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E Neymar comprou gato por lebre

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

21 de setembro de 2013 | 20h00

Edu: Quando joga mal, Neymar põe uma bola na trave e dá uma assistência. Mas pelo jeito esse é o menor problema do Barça. Como dizíamos outro dia, o time vai continuar ganhando, porque é muitíssimo melhor que o resto, mas e o bom jogo?

Carles: Um campo difícil Vallecas, de todos modos, para o bom jogo. Se bem que o Barça goleou nas 3 últimas vezes que passou por lá. Não é o melhor jogo para tirar conclusões. Soube ganhar e ponto. Só espero que o bom jogo apareça quando for imprescindível, contra os grandes de Europa. E Tata segue com os testes que devia ter feito na pré-temporada, reservada para as excursões promocionais.

Edu: Um pasto, na verdade, horroroso. Não justifica o fato de Neymar não ter conseguido completar um drible sequer, mesmo porque enfrentou muitos desses gramados por aqui. Mas o time continua sem ajudar e dá a impressão de ter entendido mal essa história de fazer a ligação direta, que propõe Tata e era um crime no tempo de Guardiola. Agora, virou uma espécie de ‘liberou geral’, todo mundo lá atrás se julga no direito de dar um chutão para os baixinhos lá da frente se virarem. Não é uma transição feita com equilíbrio, mas uma mudança repentina de estilo. A cada partida, o controle do jogo vai piorando, escapando mais do Barça. Lá se foi um mês e meio assim. Nesse jogo, perderam pela primeira vez no tempo geral de posse de bola em cinco anos – e logo para o Rayito Vallecano.

Carles: Parece uma opção preguiçosa, para evitar a tensão que pressupõe  sair com a bola jogada desde a linha de trás, passando por quantos pés forem necessários. Provavelmente, o plantel segue seu processo de exorcismo. Era duro trabalhar sob a exigência de Guardiola, que requeria a concentração de todos durante todo o tempo. Agora, se o volante for Song e ele estiver pensando na morte da bezerra quando o seu time está com bola, não tem tanta importância. Como já falamos aqui, poucas vezes voltaremos a ver Xavi e Iniesta juntos, porque isso significaria assumir o compromisso de um jogo com transições entre as linhas. Definitivamente, não existe o tal sistema híbrido. É tiqui-taca ou a volta à devoção ao velho jogo, chutões incluídos e com direito a uma ou outra jogada brilhante.

Edu: Se você diz que não vamos ver Iniesta e Xavi juntos, prefiro desistir do futebol, Carlão. Logo cedo vou à missa, purgar alguns pecados que provavelmente deixei nos estádios de futebol. Que é isso? Que heresia é essa que um certo Tata Martino quer cometer? Como assim?

Carles: Simples, Pep fez a ordem do caos. No time, poucos tinham posição fixa, as associações se multiplicavam pelo campo e através dessas pequenas partículas a bola permanecia mais de uma hora nos pés blaugranas, a cada jogo e assim ela chegava ao gol adversário. Tata não me parece um mau treinador, gosta do jogo ofensivo, mas nem em mil anos vai entender e muito menos por em prática esse sistema. Posso apostar que Guardiola nunca desenhou o posicionamento de um dos seus times numa lousa ou prancheta porque isso, para ele, seria uma heresia. Martino, ao contrário, não parece capaz de enxergar o time sem recorrer a esquemas, e isso é visível no campo, o time perdeu mobilidade, é mais estático e com funções mais definidas e estanques. Por isso, Xavi e Iniesta não vão voltar a coincidir. Eles não cabem juntos no velho futebol. E ele, infelizmente, está de volta. É o futebol reacionário que só responde a uma realidade que não suporta revoluções.

Edu: Então chega-se à conclusão de que, em seis semanas, o argentino desmontou seis temporadas. Pobre Neymar, que ficou nos últimos meses sonhando em jogar naquele time que ele via passeando todos os sábados ou domingos com a bola nos pés em 70% do tempo. Ele se via tabelando com Iniesta, triangulando com Xavi e agora terá que se ajeitar com os chutões do Piqué e do Masche e se acostumar a uns quantos contra-ataques, que, no caso dele, vai resultar em mais pancadaria desses zagueiros grotescos. Dá pra fazer uma reclamação do Procon?

Carles: Não, quem desmontou as seis temporadas foi a diretoria. Ao apito final daquele 0 a 3 no Camp Nou contra o Bayern pelas semis da Champions e um acumulado de 0 a 7, o Rosell deve ter respondido “- Ya está bien de mariconadas, hombre”, feito um general golpista cansado dos deliciosos riscos de um sistema democrático. Não sei se o Neymar vai chegar a sentir-se frustrado, nem se ele vai sentir a diferença porque o outro Barça ele viu pela TV, mas definitivamente aquele não volta, mesmo que Rosell não siga e que Guardiola volte, porque aquilo dá muito trabalho e poucos estão dispostos a trabalhar tanto para que, ao primeiro sinal de fracasso, as críticas chovam de todos os lados. Isso não quer dizer que Neymar não possa fazer parte de um bom time, comum, mas um bom time. Se quiser podemos fazer uma reclamação a alguém que responda pelos direitos do torcedor. Eu assino também.

Edu: Assim fica fácil, nas horas baixas basta crucificar o Rosell. O fato é que todo mundo, você inclusive, achava que o Barça precisava de variações e agora os próprios jogadores que diziam isso estão se mostrando sem iniciativa. Enquanto isso, Diego Costa se farta de marcar seus gols pelo outro líder, o Atlético. Já é o vice-artilheiro da Liga, só atrás do Messi…

Carles: Pois é, tem gente que confunde evolução com retrocesso porque nos dois casos tem movimento. Para mim, Rossel nessa história é o mordomo, sempre foi o culpado porque é inevitável que ele enxergue tudo através da caixa registradora. Lógico que ninguém é ingênuo a ponto de pensar que isso não é um negócio, mas também é um espetáculo e tem que divertir. Também é uma competição e o Barça por enquanto demonstra saber competir. Mas o Atlético de Simeone não fica atrás. Para sorte do torcedor e do futuro artilheiro de La Roja, sergipano da gema.

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