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Ecos da Confecup e muito por fazer

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

02 de julho de 2013 | 06h02

Carles: Felipão de repente virou herói, o messias…

Edu: Era previsto.

Carles: Até o outro dia, tinha gente chamando ele de tudo.

Edu: Inclusive nós, mas aqui sem baixar o nível.

Carles: Para mim ele segue sendo o mesmo, o que não impede reconhecer o bom trabalho que a equipe técnica fez na final. Inclusive na semifinal já se podiam notar algumas mudanças.

Edu: Ele é o mesmo, claro, mas deu alguns passos surpreendentes também por causa dessa pressão externa. É algo que também ajuda a construir se for bem feito. Se todo mundo aliviasse antes, ele já teria colocado mais um zagueiro, fechado totalmente o meio de campo e talvez hoje a ‘Roja’ estivesse comemorando sua primeira Confecup.

Carles: Não sei quem foi o verdadeiro responsável, mas além da motivação, marca da casa, o posicionamento do time foi perfeito. Perdeu a posição uma vez só no jogo inteiro, na jogada em que o David Luiz tirou a bola praticamente de dentro. Assim mesmo, não deixou de ser um time obstrutor, compensado pela enorme capacidade construtora dos talentos lá da frente. O maior passador foi David Luiz, com a perna esquerda para o lado direito e por cima. Algo nitidamente ensaiado para explorar a diferença de porte entre Hulk e Jordi Alba.

Edu: Sinto que alguma coisa o Parreira fez, porque estava muito falante durante toda a semana. Antes ele esteva meio na sombra. Parece que o Parreira já tinha preparado um estudo sobre Bayern e Barça, depois daqueles jogos da Champions, para apresentar nas palestras que dá… Certamente eles usaram muito disso no jogo, mesmo porque a maioria dos titulares atua na Europa e tem boa noção tática. Basta ver o que fizeram Luís Gustavo, Hulk, Dani Alves e mesmo os zagueiros, quanto a posicionamento principalmente.

Carles: Pois é, o time estava posicionado à europeia. Cheguei a pensar se o Felipão é mesmo esse cara teimoso ou se a resistência dele é só em reconhecer que é possível reconsiderar suas próprias posições, isto sim, algo desejável.

Edu: Ele é bem turrão com algumas coisas de que tem convicção e em muitas delas se equivoca claramente, como essa história de menosprezar a estética do jogo. Mas começo a achar que, como ele não tem nenhuma sofisticação tática, pode ter feito concessões, numa demonstração de humildade em relação ao auxiliar técnico. Não que Parreira seja um monstro de criatividade nisso, mas é um cara que adora o padrão de jogo anglo-saxão e pesquisa muito essas coisas. Não tem nenhum pudor em dizer que ter a iniciativa do jogo não garante nada e vive relativizando a questão da posse de bola.

Carles: Ou seja, provavelmente nos bastidores, sim, Felipão deve ter pedido ajuda. É um bom começo. Desconfio também se a previsão dele acerca do fim do ciclo do futebol de toque, na verdade, tinha como alvo a Espanha, o Barça ou os defensores desse modelo como sendo a panaceia e única forma de jogo. Então, resumindo, o Brasil acredita que já encontrou o seu time ideal para 2014? Ou, como no caso da seleção espanhola, ainda se considera a possibilidade de retoques?

Edu: O Brasil é uma coisa, Felipão, que é quem manda, é outra. Ele disse várias vezes no domingo que nada está pronto, longe disso. Mas pode ser só retórica. Tenho a impressão de que, como aconteceu com Dunga, que fechou com o time que lhe deu a Confecup de 2009, só fará mudanças pontuais ou se surgir uma grande novidade, um cracaço fora de época. Dunga foi tão xiita nesse ponto que fechou a porta para o próprio Neymar em nome de levar alguns fieis escudeiros de qualidade duvidosa. Parreira também tem essa mania de ‘times fechados’. Só que um ano é muito tempo para dizer que há um time pronto. Houve, isso sim, um avanço muito maior que o esperado, a certeza de que é possível fazer algo de bom, até pelo amadurecimento de alguns nomes importantes que estão aí.

