadeiro Roger se parece mais com aquele de Melbourne e que Mirka tem muito a ver com tudo. O caso de Kaká é algo assim, mas com efeito contrário?

Edu: O entorno familiar dele é muito participativo e por isso dá a impressão de que tudo é bem pensado. Em 2010, quando Kaká foi para a Copa do Mundo, era o melhor jogador do Brasil, a referência da Seleção, liderança técnica e tudo o mais. Era sua terceira Copa e muito se esperava dele. O corpo não ajudou e já ali, quando apresentava problemas no joelho e dores crônicas no púbis, chegou a se divulgar por aqui que Kaká não tinha mais jeito, que se continuasse a jogar seria um atleta diferente, mais contido, sem a mesma força física. Kaká ficou muito perturbado na época com a divulgação de seus problemas, algo fora do normal para alguém tão certinho e equilibrado como ele. Mas já era um sinal definitivo do que viria depois. Manter-se no Real Madrid, um time de ponta, com status de popstar era o melhor para ele, ainda que jogasse pouco. Tanto que surgiram propostas de centros menos expressivos (como a Turquia) e ele preferiu ficar por aí. Não me parece que agora, aos 31 anos, Kaká tenha tido um surto. Certamente há algo seguro para ele que será anunciado nos próximos dias. Não deve ser algo de primeira linha, mas pode ser um clube médio inglês, por exemplo, ou um Mônaco da vida, quem sabe?

Carles: Ou eu entendi mal ou você está dizendo que o Milan mandou um dardo envenenado para o tio Floren. Ele veio bichado e eles sabiam? E 9 milhões por ano sabendo que não se tem condições de jogo não está nada mal.

Edu: Não veio bichado porque, quando chegou, em 2009, vinha de grandes temporadas e tinha tudo para dar certo. Acontece que Kaká é um tipo de jogador raríssimo, que reúne qualidades técnicas impressionantes mas depende muito de sua explosão física. Não é um cara que faça bem as coisas sem velocidade, não sabe jogar parado, embora domine a maioria dos fundamentos. Era de se esperar uma certa decadência física mais perto dos 30 anos porque ninguém aguenta fazer o que ele fez no Milan por muito tempo. Mas aí surgiram outras questões físicas, além dessa do púbis, que é o tipo da lesão crônica por excesso de esforço.

Carles: Encontrei com ele num evento em Valencia, se não me engano no final de 2009 ou início de 2010. Foi longo e ele deu muitas entrevistas, ficou muito tempo sentado e lembro como, a cada cinco minutos, um dos integrantes da sua corte se aproximava bastante preocupado, perguntando se ele estava bem das costas. Ele respondia que estava bem mas não deixava de fazer cara de dor e tentava alongar um pouco. Na época não dei muita importância, mas ele nunca voltou a fazer uma sequência de minutos ou jogos importantes.

Edu: Então, coincidimos. Que ele tinha problemas sérios, todos sabiam. Kaká é um jogador com toda a estrutura moral e pessoal que se pode exigir de um sujeito politicamente correto. Certamente foi nisso que Florentino e o Real Madrid se apegaram nesse tempo todo em que ele, ganhando o que ganha, não rendeu o esperado. Era, mesmo assim, um excelente garoto propaganda dos valores do Madrid. Só mesmo essa estrutura pessoal para fazer com que Kaká reagisse com mais tranquilidade às adversidades, à falta de minutos, a Mourinho, às contusões e outras tantas coisas. Talvez agora, com os problemas físicos mais sérios resolvidos, ele até consiga render em um clube razoável, ainda que fora da zona mais glamourosa. Ou então voltar para o Brasil, como tantos outros.

Carles: Tanto que os mais “brilhantes” torcedores do Madrid vivem dizendo que ele é um peso morto, que sai muito caro, quando eu acho que com as campanhas publicitárias e promocionais que ele fez e seguiu fazendo, mesmo inativo, deve ter pago o investimento com sobras. Agora, obviamente, a imagem dele como atleta está mais do que desgastada e dificilmente participa das ações comerciais. Talvez seja essa a pressa do Floren.

Edu: Aquelas vaias que ele recebeu vaias no jogo em homenagem a Raúl devem ter sido decisivas para que o próprio Kaká se mexesse e buscasse um acordo com o clube, provavelmente com a ajuda de Ancelotti. Kaká tem uma proposta para daqui dois ou três anos, antes da aposentadoria: deve jogar nos Estados Unidos, no novo time profissional que está sendo montado na Flórida, o Orlando City, cujo proprietário é um empresário brasileiro. Mas, até lá, não duvido que ele se ajeite por aí em algum clube coadjuvante e ainda dispute com sucesso uma ou duas Champions. Talvez isso renove sua autoestima e sua motivação.

Carles: Se as condições físicas dele não são as melhores, provavelmente sua transferência para um clube acostumado às fachadas, leia-se os franceses biônicos, possa revigorar sua imagem comercial o suficiente para tirar rendimento e compensar o investimento para ambas partes. Entre uma coisa e outra e como nem Paris nem Montecarlo são moradas desprezíveis, dois aninhos passam rapidinho. E depois de tanto glamour, um pouco do charme suburbano da Flórida, que ninguém é de ferro.

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