Carles: Vantagens e desvantagens da vitória. Com ela, chega a possibilidade de acomodação ou a tendência a fechar os olhos frente aos defeitos. Como ocorreu com Arbeloa, um claro caso de falta de nível e que no Maracanã ficou a descoberto. Na véspera falamos de que era ele um dos maiores perigos para a seleção espanhola. Hoje, pela primeira vez, pudemos ler por aqui críticas diretas ao rapaz. Obviamente não foi o responsável direto por todos os problemas do time, mas multiplicou por muito a vulnerabilidade e deu asas ao adversário, que talvez nem precisasse dessa “ajudinha”. Mas isso é só o começo,  salta aos olhos que o time necessita alternativas de jogo. A renovação é inadiável. Imagino que Del Bosque previa isso para depois da Confederações, com ou sem título. O maior problema foi a forma como acabou o torneio, com seu time sendo literalmente atropelado na final, deixando escancaradas as carências da equipe.

Edu: Nesse caso específico, acho que teve a mão de Dani Alves e talvez também de Marcelo, que conhecem com sobras as debilidades de Arbeloa. Desde o início do jogo ficou evidente que ali era um bom caminho, que no final também foi do outro lado, porque Alba pareceu nervoso e perdidão em muitos momentos. O fato de o Brasil ter estudado o adversário de uma forma minuciosa foi, disparado, a grande virtude, algo pouco usual na nossa história futebolística. E é inevitável que a comissão técnica da Espanha e também seus torcedores se questionem, como você já fez, sobre isso: estão nos estudando, já sabem explorar nossos defeitos, algo temos que fazer.

Carles: Se por um lado a necessidade de revisão e de renovação é clara, a reinvenção em alguns casos não é má solução. Cansamos de ver jogadores sendo enterrados prematuramente enquanto outros vivem uma segunda ou terceira juventude. Estamos de acordo que Torres tem demasiadas limitações, um repertório muito limitado e que pode ser útil apenas em um determinado esquema de jogo (pode ir para o Napoli, cai como uma luva nos esquemas de Benitez). Contudo, Villa demonstrou que pode ser um jogador útil ainda, quiçá longe ficaram os tempos de sua inquestionável titularidade, mas é um jogador mais versátil que ‘el niño’. Pelo menos enquanto Morata (ou Diego Costa!) não chega. Você mesmo ressaltou a importância que pode ter a experiência internacional para os jogadores brasileiros. Pode ser um bom conselho também para alguns espanhóis, como Villa.

Edu: Particularmente considero Villa um injustiçado. A contusão grave que teve pode ter minado parte da sua confiança, mas em nenhum momento seus dois treinadores – Tito Vilanova e Del Bosque – voltaram a ter compreensão suficiente e dar as chances que ele merecia por sua história. É bom lembrar que, na Copa de 2010, ele chegou meio na sombra de Torres e foi determinante para o título da Espanha. Mostrou que é um cara de grandes momentos, ao menos esse reconhecimento ele merece.

Carles: Talvez um pouco injustiçado pelas circunstâncias, mas é verdade que nem Tito, nem Del Bosque demonstraram a mesma boa vontade que tiveram com outros jogadores. Villa tem o temperamento e o orgulho do menino que vindo de uma família humilde, muito humilde, conseguiu vencer. É filho de mineiro asturiano, uma das profissões “contemporâneas” mais duras que conheço. Ele procura demonstrar essa dureza, nota-se que sofre as injustiças calado, como se os privilégios que a vida lhe deu, comparado com a do pai, não lhe dessem direito a queixar-se. Não estou justificando a falta de empatia de seus treinadores, mas essa forma de ser do David pode explicar muita coisa também.

Edu: Lembraremos por algum tempo desses ecos da Confecup. Acho que vale a pena, o torneio foi muito proveitoso.

Carles: Dia difícil, de ressaca para os espanhóis. Prometo ir digerindo esse mau trago pouco a pouco.

 

 

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